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Pedro chega
ao meu consultório para entrevista inicial.
Intelectual brilhante, 29 anos, casado, queixa-se de não conseguir
estar
inteiramente nas coisas que faz. "Tudo fica muito na cabeça",
"a vida fica
sem graça e muito difícil". A qualidade de seu olhar
é triste. Solicito que
se deite no colchão, respire, e cante a primeira música
que lhe venha à
cabeça. Quase imediatamente, Pedro canta um sambinha de Paulinho
da Viola,
música em modo maior.
Se um dia meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração tem mania de amor
E amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos ficou
Só um amor pode apagar
Pedro ri
com a música que lembrou. Mostra-se impressionado
por lembrar-se logo desta música. Solicito que a cante novamente
e feche os
olhos. Pedro canta e começa a mover suas mãos. Coloco dois
pequenos
pandeiros sob suas mãos e ele percute-os com relativa desenvoltura,
execução
difícil para a maioria das pessoas - cantar e tocar. Mas Pedro,
diferente da
minha observação, acredita que "saiu muito esquisito".
Compreendo que o que
saiu esquisito foi a inequívoca necessidade de amor e vínculo,
desvendada
por ele numa primeira sessão terapêutica. "Meu coração
tem mania de amor, e
amor não é fácil de achar. Se um dia meu coração
for consultado"...
Estabeleço
a hipótese de que, há muito, este homem
constitucionalmente ectomórfico não tem consultado o seu
coração, músculo
cardíaco, seu 'mesoderma'. É muito importante trabalhar
com ele o bloqueio
da garganta, elo integrador entre o cérebro e a emoção,
bem como desenvolver
as suas estruturas 'mesodérmicas'.
O cantar
de Pedro é revelador, como é revelador o cantar na
maioria das situações clínicas.
"O
som é um objeto subjetivo, que está dentro e fora, não
podendo ser tocado diretamente, nos toca com uma enorme precisão"
(3, p.26)
Peço
sempre a meus clientes que cantem. A minha dupla
formação, em psicologia e musicoterapia, me possibilita
uma intimidade com o
material sonoro e emocional que pode emergir dessa solicitação.
Algumas
vezes, experiências infantis, as mais variadas, assolam evocadas
pela
memória musical - humilhação, vergonha, medo ou prazer.
Atirei o pau no
gato, se esta rua fosse minha...
Celeste,
uma mulher na maturidade, terapeuta, atravessa um
delicado momento pessoal e familiar. Seu filho adolescente apresenta-se
como
um grande desafio a sua auto-estima, e, no atual momento existencial,
ela
conscientiza-se da necessidade do desapego de velhos papéis, abrindo-se
a
uma experiência interna de contato com a sua 'essência'. Na
primeira parte
da sessão, trabalhamos com um exercício de Kum Nye de grande
mobilização
energética. Depois, sentada com a coluna reta, peço que
permita que o seu
som saia durante a expiração, sem exigências, deixando
sair... Celeste canta
suavemente, improvisando uma singela melodia. Sua cabeça inclina-se
ligeiramente. Seguro sua testa, propondo que descanse o peso da cabeça
em
minhas mãos, enquanto continua a emitir o seu som. Quando sinto
a cabeça
realmente pesada, solicito que lentamente se levante e, durante este
movimento, cante a música que surgir dentro de si. Celeste, com
uma voz
infantil, canta:
Boi,
boi, boi,
Boi da cara preta,
Pega essa menina
Que tem medo de careta
Peço
que repita, e canto junto com ela. Seu queixo treme-
-chora. Abraça-se e continua a chorar. Eu cantando. Celeste se
embala num
balanço que sugere um movimento regredido de auto-consolação.
Continuo a
cantar, tocando-a suavemente. Peço que olhe para mim. Celeste respira
profundamente. Seu olhar é claro, seu corpo está relaxado.
Relata
experiência terrível de ter 2 anos, estar sozinha com muito,
muito medo.
O Trabalho
com Música, os grandes reservatórios energéticos
corporais
Dentro da ótica da Biossíntese, podemos analisar a
morfologia corporal a partir da interligação entre cabeça,
espinha e
abdômen. A ligação entre a cabeça e o abdômen
está dentro da garganta; entre
a espinha e o abdômen está no diafragma; e entre a cabeça
e a espinha, na
base do pescoço. A nuca, a garganta e o diafragma funcionam como
grandes
bloqueadores ou grandes facilitadores do fluxo energético entre
os três
grandes reservatórios energéticos cujos componentes somáticos
provêm
principalmente do ectoderma - o cérebro, do mesoderma - a coluna
vertebral, e do endoderma - o abdômen.
A origem
embriológica das estruturas responsáveis pelo
movimento é no mesoderma. Os músculos, os ossos, o sangue.
O seu grande
reservatório é a espinha.
Na música,
o ritmo é o grande indutor de movimento. Essa
indução é tão eficiente que, ao ouvirmos determinados
ritmos, começamos
imediatamente a nos movimentar, mesmo que seja por um simples balanço
do pé.
As possibilidades
terapêuticas da utilização do ritmo na
recuperação de doenças em que a diminuição
do movimento é característica -
hemiplegias, tetraplegias, paralisias cerebrais, etc...- são bastante
conhecidas dos musicoterapeutas que se dedicam à tarefa da reabilitação
motora.
O método
clínico que Boadella utiliza no trabalho com o
mesoderma é o 'grounding', que "baseia-se no estabelecimento
de uma boa
relação entre os movimentos voluntários, semivoluntários
e involuntários, e
na recriação de um tônus muscular apropriado".
(1, p.24)
Pedro já
estava há quase um ano sendo atendido por mim.
Nessa sessão ele diz que precisa confiar. Confiar nele próprio
e nas suas
potencialidades. Consegue estabelecer relacionamentos mais afetivos,
arrisca-se em situações novas, mas percebe que intimamente
sente-se
inseguro. Solicito que construa algumas frases que expressem o que sente.
Pedro, depois de uma meditação, diz:
Eu preciso
de confiança.
Confiança no que eu sinto
Confiança no que eu sou capaz
Confiança, é disto que eu preciso.
Peço
que crie uma música para o que acaba de dizer. Pedro
canta.
Repito sua
melodia. Cantamos juntos. Peço que se levante.
Sinta as pernas. Cante. Pressione o pé no chão e vá
cantando. Surge um
pequeno movimento. Peço que transforme o pequeno em grande movimento.
Pedro
passa a bater fortemente os pés no chão. Continuamos cantando,
experimentando a 'confiança-grounding' em suas pernas. Na análise
musical de
sua criação encontramos poucas notas, apenas três,
com intervalos pequenos -
2a. menor, 2a. maior, 3a. menor, uma criação que se estabelece
em torno da
tônica.
O pensamento, o contato com o mundo, o cérebro, a pele, os
órgãos dos sentidos têm no ectoderma sua formação
embriológica. O grande
reservatório energético do ectoderma é o cérebro.
"O
trabalho terapêutico de 'facing/sounding' é feito através
do contato visual e vocal e da integração entre sentimento,
linguagem e
percepção". (1, p.24)
A música também oferece uma curiosa atuação
nas regiões
cerebrais. Estando a área da palavra localizada no hemisfério
cerebral
dominante, a música, o canto, a melodia estão localizados
no hemisfério não
dominante. Por essa característica musical podemos integrar todo
o cérebro
quando cantamos ou mesmo quando ouvimos música.
Bárbara
é uma jovem musicista, moradora em outro Estado
brasileiro. Encontra-se no Rio para fazer uma pós-graduação.
Pouco olha
diretamente, conservando, a maior parte do tempo, a cabeça inclinada
para
baixo. Sua voz também é baixa. Faço com sua turma
uma vivência onde
apresento o meu trabalho de Musicoterapia numa abordagem da Psicoterapia
Corporal. No início, faço um aquecimento corporal. É
o outerground, o
preparatório. Aquecimento, circulação energética.
Depois o silêncio
interno, a possibilidade do contato de cada um com o seu mundo interno.
- Deixe
vir uma música à sua consciência. Não provoque,
nem
rejeite a canção que seu organismo lhe trouxer à
memória. Cante-a baixinho,
só para você. Depois dê mais volume à sua canção,
cante-a...
Bárbara
comenta que a música evocada por ela, infelizmente,
ela não sabia cantar. Lembrava-se apenas de uma frase: "Ainda
é cedo
amor...". Me conta também que naquele dia, pela manhã,
estivera andando
pelas ruas do Rio e casualmente foi parar exatamente onde morava quando
criança. Peço que me conte sobre esse tempo. Tinha sete
anos quando se
mudou. Aqui, morava com seus primos e tinha uma infância feliz.
Mentalmente
me recordo da letra de sua canção esquecida, e percebo que
nela há uma chave
para compreender Bárbara. Pergunto-lhe diretamente:
- Foi muito
dolorosa para você esta mudança?
Bárbara me olha com olhos incrédulos, surpresos.
Aproximo-me dela, e canto a belíssima criação de
Cartola:
Ainda
é cedo, amor,
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida,
Embora eu saiba que estás decidida,
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem, amor,
Preste atenção, o mundo é um moinho.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida,
De cada amor tu herdarás só o cinismo,
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés.
Bárbara
se emociona É para ela também uma revelação.
Havia
bloqueado em seu ser esse sentimento. Fora muito difícil a mudança.
Aqui
formava um grupo unido com seus primos. Quando ela viajou, os primos
combinaram que, se ela não voltasse dentro de um ano, eles todos
se mudariam
para a cidade onde Bárbara fixara residência. Pequenos sonhos
de crianças
que se amam, ilusões reduzidas a pó, neste mundo-moinho.
Na cidade nova, os
dias de solidão foram sem conta.
Peço
que Bárbara olhe para mim, e cantamos novamente a sua
música, cheia de sentido...
As estruturas
embrionárias do endoderma darão origem às
vísceras -pulmão, órgãos digestivos e glândulas.
Sua função é o metabolismo
da própria energia, sendo o abdômen o grande reservatório
das emoções.
"O
trabalho terapêutico denominado 'centring' baseia-se no
estabelecimento do ritmo do fluxo de energia metabólica e do equilíbrio
entre as duas metades do sistema nervoso vegetativo". (1, p.24)
Na prática,
isto significa uma ajuda na recuperação do
equilíbrio emocional e da respiração harmônica.
"A
música é capaz de distender e contrair, de expandir e
suspender, de condensar e deslocar aqueles acentos que acompanham todas
as
percepções. Existe nela uma gesticulação fantasmática
que está como que
modelando objetos interiores.
Isso dá
a ela um grande poder de atuação sobre o corpo e
a mente, sobre a consciência e o inconsciente, numa espécie
de eficácia
simbólica". (1, pp.26, 27)
Pedro, com
14 meses de trabalho terapêutico canta
"Marinheiro só". É seu tema. Pedro canta muito
lentamente, distorcendo o
andamento usual desta música. Eu o acompanho também muito
lentamente,
sublinhando com a interpretação dramática a sua exposição.
Mas eu não sou daqui - Marinheiro só
Eu não tenho amor - Marinheiro só
Eu sou da Bahia - Marinheiro só
De São Salvador - Marinheiro só
Ô marinheiro, marinheiro,
Quem te ensinou a navegar?
Ou foi o tombo do navio,
Ou foi o balanço do mar...
Cantar pode
mobilizar profundamente as três estruturas de
conexão entre os reservatórios energéticos - nuca,
garganta e diafragma.
Para a voz sair, o diafragma é acionado, a garganta - através
das cordas
vocais - vibra, a -base do pescoço se move.
Segundo
Murray Schafer, os antigos humanistas rabínicos
diziam que as vogais são a alma das palavras e as consoantes, seu
esqueleto.
A voz cantada possibilita a exploração das vogais, alma
da palavra, que abre
um caminho à alma do ser. Vibrando no interior do 'id-canal', criando
expressão sensível e sendo comunicada.
Na emissão
da voz, principalmente a voz cantada, a
movimentação do diafragma resultará numa imediata
diferença na qualidade da
voz. O diafragma - grande elo entre mesoderma e endoderma, músculo
tão
utilizado no controle das emoções.
É
muito comum para a maioria das pessoas a associação do som
grave com a parte baixa do corpo. O som grave vibra com mais facilidade
no
peito e é possível senti-lo na barriga, pélvis...
"O
som grave tende a ser associado ao peso da matéria, com
os objetos mais presos à terra pela lei da gravidade, e que emitem
vibrações
mais lentas, em oposição à ligeireza leve e lépida
do agudo". (3, p.19)
O som agudo é melhor sentido na boca, nariz, topo da cabeça.
A vibração sonora possibilita uma massagem de dentro para
fora. A sensação
interna dessas estruturas ressonantes estimuladas evoca lembranças,
facilita
o emergir de sentimentos.
É
impossível qualquer expressão vocal sem respiração.
No
canto a respiração precisa dá mais presença,
concedendo à voz o sustento da
coluna de ar necessária para a sonoridade. Boadella vê a
respiração como
um indicador essencial daquilo que está acontecendo com o paciente
e com a
expressão do seu estado emocional. (1, p.75)
Mas ritmo
e melodia, durações e alturas musicais, tanto
quanto estruturas ecto, meso e endodérmicas são indissociáveis
e existem no
conjunto único e integrado de cada homem.
Considerações
acerca da Ressonância
Entre os
conceitos clínicos da Biossíntese um dos mais sutis
é a Ressonância. Boadella vai buscar no mundo dos sons a
metáfora para
designar o fenômeno. Ressonância é o fenômeno
físico determinado pela
vibração energética que provoca um sistema quando
atingido por uma onda de
freqüência igual a uma de suas freqüências próprias.
Quando toco piano, ao
permitir determinada nota, com determinada vibração energética,
o objeto que
está em cima do piano vibra e soa. Ressonância é o
reforço da intensidade de
uma onda pela vibração de um sistema que tem uma freqüência
igual a
freqüência da onda.
Ressoar
é fazer soar, entoar. Estou em ressonância quando a
vibração energética de meu cliente provoca no meu
próprio sistema um outro
som, uma vibração energética de freqüência
igual dentro de minhas próprias
freqüências.
A terapia,
para Boadella, é uma dança entre o corpo e a
alma, 'inner ground' e 'outer ground'.
Eu digo
que a terapia é um canto, com seu andamento e ritmo,
seu silêncio, sua melodia. Entoa sinfonias ou cantos singelos. Um
grande som
que busca romper as histórias congeladas, as camadas periféricas;
no caminho
da integração das dissonâncias alcançar através
da harmonia possível a
auto-criação.
Bibliografia:
1. Boadella,
David >> Correntes da Vida - uma introdução à
Biossíntese
Summus Editorial, São Paulo, 1992
2. Shaffer,
Murray >> O Ouvido Pensante
Editora Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 1991
3. Wisnik,
José Miguel >> O Som e o Sentido - uma outra história
da música
Companhia das Letras, São Paulo, 1989
Resumo
do currículo da autora:
Psicóloga,
Musicoterapeuta, Professora da Faculdade de Musicoterapia do
Conservatório Brasileiro de Música e Professora convidada
da Universidade
Católica de Salvador.
Coordenadora
do Setor de Psicologia e Musicoterapia da Associação de
Apoio
à Criança com Neoplasia - Rio de Janeiro.
Coordenadora
do Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.
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