2001 – Uma odisséia no corpo e no espaço íntimo
 
Inês Cristina Di Mare Salles
 

“Como será o amanhã? Responda quem puder.
O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser.”

O samba faz a pergunta que todos nós, em algum momento nesta época, também fazemos. Como será o corpo? Um tempo que herda relações entre homens, mulheres e famílias em interações dinâmicas, fora dos velhos padrões sociais num mundo pós-pílula anti-concepcional.

Como será? Previsões para... frases feitas, chavões em todas as viradas de ano, mas fechar um século e abrir um milênio tem um sabor diferente. Este século XXI parece nos deixar sem previsões plausíveis se analisarmos suas promessas. A ciência avança e vem apontando situações que só imaginávamos nos filmes de ficção.

O ideal de saúde perfeita e a perspectiva de ir driblando a morte vem se consolidando a cada dia com as novas possibilidades da engenharia genética – a reprodução assistida e a medicina preditiva proporcionando melhorias na qualidade de vida. No entanto, também vem à reboque dilemas éticos e morais como a interrupção da gravidez e o debate em torno do aborto ou das garantias legais de privacidade das informações de caráter genético. Essas são as chamadas questões bioéticas.

Essas situações problemáticas relativas ao nascimento acabam tendo que ser resolvidas pelas mulheres, na medida em que elas levam no ventre os bebês e a ciência ainda não conseguiu chegar a um consenso sobre quando começa a vida humana, a partir de que momento as células têm status de pessoa. Este debate é muito atual em várias áreas como direito, religião, psicologia e as ciências biológicas mas circunscrito aos ambientes acadêmicos sendo, dessa forma, pouco esclarecedor à população.

A palavra em voga por todas essas questões nos diversos setores da sociedade é o cuidado. Pensadores de várias correntes têm reconhecido a necessidade do cuidado como uma das principais características a serem desenvolvidas para enfrentar esses e outros desafios contemporâneos. O cuidado e a responsabilidade são a base da ética feminina e, segundo Gilligan ( 1982 ), se integrados à ética masculina dos direitos e da justiça, podem se constituir na melhor opção de solução de conflitos de forma não violenta. Ou seja, essa é a resposta para as profecias de que este próximo tempo será predominado pelos valores femininos.

Mas como será viver o milênio do feminino? Como expressamos, em nossos corpos e nossas vidas, o feminino? Principalmente para os homens e para aquelas mulheres que estruturaram seus pensamentos e corpos conforme os valores do masculino, este novo tempo propõe um bom exercício de reencontro consigo mesmo.

Como começamos esse exercício ou aventura? Existem algumas dicas, terapias, livros e o melhor guia – a convivência dia-noite-dia. Conforme afirma Linda S. Leonard, em seu livro ‘ A mulher ferida – em busca de um relacionamento responsável entre homens e mulheres’ ( Summus Editorial ), é fundamental a percepção de nossas relações com o pai familiar ou a influência que a sociedade patriarcal exerceu na constituição de nossa identidade pessoal. Dessa forma, podemos pensar em que medida valorizamos o poder, a submissão, a beleza, o controle, a independência em nossas metas e forma de agir no cotidiano.

Em termos de sexualidade, podemos observar como sentimos prazer, percebendo nosso estado de paz sob o prisma do corpo, da capacidade de comunicação, superação de conflitos pelo diálogo e o reencontro com a harmonia e o alinhamento dos centros físico, mental, emocional e espiritual.

Novamente, lembramos Leonard e suas reflexões sobre a visão taoísta do tema, na qual os aspectos masculino e feminino são representados pelo céu e pela terra, respectivamente. Ela focaliza a circulação de energia entre ambos como ponto de crescimento pois o isolamento de um dos dois gera desequilíbrios sentidos por toda a natureza.

Analogamente, quando cuidamos de nosso céu e terra internos, criamos a chance de viver numa sociedade em que os homens poderão recuperar “o poder de suas lágrimas honrando seu lado jovem, terno e feminino.” ( Leonard ) E nós, mulheres, podemos descobrir nossos próprios valores, objetivos, saindo do até então ‘eterno’ lugar da jovem ( bela ), inteligente ( uma possibilidade ) e dependente ( de preferência, sempre ) ou muito zelosa ( mantendo o poder ) para uma mulher que integre as qualidades úteis para si e aprenda outras necessárias à condição de sujeita de direitos e desejos, ou seja, da própria vida.

Só podemos falar de ‘mulheres sujeito’ e não objeto, ou do ‘milênio do feminino’ graças ao esforço de muitas pioneiras. Aqui no Brasil, uma maioria oculta de índias e negras anônimas participaram da construção deste país. Também recebemos a herança de brancas de várias nacionalidades que fortaleceram as lutas das mulheres, transformando bastante as regras de convivência entre os homens e mulheres desde 1500.

O saldo mais positivo deste último século foi a evolução das mulheres e da imagem do feminino dentro de cada homem e de cada mulher. “Há 120 anos, as mulheres alcançaram o acesso à educação formal, há 66 anos, o direito ao voto e há 12 anos, a igualdade plena na Constituição Brasileira.” ( Schumaker ). É uma história recente e mal contada.

Uma equipe enorme de pesquisadores vêm trabalhando no projeto “Mulher 500 anos atrás dos panos” e conseguiram brindar nosso final de ano com a publicação do Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até a atualidade, biográfico e ilustrado, da Jorge Zahar Editor. O livro foi organizado por Schuma Schumaker, coordenadora da Rede de Desenvolvimento Humano – REDEH – e Érico Vital Brazil, coordenador da Arte Sem Fronteira.

Esse trabalho tem por “objetivo revelar o lado oculto da história oficial e contribuir para a construção da memória das mulheres brasileiras” ( Schumaker ) e pode-se ressaltar a valorização do aspecto feminino no interior de cada um de nós. O feminino como protagonista, como autor, ou melhor, co-autor das realizações no Brasil. Esse livro pretende ser uma referência, reúne por volta de 900 exemplos de mulheres, algumas histórias inéditas, experiências em todas as áreas da ação humana, citando nomes desde XVI . É mais um instrumento que ajuda no redimensionamento de nossa auto-estima, aumenta nosso espelho e inclui a mulher como personagem de primeira categoria, parceira do homem em nossa memória.

Dedico o espaço de “ Sexo e Vida” à divulgação destes preciosos livros. Podemos agora ter uma noção mais concreta do importante papel que as mulheres desempenharam na história e nos sentirmos respaldados para romper com a polaridade força/poder X fraqueza/ amor em nosso esquema interior, transbordando essa integração e transformando as parcerias amorosas, as conversas com amigos e a educação.

Após um mergulho amoroso no fundo mais fundo, quieto, escuro e quentinho de nossa consciência, sentiremos a presença dessa força feminina e, desse contato, plantaremos as sementes de uma cultura de convivência mais justa e pacífica neste novo planeta. Desejo a todos a integração da objetividade com a subjetividade e um dia a dia amoroso no século XXI.

 
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