Compartilhando Habilidades no INT: Um Projeto Organizacional Formativo
 
Henriette M. Krutman
 

INTRODUÇÃO
S. Keleman tem qualificado as seguintes questões como fundamentais para o ser humano:

1) Evitar a morte prematura, garantindo o vivenciar de todas as fases do seu processo formativo;
2) Perguntar-se sistematicamente:

• como me uso?
• como organizo a minha presença no mundo?
• como alimento/amadureço os meus corpos pessoal e social?

Seria viável buscarmos uma analogia entre essas indagações formativas individuais e as questões que direcionam o mundo das organizações? Eu diria que sim!

1) O objetivo primeiro de qualquer organização é garantir a sua sobrevivência;
2) Para tal, as perguntas mais importantes com que a direção e os seus membros precisam lidar são:

• como estamos alocando (=organizando) os nossos recursos?
• como se traduz (em termos de resultados) a nossa presença no mundo?
• a administração está bem balanceada entre o foco interno e externo?

Partindo desse pressuposto, pretendo demonstrar que o princípio formativo impregna aquelas organizações cujo ideário (crenças e valores hegemônicos) privilegie a gestão participativa e inclusiva, a autonomia de ação e a responsabilidade social. Internamente, funcionam como organizações de aprendizagem e, externamente (i.e., na interface com o entorno e os clientes), posicionam-se como empresas-cidadãs.

DESENVOLVIMENTO

Segundo Keleman, o negócio da Psicologia Formativa é ajudar a pessoa a tornar-se íntima de si mesma. Para isso, trabalha-se o auto-conhecimento e o auto-gerenciamento a partir de dois mecanismos:

1) o estabelecimento de um diálogo interior, intraorganísmico, somático-subjetivo, capaz de fortalecer o nosso corpo pessoal e inibir a morte prematura. Essa crescente habilidade do organismo de relacionar-se mais intensa e profundamente consigo mesmo – e de usar-se mais eficazmente— caracteriza a adultez/maturidade;
2) a partir dessa familiarização com os nossos padrões de organização somático-emocionais, poderemos, então, constituir uma rede de interações interpessoais que aprofunde o nosso corpo social ; ou seja, formando distinções em nossas expressões herdadas, iremos ampliar, enriquecer e sofisticar a nossa biblioteca de respostas interativas.

Nas organizações com padrões formativos, podemos distinguir algumas características equivalentes. Nelas:

1) privilegia-se a visão autopoiética da cultura organizacional, considerando-se a cognição como um ato criativo de construção da realidade;
2) promove-se o aprendizado contínuo, de forma a alicerçar um processo de auto-renovação e ampliar a complexidade organizacional em todos os níveis;
3) legitima-se a discrepância, estimula-se a autonomia, a criatividade e a emergência de novos processos e padrões de ação auto-organizantes (i.e., aqueles que contemplam não só a redundância/repetição quanto a variedade/diversidade, permitindo, assim, maiores possibilidades de resposta aos estímulos inesperados do ambiente e de energias catalisadoras da criatividade) ;
4) reconhece-se o surgimento de alianças interpessoais e redes informais de interação cada vez mais fortes e diferenciadas. Assim como a riqueza nas interconexões neurais (i.e., as sinapses entre axônios e dendritos) aumenta a nossa capacidade de dar respostas mais sofisticadas, nas organizações, uma intensa capilaridade das redes interpessoais aumenta a habilidade e agilidade em lidar com a mudança. Isso expande a sua capacidade de aprender e reciclar-se, de dar respostas criativas, de escalar a árvore de distinções que já possui dentro de si e, conseqüentemente, de sobreviver.

Em suma, a organização formativa estimula a compatibilização das metas institucionais com os objetivos e interesses pessoais. Consegue alimentar o seu corpo social, mantendo-se viva e saudável no mercado. Ao mesmo tempo, não se restringe à simplificação impessoal inerte da organização formal, abrindo leques de oportunidades para o desabrochar do potencial de complexidade pessoal dos seus membros (ou seja, do seu corpo pessoal).


COMPARTILHANDO HABILIDADES NO INT: UM EXEMPLO DE PROJETO ORGANIZACIONAL FORMATIVO

"Meu sonho é que homens e mulheres no mundo todo tenham uma oportunidade a cada dia, nem que seja por uma hora apenas, para aprender, se atualizar e progredir. Meu sonho é ver milhões de pessoas em todas as partes se encontrando, conversando e tomando iniciativas."

Federico Mayor (diretor geral da UNESCO)

No âmbito da nova política de gestão implantada na década de 90 no Instituto Nacional de Tecnologia, a modelagem do COMPARTILHANDO HABILIDADES surgiu paulatinamente, fruto de um abrangente processo de reflexão estratégica que envolveu dirigentes e servidores interessados em aliar o desenvolvimento de habilidades à ampliação das oportunidades de convívio social no próprio Instituto.

Nesse contexto, o projeto floresceu como parte integrante do Programa QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO. A sua implementação significou a introdução de mudanças qualitativas no mosaico sócio-cultural da organização, principalmente em relação ao estímulo à ética da colaboração, à criatividade e ao desenvolvimento do espírito de equipe e de ajuda mútua e à experimentação de uma nova arquitetura de interações supra-hierárquicas.

COMO FUNCIONA O PROJETO

O COMPARTILHANDO HABILIDADES funciona desde o início de 1997, sob as seguintes condições de contorno:

• todas as atividades ocorrem nas instalações do INT, no horário das 8h às 9h30min. ou após as 18h.;
• não há qualquer tipo de remuneração ou benefício específico para os instrutores, nem taxas ou pagamentos de qualquer espécie devidos pelos participantes;
• cada servidor, bolsista ou colaborador pode participar de até 3h semanais de atividades (ou 5h, no caso dos alunos da Educação Básica);
• essas horas de atividade são computadas na carga horária de trabalho;
• as atividades ofertadas passam pela avaliação prévia e o acompanhamento dos gestores do Projeto.

As atividades se desenvolvem em:

• Um "Teleposto" com "telessala" equipada para a Educação Básica;
• um local no térreo, ao ar livre mas coberto, com 220 m2 ;
• um salão (fechado) com cerca de 60 m2;
• duas salas auxiliares, equipadas com TV e vídeo.

Nestes (quase) três anos de funcionamento, já foram ofertadas as seguintes atividades: croché, bordado em ponto de cruz, tapeçaria, teatro, escultura/colagem, feng-shui, tai-chi, ikebana, inglês, origami, shiatsu, meditação, dança de salão, dança baiana, capoeira, violão e curso básico de instalações elétricas.

A partir de meados de 1998, o projeto estendeu-se à formação básica, obedecendo às mesmas regras. Assim, os instrutores fazem parte da força de trabalho do INT, não recebendo remuneração extra e as aulas ocorrem durante o expediente, sendo computadas na carga horária de trabalho.

No momento (novembro/99), o projeto beneficia 110 participantes, ou seja, cerca de 35% do corpo funcional do Instituto.

Já foram realizadas duas avaliações do projeto. Elas apontam como pontos fortes: integração, motivação, melhoria no clima organizacional e aquisição de novos conhecimentos. É gratificante frisar que praticamente todos os participantes informam ter as suas expectativas plenamente correspondidas.

EXPLICITANDO O PRINCÍPIO FORMATIVO NO COMPARTILHANDO HABILIDADES

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, tudo, tudo..."

Raul Seixas

Ao propiciar um espaço institucional para que diretores, chefes, servidores de todos o níveis e áreas, bolsistas e empregados de serviços terceirizados compartilhem habilidades entre si, o INT abre amplas oportunidades de estabelecimento de interações tão ricas quanto inusitadas entre pessoas que, no âmbito das relações convencionais de trabalho, não trocariam mais do que palavras formais.

É importante enfatizar que as relações informais estabelecidas através do Compartilhando Habilidades diferem muito das panelas, patotas ou cliques que constituem os grupos informais nas organizações. Estes últimos surgem, usualmente, a partir de um discurso comum proveniente de afinidades hierárquicas, profissionais, corporativas, religiosas etc.

Já no Compartilhando Habilidades, quando o vigilante interage, na condição de instrutor de chefes e pós-graduados, ou quando a diretora do INT participa de ensaios teatrais em pé de igualdade com pessoas do "chão de fábrica", todos eles dirigidos por uma secretária, na verdade o que está-se ensaiando não são apenas os passos de capoeira ou a peça de teatro; essas pessoas estão, sobretudo, aprendendo novos padrões de interação que ampliam a sua visão de mundo e a sua tolerância ao lidar com o diferente. Enfim, cada qual está enriquecendo o seu processo formativo com um ampliado repertório de respostas pessoais multicamadadas.

A organização formal é diretamente afetada por essas transações. Com efeito, ao mexer com as referências simbólicas da estrutura formal –que moldam as ações de seus membros segundo um determinado figurino—, o COMPARTILHANDO provoca um ruído (feedback do tipo positivo) que enseja a sua reorganização em patamares mais elevados de complexidade e diversidade.

Podemos, então, inferir que o Projeto atinge os seguintes objetivos formativos:

1) Estimular a ética da solidariedade e da colaboração no mosaico cultural da instituição – em contraposição ao comportamento competitivo-individualista - multiplicando as oportunidades para o exercício do trabalho voluntário e solidário.
2) Buscar a convergência entre interesses individuais e objetivos institucionais;
3) Propiciar a diversidade na integração interpessoal, através do convívio em configurações outras que não os redundantes recortes hierárquicos, funcionais ou sócio-intelectuais;
4) Viabilizar uma crescente capilaridade nas redes informais de interação no INT, propiciando o aprendizado, o estímulo à criatividade e a emergência do novo;
5) Incrementar a competência no relacionamento interpessoal e a capacidade para agir sinergicamente, direcionando esforços e ajuda em prol de terceiros;
6) Ensejar uma melhor qualidade de vida no (e através do) ambiente de trabalho, amenizando o stress e apoiando os projetos institucionais de Combate à Dependência Química e de melhoria contínua no clima organizacional;
7) Apoiar o esforço do INT para caracterizar-se também como uma Organização de Aprendizagem, estimulando o aprendizado em todos os níveis e contribuindo para o desenvolvimento intelectual, emocional, físico, criativo, lúdico, de auto-consciência, da saúde e do bem-estar da sua força de trabalho;
8) Apoiar o esforço do INT para tornar-se uma empresa-cidadã modelar.

 
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