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INTRODUÇÃO
S. Keleman tem qualificado as seguintes questões como fundamentais
para o ser humano:
1) Evitar
a morte prematura, garantindo o vivenciar de todas as fases do seu processo
formativo;
2) Perguntar-se sistematicamente:
como
me uso?
como organizo a minha presença no mundo?
como alimento/amadureço os meus corpos pessoal e social?
Seria viável buscarmos uma analogia entre essas indagações
formativas individuais e as questões que direcionam o mundo das
organizações? Eu diria que sim!
1) O objetivo
primeiro de qualquer organização é garantir a sua
sobrevivência;
2) Para tal, as perguntas mais importantes com que a direção
e os seus membros precisam lidar são:
como estamos alocando (=organizando) os nossos recursos?
como se traduz (em termos de resultados) a nossa presença
no mundo?
a administração está bem balanceada entre
o foco interno e externo?
Partindo desse pressuposto, pretendo demonstrar que o princípio
formativo impregna aquelas organizações cujo ideário
(crenças e valores hegemônicos) privilegie a gestão
participativa e inclusiva, a autonomia de ação e a responsabilidade
social. Internamente, funcionam como organizações de aprendizagem
e, externamente (i.e., na interface com o entorno e os clientes), posicionam-se
como empresas-cidadãs.
DESENVOLVIMENTO
Segundo Keleman,
o negócio da Psicologia Formativa é ajudar a pessoa a tornar-se
íntima de si mesma. Para isso, trabalha-se o auto-conhecimento
e o auto-gerenciamento a partir de dois mecanismos:
1) o estabelecimento
de um diálogo interior, intraorganísmico, somático-subjetivo,
capaz de fortalecer o nosso corpo pessoal e inibir a morte prematura.
Essa crescente habilidade do organismo de relacionar-se mais intensa e
profundamente consigo mesmo e de usar-se mais eficazmente
caracteriza a adultez/maturidade;
2) a partir dessa familiarização com os nossos padrões
de organização somático-emocionais, poderemos, então,
constituir uma rede de interações interpessoais que aprofunde
o nosso corpo social ; ou seja, formando distinções em nossas
expressões herdadas, iremos ampliar, enriquecer e sofisticar a
nossa biblioteca de respostas interativas.
Nas organizações com padrões formativos, podemos
distinguir algumas características equivalentes. Nelas:
1) privilegia-se
a visão autopoiética da cultura organizacional, considerando-se
a cognição como um ato criativo de construção
da realidade;
2) promove-se o aprendizado contínuo, de forma a alicerçar
um processo de auto-renovação e ampliar a complexidade organizacional
em todos os níveis;
3) legitima-se a discrepância, estimula-se a autonomia, a criatividade
e a emergência de novos processos e padrões de ação
auto-organizantes (i.e., aqueles que contemplam não só a
redundância/repetição quanto a variedade/diversidade,
permitindo, assim, maiores possibilidades de resposta aos estímulos
inesperados do ambiente e de energias catalisadoras da criatividade) ;
4) reconhece-se o surgimento de alianças interpessoais e redes
informais de interação cada vez mais fortes e diferenciadas.
Assim como a riqueza nas interconexões neurais (i.e., as sinapses
entre axônios e dendritos) aumenta a nossa capacidade de dar respostas
mais sofisticadas, nas organizações, uma intensa capilaridade
das redes interpessoais aumenta a habilidade e agilidade em lidar com
a mudança. Isso expande a sua capacidade de aprender e reciclar-se,
de dar respostas criativas, de escalar a árvore de distinções
que já possui dentro de si e, conseqüentemente, de sobreviver.
Em suma, a organização formativa estimula a compatibilização
das metas institucionais com os objetivos e interesses pessoais. Consegue
alimentar o seu corpo social, mantendo-se viva e saudável no mercado.
Ao mesmo tempo, não se restringe à simplificação
impessoal inerte da organização formal, abrindo leques de
oportunidades para o desabrochar do potencial de complexidade pessoal
dos seus membros (ou seja, do seu corpo pessoal).
COMPARTILHANDO HABILIDADES NO INT: UM EXEMPLO DE PROJETO ORGANIZACIONAL
FORMATIVO
"Meu sonho é que homens e mulheres no mundo todo tenham
uma oportunidade a cada dia, nem que seja por uma hora apenas, para aprender,
se atualizar e progredir. Meu sonho é ver milhões de pessoas
em todas as partes se encontrando, conversando e tomando iniciativas."
Federico
Mayor (diretor geral da UNESCO)
No âmbito
da nova política de gestão implantada na década de
90 no Instituto Nacional de Tecnologia, a modelagem do COMPARTILHANDO
HABILIDADES surgiu paulatinamente, fruto de um abrangente processo de
reflexão estratégica que envolveu dirigentes e servidores
interessados em aliar o desenvolvimento de habilidades à ampliação
das oportunidades de convívio social no próprio Instituto.
Nesse contexto,
o projeto floresceu como parte integrante do Programa QUALIDADE DE VIDA
NO TRABALHO. A sua implementação significou a introdução
de mudanças qualitativas no mosaico sócio-cultural da organização,
principalmente em relação ao estímulo à ética
da colaboração, à criatividade e ao desenvolvimento
do espírito de equipe e de ajuda mútua e à experimentação
de uma nova arquitetura de interações supra-hierárquicas.
COMO FUNCIONA
O PROJETO
O COMPARTILHANDO HABILIDADES funciona desde o início de 1997, sob
as seguintes condições de contorno:
todas
as atividades ocorrem nas instalações do INT, no horário
das 8h às 9h30min. ou após as 18h.;
não há qualquer tipo de remuneração
ou benefício específico para os instrutores, nem taxas ou
pagamentos de qualquer espécie devidos pelos participantes;
cada servidor, bolsista ou colaborador pode participar de até
3h semanais de atividades (ou 5h, no caso dos alunos da Educação
Básica);
essas horas de atividade são computadas na carga horária
de trabalho;
as atividades ofertadas passam pela avaliação prévia
e o acompanhamento dos gestores do Projeto.
As atividades se desenvolvem em:
Um
"Teleposto" com "telessala" equipada para a Educação
Básica;
um local no térreo, ao ar livre mas coberto, com 220 m2
;
um salão (fechado) com cerca de 60 m2;
duas salas auxiliares, equipadas com TV e vídeo.
Nestes (quase) três anos de funcionamento, já foram ofertadas
as seguintes atividades: croché, bordado em ponto de cruz, tapeçaria,
teatro, escultura/colagem, feng-shui, tai-chi, ikebana, inglês,
origami, shiatsu, meditação, dança de salão,
dança baiana, capoeira, violão e curso básico de
instalações elétricas.
A partir
de meados de 1998, o projeto estendeu-se à formação
básica, obedecendo às mesmas regras. Assim, os instrutores
fazem parte da força de trabalho do INT, não recebendo remuneração
extra e as aulas ocorrem durante o expediente, sendo computadas na carga
horária de trabalho.
No momento
(novembro/99), o projeto beneficia 110 participantes, ou seja, cerca de
35% do corpo funcional do Instituto.
Já
foram realizadas duas avaliações do projeto. Elas apontam
como pontos fortes: integração, motivação,
melhoria no clima organizacional e aquisição de novos conhecimentos.
É gratificante frisar que praticamente todos os participantes informam
ter as suas expectativas plenamente correspondidas.
EXPLICITANDO
O PRINCÍPIO FORMATIVO NO COMPARTILHANDO HABILIDADES
"Eu
prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião
formada sobre tudo, tudo, tudo..."
Raul Seixas
Ao propiciar
um espaço institucional para que diretores, chefes, servidores
de todos o níveis e áreas, bolsistas e empregados de serviços
terceirizados compartilhem habilidades entre si, o INT abre amplas oportunidades
de estabelecimento de interações tão ricas quanto
inusitadas entre pessoas que, no âmbito das relações
convencionais de trabalho, não trocariam mais do que palavras formais.
É
importante enfatizar que as relações informais estabelecidas
através do Compartilhando Habilidades diferem muito das panelas,
patotas ou cliques que constituem os grupos informais nas organizações.
Estes últimos surgem, usualmente, a partir de um discurso comum
proveniente de afinidades hierárquicas, profissionais, corporativas,
religiosas etc.
Já
no Compartilhando Habilidades, quando o vigilante interage, na condição
de instrutor de chefes e pós-graduados, ou quando a diretora do
INT participa de ensaios teatrais em pé de igualdade com pessoas
do "chão de fábrica", todos eles dirigidos por
uma secretária, na verdade o que está-se ensaiando não
são apenas os passos de capoeira ou a peça de teatro; essas
pessoas estão, sobretudo, aprendendo novos padrões de interação
que ampliam a sua visão de mundo e a sua tolerância ao lidar
com o diferente. Enfim, cada qual está enriquecendo o seu processo
formativo com um ampliado repertório de respostas pessoais multicamadadas.
A organização
formal é diretamente afetada por essas transações.
Com efeito, ao mexer com as referências simbólicas da estrutura
formal que moldam as ações de seus membros segundo
um determinado figurino, o COMPARTILHANDO provoca um ruído
(feedback do tipo positivo) que enseja a sua reorganização
em patamares mais elevados de complexidade e diversidade.
Podemos,
então, inferir que o Projeto atinge os seguintes objetivos formativos:
1) Estimular
a ética da solidariedade e da colaboração no mosaico
cultural da instituição em contraposição
ao comportamento competitivo-individualista - multiplicando as oportunidades
para o exercício do trabalho voluntário e solidário.
2) Buscar a convergência entre interesses individuais e objetivos
institucionais;
3) Propiciar a diversidade na integração interpessoal, através
do convívio em configurações outras que não
os redundantes recortes hierárquicos, funcionais ou sócio-intelectuais;
4) Viabilizar uma crescente capilaridade nas redes informais de interação
no INT, propiciando o aprendizado, o estímulo à criatividade
e a emergência do novo;
5) Incrementar a competência no relacionamento interpessoal e a
capacidade para agir sinergicamente, direcionando esforços e ajuda
em prol de terceiros;
6) Ensejar uma melhor qualidade de vida no (e através do) ambiente
de trabalho, amenizando o stress e apoiando os projetos institucionais
de Combate à Dependência Química e de melhoria contínua
no clima organizacional;
7) Apoiar o esforço do INT para caracterizar-se também como
uma Organização de Aprendizagem, estimulando o aprendizado
em todos os níveis e contribuindo para o desenvolvimento intelectual,
emocional, físico, criativo, lúdico, de auto-consciência,
da saúde e do bem-estar da sua força de trabalho;
8) Apoiar o esforço do INT para tornar-se uma empresa-cidadã
modelar.
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