Um Estudo Clínico em Biossíntese
 
Humbertho Oliveira
 

Este estudo foi inspirado num texto que compus após uma sessão com uma cliente, da qual saí sensivelmente comovido. (1)

Um estudo clínico em Psicoterapia significa correlacionar teoria e prática, de forma a buscar elucidar algum ou alguns aspectos dessa ponte tão delicada entre o pensar-a-ação e o agir-o-pensamento. Relendo algumas vezes a poesia, fruto do impacto em mim, da sessão de Roberta (assim a batizei, nesse estudo), fui descobrindo os elementos constitutivos essenciais para essa tarefa. E foi razoavelmente fácil cumpri-la, já que o coração tinha primeiro se manifestado, jorrando escritos-sementes de uma reflexão não dissociada.

Tratei então, em primeiro lugar, de remontar, brevemente, a história dos acontecimentos a que nos conduziu a referida sessão; e fui encontrando, à medida que a relatava, mais indícios para este estudo clínico; indícios menos emocionantes, mas igualmente ricos para estabelecer interações entre a Teoria Psicoterapêutica da Biossíntese e a minha prática clínica como Psicoterapeuta Corporal. Procurei, em seguida, descrever, com detalhes, a sessão chave de onde surgiu o eixo central e o alimento principal para esse ensaio.

A título de criar um campo de orientação ao estudo clínico que realizava, organizei uma síntese bastante resumida do pensamento filosófico, da concepção acerca da constituição do mal-estar humano, e do pressuposto clínico da Biossíntese. Depois disso, passei a fazer analogias entre essas concepções e o relato do caso, acrescentando posições específicas que ajudaram a trazer, à luz, mais conceitos da Biossíntese, e, ao mesmo tempo, trouxe mais dados da situação clínica, enriquecendo o relato quanto aos acontecimentos que ficaram implícitos ou aparentemente irrelevantes na descrição das sessões.

Por fim, coloquei uma visão bastante pessoal e diretamente inspirada na declaração que me moveu para este trabalho. É o que se segue.

***

Um ano depois Roberta voltou à terapia. Havia interrompido o processo em uma sessão em que algo que eu lhe dissera a havia chocado bastante. Ao retornar estava com 27 anos.

Roberta impressionava pela diferença visível entre seu falar dinâmico, bem humorado, movimentado gestualmente e os olhos sonolentos, sofridos, corpo cansado e aplastado.

Filha mais velha - um só irmão, mimada e exigida, desenvolveu desde cedo características impulsivas. Foi precocemente colocada a se preparar para a carreira de artista, bailarina, e entrou, pequenininha ainda, em uma verdadeira luta com o seu próprio corpo para mantê-lo nas condições estéticas esperadas - pela mãe. Estabeleceu desde cedo, com a mãe, uma relação ambivalente e simbiótica: briga com ela, reagindo a tudo, mas vai tentando, inconscientemente, atender às suas expectativas. À separação dos pais, ainda menina, reagiu criando uma responsabilidade especial pelo irmão: toma conta dele, mas fica enciumada do próprio cuidado.

Nesse período de interrupção da terapia, tinha-se casado, informou de chofre. Falava ansiosamente sobre o casamento, respirando sofregamente nas pausas do seu discurso. Ao se casar, conseguira uma casa, coisa que sempre desejara ter; tinha também, de quebra, um marido de quem gostava bastante, mas com quem, por outro lado, em pouco tempo, já se criara um enorme incômodo: precisava "levar" a relação, "cuidar" do marido. Jogara-se em um casamento que, rapidamente, trouxera-lhe sofrimento; porém, ao contrário, Roberta imprimia em sua fala sobre ele um tom irritado e ainda assim desconectada dessa emoção.

De início, conversamos bastante sobre sua saída da terapia, falamos sobre a mágoa, a impossibilidade de vir desabafar-se, de continuar sendo cuidada. Em seguida, e por algumas sessões, tratamos de trazer ao seu organismo um pouco mais de carga energética que pudesse avivar o seu processo interior através de exercícios respiratórios guiados e um tanto de relaxamento, conseguido com massagens integradoras, que propiciasse mais harmonia ao seu estar-no-mundo.

Aos poucos, Roberta foi podendo tratar de seu casamento de um modo mais direto e proveitoso. Procurou entendê-lo, responsabilizar-se por ele, tranqüilizar-se diante da escolha que fizera e encontrar os ganhos que ele lhe trazia. Aquietou-se, a ansiedade diminui e o relacionamento com
o marido tornou-se mais real, adulto e com possibilidades de oferecer-lhe algum descanso.

Ficava, assim, à vista, a grande contenção da emoção, que era, afinal, o gerador de sua organização impulsiva e o mantenedor do seu reservatório de mágoa. Precisávamos botar a mão na massa se quiséssemos progredir. Propus que ela experimentasse posturas e movimentos diversos, os
quais fazia com um certo arrastamento preguiçoso. Brincava muito, desconectando-se da rica experiência de experimentar a si mesma. Veio, como resultado, um certo estado de alerta, um estado de atenção para consigo mesma.

Nesse período apareceu, de uma maneira inequívoca, a sua auto-exigência. Uma experiência de desenhar o seu próprio corpo revelou-a. Colocando-a em confronto com essa sua defesa, pedi que, de uma forma simbólica, abrisse mão de uma pequena parte de sua auto-exigência. Impasse. Roberta "não queria" e "não podia" abrir mão dela. A forma simbólica que ofereci-lhe de, em troca do seu tanto de auto-exigência, uma certa dose de auto-proteção, não resolveu o impasse. Roberta não admitia esse jogo e ficamos no impasse.

Em outra sessão, o mesmo tema tornou a surgir. Comentários pessimistas sobre as condições externas que dificultavam o seu crescimento profissional motivaram-me, de novo, a trabalhar o abrandamento de sua auto-exigência. Ainda no plano simbólico, pedi que criasse uma imagem, supostamente real, do futuro profissional que desejava para si mesma. Impasse. "Não queria, não podia e não admitia" tamanho deleite e mantivemos o impasse.

Nessa época, um jovem e grande amigo de Roberta morreu tragicamente, alterando o rumo das coisas. A sua primeira sessão após esse acontecimento foi muito reveladora e, finalmente, liberadora de um quantum do seu grande reservatório de dor.

Chegou prostada e a dor era bastante visível. Não expressava a sua dor mas, em compensação, estava livre da hiperatividade gestual que comumente lhe afundava ainda mais a emoção. Estava sonolenta, tinha os olhos semicerrados, discurso monótono e racional, voz baixa. Seu corpo apresentava-se mais congruente com o que realmente lhe acontecia, ela estava, na verdade, como sempre estivera: deprimida.

Seu corpo deitado, jogado, sugeriu a necessidade de alongamento e conscientização: estimulei-o. Reparei que a respiração estava diminuída ao mínimo e a pele desprovida do suprimento sangüíneo adequado. Havia em Roberta uma força interior, invisível, registrável apenas pela percepção de minhas próprias sensações internas ressonantes. A massa era morta, mas a carga era viva!

Espontaneamente Roberta abriu os olhos e procurou contato com os meus, dando-me o sinal de uma primeira e importante rendição. Explorei o contato ocular, respondendo-lhe primeiramente com, simplesmente, contato; em seguida, movimentei-me em torno dela mantendo aceso o contato ocular, provocando um trabalho muscular fino em seus globos oculares. Os olhos ficaram úmidos e apareceu-lhe um cansaço "inexplicável". Os olhos se abriram depois de um pequeno descanso; eles estavam com aspecto de limpos, menos turvos e mais abertos. Ela, a partir daquele momento, poderia olhar para sua própria dor.

Roberta comentou, displicentemente, sobre a necessidade de fazer ginástica e foi a deixa para eu pedir que se movimentasse com vigor no colchão. Pernas, braços, tronco, cabeça. Risos envergonhados. O corpo reavivou sua forma humana. A pele avermelhou-se, apareceu-lhe mais mobilidade na face, a máscara expressiva se acendeu, mas a respiração continuou pouca.

Roberta fechou os olhos e pareceu adentrar-se um pouco mais; aproveitei para observar e refletir sobre os caminhos e obstáculos da energia no seu corpo. A região diafragmática estava constrita, impedindo a ligação natural entre o seu movimento e o seu sentimento; a carga emocional
era guardada na barriga e se empurrava para cima; o peito, pouco arfante, fechava os canais de acesso à parte superior do corpo; a garganta tensionada e a boca cerrada completavam o cerco à passagem livre da energia rumo acima; e os olhos estavam à espera, livres.

Roberta explorou, com seus olhos, o ambiente em volta: não havia mais sono e a barriga se mexia produzindo pequenos tremores. Acreditei que um choro começava. Incentivei a exploração de uma respiração mais profunda, pedi suspiros, massageei a região diafragmática com um pouco
de intensidade, comprimi os arcos costais ajudando a aprofundar sua respiração. Roberta reagiu e a respiração começou a variar entre aprofundar-se e paralisar-se quase completamente. Fui com calma, esperei. Havia rubor e pequenos tremores passando pelo corpo acima quando a respiração vinha.

Seus olhos avermelharam-se e umedeceram-se. Estimulei direta e cada vez mais intensamente sua permissão ao choro e comecei uma série de toques que foram construindo pontes entre a barriga e a boca e da boca para fora do organismo. E Roberta chorou compulsiva e amplamente. Chorou o amigo, chorou os impasses comigo, chorou a adolescência perdida e, talvez, tenha chorado outros tantos motivos que, até então, não podia saber.

O que aparecia, naquele momento, era uma mulher jovem, bonita, expressando sua profunda tristeza e inteiramente viva. Seus olhos buscaram contato e vinham, assim, chorar comigo. Comovi-me. O corpo era vivo, o alívio era presente, a fala era mansa e firme. Havia nela o vigor
de quem andou procurando e encontrou. Havia movimento respiratório regular e suficiente. Roberta fez silêncio e interiorizou-se. Alguns toques no topo de sua cabeça e na planta de seus pés terminaram a sessão.

Depois dessa sessão, Roberta tem se interessado mais pelo seu próprio processo terapêutico. Tem trazido - mais desarmada da mulher crítica, exigente, racional e hiperativa - sua questões, permitindo-se expressar, junto com seus comentários sobre o cotidiano, seus sentimentos mais doídos. Enfim, Roberta vem reconhecendo, mais profundamente, sua atitude de paralisação diante da vida e tomando conta disso.

***

Pretendendo examinar essa descrição de um caso clínico e início de andamento, à luz dos conceitos teóricos da Biossíntese, faz-se necessário apresentar, de uma maneira suscinta, essa abordagem psicoterapêutica, considerando seu histórico e seus postulados básicos.

A Biossíntese é uma abordagem de psicoterapia somática desenvolvida por David Boadella durante os últimos 20 anos. Seu trabalho foi influenciado por três tradições distintas que se desenvolveram a partir de Freud: a linha seguida por Reich, Lowen e Gerda Boyesen centrada no fluir energético e na busca de Stanley Keleman sobre o processo formativo e a anatomia emocional; a linha de Francis Mott desenvolvida por Otto Rank, centrada na experiência pré-natal; e a procedente de Frank Lake a partir de Melanie Klein, centrada na relação mãe-filho/a.

A palavra Biossíntese significa integração da vida e indica a importância fundamental de conectar a existência somática à experiência psíquica e à essência fundamental em todo trabalho terapêutico.

O conceito central da Biossíntese é que existem três correntes fundamentais no corpo, associadas às três camadas de células germinativas (ectoderma, mesoderma e endoderma) no ovo fertilizado, das quais se formam os distintos sistemas de órgãos.

Quando o conflito entre as necessidades do indivíduo e as exigências externas afetam o equilíbrio do organismo, podem-se alterar a integração funcional e a unidade das três camadas germinativas do corpo. Assim, no corpo da criança ou do adulto, perde-se a capacidade de conexão entre os principais grupos de órgãos que correspondem às camadas germinativas: endoderma - órgãos digestivos e pulmões; mesoderma - ossos, músculos e sangue; ectoderma - pele, órgãos sensitivos, cérebro e nervos.

O efeito das possíveis desconexões pode ser visto, por exemplo, na ação separada do pensamento e dos sentimentos; na emoção separada do movimento e da percepção; e na compreensão dissociada do movimento, dos sentimentos e da percepção.

Há zonas do corpo onde se nota, com mais nitidez, estas disfunções: entre a cabeça e a coluna, na nuca; entre a cabeça e o tronco, na garganta; e entre a coluna e os órgãos internos do tronco, no diafragma.

No trabalho de reintegração, devemos observar a qualidade de energia - a carga energética, a qualidade do tônus muscular-hipertonicidade ou hipotonicidade - e a capacidade de cognição e percepção.

O processo terapêutico estará baseado, portanto, no trabalho de reequilíbrio da respiração e no centramento emocional (centrar-se); no rebalanceamento do tônus muscular e no enraizamento da postura (enraizar-se); no desenrolar da capacidade de encarar experiências vividas, através do contato visual e da comunicação verbal (comunicar-se).

O trabalho de integração de ação, sentimento e pensamento constitui o "outer-ground" da Biossíntese. O "inner-ground" subjacente a este expressa a essência da alma de cada pessoa. Na Biossíntese, dá-se uma grande ênfase ao "grounding" espiritual e aos estados transpessoais, reconhecendo que o trabalho psicossomático abre conexões para além do físico e que o desenvolvimento espiritual é impossível sem que antes se trabalhem os bloqueios somáticos e as distorções caracterológicas do falso "self".

***

Feita a apresentação geral da Biosssíntese, passo então a apreciar diretamente o caso em questão, levantando alguns aspectos teóricos que me parecem mais adequados ao estudo da situação descrita.

O primeiro aspecto diz respeito à formulação básica da Biossíntese sobre a existência das três correntes energéticas oriundas do ectoderma, endoderma e mesoderma e seus cortes (interrupções do fluxo da energia) promovidos pelo adoecimento do organismo humano. Esses cortes, como já citamos, estão localizados no corpo em estruturas que deveriam funcionar como pontes de passagem energética, mas que acabam se tornando verdadeiros obstáculos à energia. São eles: a nuca e o corte entre pensamento/percepção/sistema nervoso e movimento/ação/coluna; a garganta e o corte entre pensamento/percepção/sistema nervoso e sentimento/emoção/vísceras; o diafragma e o corte entre sentimento/emoção/vísceras e movimento/ação/coluna.

Impedindo o livre fluxo energético no corpo, esses cortes estão ligados a três tipos de disfunção organísmica ou encouraçamentos: a couraça cerebral, a muscular e a visceral. Boadella associa ainda os três cortes às interferências sofridas em três momentos cruciais do desenvolvimento infantil. Os problemas no nascimento são a base do corte ao nível da nuca; as dificuldades na amamentação contribuem para o "stress" na garganta; e a repressão anal e genital gera espasticidade ao nível do diafragma, a ponte entre a respiração e o movimento. (2)

O que é peculiar na formulação de David Boadella é que esses acontecimentos são considerados por eles tardios na formação do distúrbio, na verdade, eles vêm confirmar e intensificar e, em algumas situações, até mesmo amenizar cortes fundamentais já ocorridos na vida intra-uterina. A concepção da Biossíntese confere, assim, à vida embrionária, uma extrema importância. (2)

Olhando Roberta no seu processo terapêutico iniciante observam-se os diversos cortes e suas manifestações. O corte na nuca se manifesta por uma tensão que encurta os músculos de trás do pescoço, levantando a cabeça para cima e para trás. Assim, ao se relacionar, Roberta mostra uma postura arrogante, criando uma atitude aparente de constante confronto diante do outro. Seu falar racional e explicativo, seus olhos grandes e vigiadores, mas retirados do contato, revelam aspectos externos de sua couraça cerebral.

O corte na garganta tem , como substrato físico, um alongamento espástico crônico nos músculos da frente do pescoço e um estreitamento dos canais respiratórios e digestivos altos. A voz esganiçada e nasalada, a fala profusa e excitada, mas não emocionada exteriorizam o stress a esse nível e revelam parte de sua couraça visceral.

O "stress" diafragmático, por sua vez, pode ser percebido indiretamente, pela grande contenção do choro e da respiração, pela diminuição dos movimentos respiratórios abdominais, pelo estreitamento do limite entre o tórax e o abdômem e pela inflação do tórax. Roberta apresenta importante somatizações na região gástrica e intestinal dando
idéia do tamanho da couraça visceral que sofre este organismo. A quebra da harmonia entre seu movimento e seu sentimento, que a faz mostrar-se por vezes hiperexcitada e outras tantas vezes apática, quase sempre em desacordo com o acontecimento emocional interior, enfatiza a preponderância do corte diafragmático na hierarquia dos seus obstáculos à energia.

Com relação à organização da patologia, segundo a Biossíntese, é importante considerar as três funções organizadoras da defesa do organismo humano.

Deduzidas do modelo embriólogico e resultantes da interferência no ritmo e no funcionamento de cada uma das três correntes energéticas básicas, as defesas são organizadas por Boadella em um quadro funcional. A primeira função é a da energia disponível para a auto-proteção, com aspectos de quantidade e qualidade ligados à respiração. Duas situações surgem da disfunção a esse nível: o "overcharged" e o "undercharged". Roberta organizou a sua defesa de uma maneira sobrecarregada, lutando contra. Ela cria impasses não desabafando fácil e tomando atitudes de proteção em relação ao outro. Essa função de defesa se refere às reações à interferência no fluxo endodérmico, no acontecimento emocional, na vida sentimental.(2)

A segunda destas funções diz respeito ao nível de "grounding", que está ligado ao tônus muscular. Situações "undergrounded" e "overgrounded" são os resultados do prejuízo desta função. Roberta aqui pode ser vista como um organismo de tendência "undergrounded", hipotônica. Roberta conta histórias de desmaios diante de momentos de muito "stress", em pé parece segurar-se nos ombros mais do que nos pés e nas pernas.

Aos trabalhos com movimentos, reage quase sempre movendo-se mecanicamente, com
aparente vigor ou, ao contrário, graciosamente, mas sem muita força. O corpo está sempre entregue, abandonado. Essa função se refere às reações à interferência no fluxo mesodérmico, no sistema auto-sustentador, na vida de realização e ação.

E a terceira função está ligada ao estilo de percepção e cognição. A necessidade de se defender gera indivíduos focados ou desfocados. Roberta é focada, não sonha, não brinca com a variação, não voa intelectualmente, faz considerações sempre precisas e fechadas. Essa função se refere às reações à interferência no fluxo ectodérmico, no fenômeno do pensamento, na vida de contato.

Um outro aspecto que se pode levantar ao comentar esse caso dentro da Biossíntese é relativo ao processo terapêutico propriamente dito, ao acontecimento clínico.

A respeito do trabalho terapêutico, Boadella coloca o processo como mais importante que o produto. Os objetivos mudam na medida em que o processo emerge. O corpo do terapeuta é considerado um instrumento fundamental, por serem as interações corpo-a-corpo uma das maneiras mais poderosas para se aprender novos padrões de desenvolvimento. A ênfase na pessoa do terapeuta é maior do que nas técnicas utilizadas.(2)

Na sessão com Roberta, isso se dá no momento em que procuro realizar um trabalho de soltura de sua couraça ocular (cerebral), movimentando-me em torno dela e usando meus próprios olhos como ponto de apoio e base para sua experiência. Nesse momento, como terapeuta, posso sentir, de perto, quais movimentos são realmente desafios aos seus bloqueios musculares finos e assim estimular a necessária liberação. Posso, também, perceber os seus limites ainda intransponíveis e, por isso mesmo, adequar a provocação. Posso deixar-me ser guiado para onde os seus olhos precisam ir, posso participar de sua experiência, com um real contato humano integrador.

As técnicas não podem ser abstraídas do contexto, segundo Boadella, e o contexto é o processo, é uma dinâmica pessoal na qual uma estrutura particular de experiência ou uma técnica particular pode ser adequada. É importante aprender a reconhecer os sinais de contato que indicam se a pulsação está aumentando ou se o sistema de defesa está se
intensificando. Esse é o verdadeiro guia do uso da técnica.(2)

As defesas devem ser respeitadas como função de proteção à vida, assim como a resistência, sua expressão no processo terapêutico. Esse aspecto é básico na Biossíntese, que propõe um trabalho terapêutico que valorize as qualidades únicas de cada indivíduo e considera que toda pessoa possui algum nível de saúde a ser descoberto e potencializado. (3)

Na sessão de Roberta, como em qualquer outra sessão clínica, o fluxo/refluxo das defesas aconteceu todo o tempo. Ela começou a sessão falando do tema que realmente a mobilizava, mas distanciou-se dele através de um relato racionalizado; mostrou-se, em seguida, tocada com a situação dolorosa do momento, mas deprimiu-se, desconectando-se da sua dor; fez contato comigo e depois cansou-se; moveu-se e envergonhou-se; aprofundou a respiração para logo depois praticamente paralisá-la; interiorizou-se delicadamente, mas prendeu sua energia. Acompanhar este ritmo, trabalhando sob a defesa e não contra ela, foi a atitude clínica básica.

Embora as técnicas possam ser emprestadas de diversos sistemas terapêuticos ou criadas a partir da leitura que o terapeuta faça do momento clínico e dos recursos que possua, Boadella conceitua três processos básicos que servem de contexto ao uso das técnicas, novamente inspirando no modelo embriológico de desenvolvimento.(2)

No processo de "facing" e "sounding", os principais canais de contato são os olhos e a voz. Tanto com os olhos fechados quanto abertos, há possibilidades de manutenção da defesa ou de aumento na qualidade de contato. A tarefa do terapeuta, segundo Boadella, é reconhecer de que forma os olhos estão sendo usados e ajudar na percepção da defesa. Roberta, neste relato, varia a expressão de um olhar controlador, escancarado e ameaçador até a expressão de um olhar semicerrado, querendo-não-ver; passa pela expressão de busca de contato exterior com olhos úmidos e iluminados, e pela expressão de busca de contato interior com olhos suavemente fechados. E termina com uma expressão no olhar que comunica abertamente a emoção presente.

No processo de "grounding", trabalha-se com o esvaziamento de músculos tensos, transferindo energia para movimentos expressivos, ou com o aumento do tônus através da resistência dinâmica contra o chão ou o corpo do terapeuta. Com Roberta, a vitalização do fluxo de energia pela coluna e dela para as pernas, braços, tronco e cabeça, através dos movimentos, foi o acontecimento fundamentador da sessão-chave do relato acima.

E, finalmente, no processo de "centering", a função é harmonizar o processo emocional, a respiração e o ritmo. Para tal, e especificamente nesta situação, o trabalho de desbloqueio do diafragma, aprofundando a possibilidade de expiração desarmou o controle e a contenção. A promoção da ampliação do volume respiratório carregou o organismo, fermentando o processo de liberação emocional.

O campo interativo cliente-terapeuta, dentro do processo terapêutico, é determinado pelos fenômenos transferenciais/contratransferenciais e o fenômeno da Ressonância.

Boadella retoma os conceitos de auto-regulação e identificação vegetativa de Reich, reconceituando-os em uma perspectiva existencial-humanista-energética. Redefinidos e enriquecidos, esses conceitos dão origens a novas formulações, respectivamente, processo formativo e campo organizacional. Processo formativo é para ele a emergência de altos níveis de organização, a partir de níveis mais baixos, e é uma lei natural básica; é o princípio da autocura, a alma da terapia. Já o campo organizacional é o conjunto das condições apropriadas à potencialização de um determinado processo formativo. Ele diz que, no processo de transformação de padrões de sentimentos e expressões que estão bloqueados, o elemento mais importante é a receptividade viva de outro ser humano. A ressonância somática das mãos, da voz e da presença do terapeuta é o campo organizacional no qual ocorre o processo formativo de reintegração do corpo, da mente e do espírito.

A ressonância, segundo Boadella, é aquele estado em que o terapeuta se desvencilha das complicações transferenciais e chega à verdadeira relação. Uma relação em que se permite um profundo processo exploratório, e explorar significa fluir. A ressonância produz uma luminação nos campos energéticos; há um processo de sintonia ocorrendo, que significa que essa interação que está acontecendo, está promovendo mais vida. (4)

No percurso de meu contato com Roberta, pode-se apreciar a evolução de acontecimentos fortemente trans/contratransferenciais até a culminância em uma sessão com forte presença no fenômeno da ressonância. A saída da terapia revela, preponderantemente, um acontecimento transferencial e contratransferencial. Roberta não encontra espaço comigo para desabafar-se, e minha memória nega-me a lembrança dos detalhes geradores do referido choque: camada secundária a serviço da máscara. A volta e a possibilidade da retomada da terapia são garantidas por um fenômeno transferencial positivo: "bons" aspectos das camadas secundárias relacionando-se. Os impasses demonstram uma interação de caráter transferencial negativo: "maus" aspectos das camadas secundárias relacionando-se. Pitadas da presença da ressonância neste período preparam de minha parte, o terreno para a sessão-chave, percebendo-lhe o campo de dor e mágoa, conectando-me a ele, mesmo que ela não pudesse abdicar de suas defesas: camada primária relacionando-se com a secundária. A morte do amigo empurra-a ao encontro do seu próprio "self". Pronto. "Self" pode ir ao encontro de "self". Ressonância acontece. "Core" comunica-se com "core".

Os acontecimentos posteriores à sessão ressonante demonstram, pelos seus aspectos de transformações, a existência rara mas real do acontecimento ressonância. É aí que as transformações se operam.

O trabalho terapêutico em Biossíntese vai do Preparatório ao Iniciatório, da Interferência à Ressonância; trabalha no "outer-ground" para permitir o contato com o "inner-ground". O conceito de "inner-ground" é desenvolvido por Boadella como referência ao uma realidade essencial, relacionada à presença e ao ser, mais do que à atividade e ao fazer.

A abordagem da Biossíntese nos lembra, a todo instante, que algo intangível acontece todo o tempo conosco. Nesse sentido, interessar-se por possíveis vidas anteriores à que agora vivemos, por uma realidade energético-espiritual trans-existente ao corpo-psiquê humano, pelas experiências por que passam as pessoas para que possam alcançar a visão dessas realidades serve de exercício de aproximação a tema tão delicado.

A morte, presente neste estudo de caso, foi um elemento anunciador da esfera espiritual a que se refere David Boadella. Na sessão-chave deste estudo, pode-se dizer que houve facilitação através da morte. Roberta experimentou com a morte do amigo, uma volta simbólica ao útero e essa volta colocou-a lá, no vazio, na morte do útero.

A forte sensação-emoção vivida por mim, diante do choro de minha cliente, colocou-me no campo de experimentação do essencial. Roberta chorava por algo para além do amigo e da crise comigo; ela chorava por algo muito antigo, muito mais antigo do que sua memória lhe permitia ver e do que as minhas interpretações alcançavam.

Boadella comenta que a regressão é, em última instância, uma tentativa de reconstituir-se em um ambiente uterino, recuperar a proteção fetal; ele diz ainda que o "ground" interno é quem somos: ele nos une a um domínio de existência anterior à formação do corpo e posterior a volta do corpo às cinzas; o "ground" interno não está preso ao tempo ou ao espaço, ele transpõe todas as fronteiras, todos os limites.(5)

É! A morte do amigo de Roberta levou-a para algum lugar muito fundo; para o lugar onde se resgatam as experiências. A morte de seu amigo levou-a ao lugar de sua morte e sua morte levou-a ao lugar do renascimetno. E questões de morte/renascimento são questões profundas da vida, pertencem ao nível do espiritual, que é mais um nível da experiência humana, o mais alto deles, e é preciso também integrá-lo.

***

Enfim, a Biossíntese vê o processo terapêutico como um processo artístico, do humano para o humano. É uma dança entre o cliente e o terapeuta, diz Boadella.(6)

A mim ocorre que essa sessão de Roberta se assemelhou a um trabalho de esculpir na argila. Ambos esculpimos, ambos nos formamos.

Começa-se preparando o barro, que vem da terra. Prepara-se o barro pacientemente, até que ele dá-se ao preparo, até que a massa fica pronta e as mãos em condições de mexer a massa.

A argila é fria, amorfa, sonolenta, instigante, provocadora, pedinte, guia. Toca-se a massa e espicha-se a massa para lá e para cá. A massa é morta e a carga é viva. A força da massa é inerente.

A massa enfim dispõe-se.

A massa está amassada, no ponto de ser esculpida, as mãos sensíveis a ponto de esculpir, mas tudo, na verdade, vai começar.

Observação da massa: o que ela inspira? Está na massa humanizada agora, a direção clara de para onde ir. É a partir da forma genérica, um tanto amorfa, que se vai dar a forma. Onde tem massa, onde não tem; onde precisa carregar, descarregar, alisar, amassar, retorcer, conferir, acertar...

A massa agora é mais que humana. É a possibilidade de ganhar expressão própria, individualidade. Falta pouco. A observação é mais profunda, as mãos estão mais nervosas, porque é ali, na massa, e talvez agora, que vai surgir a in-formação final.

E ela chora!

É uma mulher jovem, profundamente triste, o que se formou.

Obra e autor interagem. Trocam de lugar. Vêem-se profundamente.

E os dois são obra da vida e de ninguém mais.


Outubro de 1993


Referências Bibliográficas:

1) Anotações de sessões clínicas.

2) BOADELLA, David. "What is Biosynthesis?" - in Energy and Character, The Journal of Biosynthesis, vol. 17, no. 2, Abbostbury Publications, London, August, 1986.

3) CALIXTO, Denise; CHAGAS, Marly; OLIVEIRA, Humbertho.
"Constitui-se a Biossíntese em uma abordagem específica no campo das Psicoterapias Corporais?" - trabalho não publicado, Rio de Janeiro, Dezembro de 1992.

4) BOADELLA, David. "Transferência, Ressonância e Interferência" - in Cadernos de Psicologia Biodinâmica, vol. 3, Summus Editorial, São Paulo, 1992.

5) BOADELLA, David. "Correntes da Vida - uma introdução à Biossíntese" - Summus Editorial, São Paulo, 1992, cap. 11.

6) OLIVEIRA, Humbertho. "Uma forma de ser terapeuta" - in Energia e Cura, Revista Vozes, ano 84, vol. 84, no. 5, Editora Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro - Setembro/Outubro de 1990.


HUMBERTHO OLIVEIRA, Médico, Psicoterapeuta Corporal,
Fundador e Coordenador de Pesquisa do Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas,
Diretor da Bapera Editora e Editor da Revista Eletrônica Artes de Cura.

 
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