Corpos Suados
 
Inês Cristina Di Mare Salles
 
Desde que me tornei articulista da seção “Sexo e Vida” de Artes de Cura, tenho observado mais a relação das situações que a sociedade elege como prazerosas e o quanto essas fases ou modas comunicam, denunciam e apontam nossa capacidade de lidar com nossos corpos e todas as outras dimensões que o investem, vestem ou encobrem .

Pedi licença ao meu planejamento e adiei o texto sobre as várias visões psicológicas sobre a sexualidade, para abordar a temática urgente que surgiu no Rio de Janeiro neste verão.

Para quem não conhece, o cenário do badalado verão carioca é mais ou menos como canta Lulu Santos: “o vento beija meus cabelos, as ondas lambem minhas pernas, o sol abraça o meu corpo, meu coração canta feliz”. É isso, o traje típico da estação é quase nu – biquínis, sungas e cangas, quando se anda na praia sintonizado com o rei sol e a mãe água, nos sentimos vivos, brilhantes, belos – um ambiente de admiração dos corpos, de cantadas e paqueras. Neste ano, chamou atenção a quantidade de pessoas com mais de seis décadas barrigudinhos ou não, desfrutando desse clima, principalmente as senhoras que antes só andavam de maiôs, agora circulam de biquínis.

Mas também acontecem no verão, o carnaval e o dia internacional da mulher. E aí em 2001, testemunhamos a abertura de um pequeno debate sobre a explosão, na mídia, de músicas cultuando o prazer através da violência na relação sexual entre homens e mulheres. Essa temática foi abordada por um grande escritor, mais tarde biografado como “o anjo pornográfico”, também muito conhecedor do universo feminino da classe média. Por uma fatia conservadora, Nelson Rodrigues foi discriminado e, por coincidência ou não, acabou sendo o enredo de outra escola de samba do Rio de Janeiro.

As músicas que cantam o sadomasoquismo fazem parte do repertório funk e levam ao delírio milhares de jovens e crianças da cidade. O sucesso é tanto que foram feitas versões em ritmo de axé (música baiana) e tocaram massivamente nos bailes.

No dia internacional da mulher, a cantora Joyce fez um show composto por canções em homenagem... desde o século passado, e após a primeira música de Pixinguinha (1920) “Tu és divina e majestosa ...” fez a seguinte observação: “agora somos cantadas como popozudas”!

É inegável o prazer de se ter um aspecto divino no corpo feminino; realmente a maternidade é um poder inigualável – até a decisão de não vivê-la é poderosa. De outro lado foi exatamente essa divindade que complicou a relação das mulheres e homens, criando as confusões entre amor e poder.

Historicamente, vemos que foi preciso a I ª guerra, um momento terrível na história da humanidade, na qual os homens saíram de casa, muitos morreram, a participação das mulheres nas atividades profissionais, políticas e sociais foi iniciada nesta época. Elas cortaram os cabelos, encurtaram as saias, começaram a usar pantalonas, pelo racionamento de comida, emagreceram bastante e criaram um vestuário que não valoriza muito as definições de curvas. Era um momento diferenciado da exploração da mulher em casa e nas fábricas, pois não havia homens exploradores, foi uma organização para sobrevivência. Essas heroínas eram chamadas de melindrosas e foram as precursoras do movimento feminista – o mais revolucionário de nossa história.

Mas como lidar com os ônus que acompanham esses ganhos? Bem, talvez não sejam ônus! Cantar a violência doméstica, o esquartejamento dos corpos como peças ( popôs, turbinas...), as analogias de sexo com animais ( cachorras...), coisas sujas etc. podem significar o quanto ainda temos que crescer para elaborar as noções de respeito, amor próprio e cooperação (operar junto – partilhar poder ).

Podemos observar o quanto somos educados e educamos misturando dor e amor na construção do prazer. Isso sem contar como nesta sociedade capitalista todas as questões transformam-se em produto, e no verão carioca, não importa sob que condições, os bumbuns podem significar a chance de ascensão social. Portanto vale todo tipo de investimento – horas de uma coisa apelidada de malhação, antigamente chamada tecnicamente de ginástica, até as cirurgias colocando as famosas próteses de silicone.

A questão é conflituosa: conviver num mundo em que tudo se confunde com produtos, torna as fronteiras do espontâneo, do natural e do não violento quase imperceptíveis. Quando nos vemos, já fomos engolidos. Começamos a cuidar da alimentação e fazer uma rotina que integra momentos conosco mesmo, respiração, exercícios físicos e, logo, num dia ou outro, já estamos na frente do espelho – principalmente no verão – julgando se estamos bem e muitos de nós correm para a tal malhação.

Definir para nós mesmos o cuidado amoroso com nosso corpo, fazendo o que gostamos e nos sentindo bem, sem violência são pontos importantes na aprendizagem deste próximo tempo...

Mas aí vem a segunda parte dos dilemas. O que é violência nesta altura? O que pode ser para um, não é necessariamente para o outro. Se a pessoa pode exercer vários papéis (manifestar seu desejo de uma ação violenta ou solicitar ser tratado com violência), pode também, estar apresentando maturidade para enfrentar esses aspectos dentro de si mesmo? Essas foram algumas pontuações surgidas no tímido debate nos jornais sobre as músicas de tapas e tapinhas. E a conclusão mais equilibrada a que se chegou, associou a visibilidade social das várias violências à maior demanda por auto - ajuda, seja pelo aumento da compra de livros, seja pela solicitação de grupos operativos de sala de espera nos serviços públicos de saúde e educação e, mais recentemente, pelo uso dos sites terapêuticos na Internet.

Isto é, a possibilidade de falar do corpo, da sexualidade e das violências vem trazendo um crescimento na procura de ajudas, incentivando os estudos, pesquisas e políticas que ampliam a responsabilidade de cada um de nós, das famílias e das escolas na construção dos valores humanos e não o padrão antiquado de valores machistas ou feministas.

Nesta direção, poderemos viver num mundo em que as mensagens de amor sejam uma possibilidade clara e explícita para homens e as mulheres e que o uso das situações dolorosas para comunicação seja cada vez menor na educação e nas relações afetivas.

 
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