| História das Psicoterapias Corporais no Rio de Janeiro e suas Perspectivas | ||
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Pedro Castel |
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Trabalho apresentado no Encontro de Psicoterapia Somática - Cem Anos de Wilhelm Reich, em 5 e 6 de setembro de 1997, na Universidade Santa Úrsula - Rio de Janeiro O movimento de contracultura, dos anos 70, de maio de 68 e Woodstock, trouxe no seu bojo o questionamento do paradigma intelectual vigente. Este novo paradigma colocava algumas questões centrais: - Maior importância do todo em relação à parte (visão holística) - Maior autonomia da cultura e das ideologias em relação ao econômico (crítica ao economicismo) - O retorno à natureza (visão ecológica) - Localização do poder por toda a teia social, não mais exclusivamente no estado (uma política do cotidiano) - Olhar crítico às varias instituições da sociedade (família, escola, hospício, hospital, etc.) - Questionamento das dualidades mente/corpo e razão/emoção - Uma visão mística e espiritual O nome de Reich é retomado, já que em vários pontos suas idéias e ações identificaram-se com esse ideário (sex-pol, crítica à repressão sexual, unidade mente corpo, contradições internas dos zés-ninguéns, etc.) Este processo chega com alguns anos de atraso ao Brasil, numa convergência de idéias e ações denominada de movimento alternativo. Na área de cura, além de uma crítica a iatrogenia médica, surgiram várias práticas (acupuntura, homeopatia unicista, shiatsu, relaxamento postural, medicina natural, etc.). A respeito do corpo, resgate de antigas práticas e criação de novas (tai-chi-chuan, ioga, diversos tipos de massagem, etc.). Na área mística práticas adivinhatórias e outras (tarôt, I Ching, cristais, meditação, etc.). Fica claro que estas divisões são artificiais, muitas práticas poderiam trocar de lugar, ou constar em mais de um lugar. Por último na área Psi surge: o questionamento anti-manicomial e da centralização das instituições ligadas ao I.P.A., feito por alguns psicanalistas, proliferação de terapias de base analíticas e outras linhas, desenvolvimento da tecnologias de trabalho em grupo, politização da praxis da psicologia, ajudada pela chegada dos terapeutas fugidos da ditadura militar argentina, etc. Na área das psicoterapias acontece o "boom" da psicanálise não ortodoxa, dos anos 70, e em sua cola o das psicoterapias somáticas, no final da mesma década. Todos dentro desse quadro, de renovação social, do movimento de contracultura. Os primeiros psicoterapeutas corporais surgem em São Paulo, onde destacaram-se Roberto Freire e Ângelo Gaiarsa, dois autodidatas. No Rio surge um pouco depois. Eram pessoas que foram buscar formação e informação fora do pais com terapeutas neo-reichianos. Também havia autodidatas entre os quais destacamos o saudoso Romel. Nesta primeira fase a característica era o ecletismo. Todos se somavam na luta para ocupar espaço social, frente ao já estabelecido. Os vários agentes do movimento alternativo tinham grande tolerância uns com os outros, mesmo porque não havia clareza das possíveis divergências. Todo esse processo refletia-se em duas publicações da época. A revista Rádice (1978-1981), que tinha uma linha editorial mais voltada para o espaço Psi e a luta anti-ditadura. E no segundo momento o jornal Luta e Prazer (1981-1983), do qual fui sócio e colaborador, com uma linha mais da política do cotidiano, mas abrindo grandes espaços para as terapias corporais. Os próprios simpósios, promovidos por esse mesmo grupo de pessoas, traçavam essa trajetória. O primeiro de todos foi o "Alternativas no Espaço Psi"(1980), como dizia o nome, contou com a participação de psicanalistas não ortodoxos, uma gama de práticas alternativas, místicas e uns poucos psicoterapeutas corporais. Já o "I Ciclo Reich" (1982), tinha uma clara hegemonia dos últimos, refletindo o próprio nome. É importante que se diga que a designação de "bioenergética", assumida por grande parte dos terapeutas somáticos, abrangia uma vasta gama de práticas, que nem sempre tinha haver com as idéias de Alexander Lowen. Era uma fase de uma certa indiferenciação de linhas, e imprecisões teóricas, claro que havia exceções, mas o clima geral era esse. Além disso haviam laços estreitos com o movimento alternativo como um todo, inclusive com o lado místico. Havia uma grande ênfase nos trabalhos de grupo (maratonas, workshops, vivências de fim-de-semana), inclusive como principal veículo de passagem de conhecimento. Pouco se refletia a respeito do trabalho, havia um pragmatismo exacerbado. O movimento capengava de uma reflexão teórica, técnica e ética. Essa fase culmina, a meu ver, no "II Ciclo Reich" (1983). No encerramento do simpósio, um terapeuta de São Paulo, usando exercícios aliados à técnicas respiratórias, provocou um pipocar de crises histéricas, esquizóides e hiperventilações, em meio as quatrocentas pessoas presentes. Esse trabalho foi feito sem ajudantes ou co-terapeutas, sem qualquer planejamento. As consequências só não foram maiores, porque os próprios conferencistas, espontaneamente, começaram a atender as pessoas em crise. Após o encontro, nas rodas informais, surgiu um consenso isso não deveria se repetir. Em cima dessas críticas o "Luta e Prazer" organizou o último encontro dessa fase, com um planejamento mais cuidadoso. O número de participantes era limitado, só pequenos grupos por trabalho, e a novidade era que os dez coordenadores do trabalho, tiveram uma vivência previa entre si, para maior entrosamento do grupo. Mas é como se fosse o último suspiro de um moribundo, a impressão é que cada um se recolheu ao seu consultório, para sua formação, para seus estudos. Era preciso aprofundar a teoria, limpar esse certo amadorismo experimental inicial. O segundo momento foi o das delimitações, das diferenças. Em 1983 é fundado o CIO. É a primeira instituição com estatuto, objetivos e uma linha teórica clara. Ele pretendia divulgar e pesquisar o pensamento reichiano, formar orgonomistas e promover a prevenção. Antes, e ainda por algum tempo, haviam apenas formações de uma ou no máximo dois terapeutas, menos instituídas e com objetivos mais modestos. O CIO apresentava uma preocupação de "rigor científico" e um retorno à Reich. Sua formação apresentava uma série de controles institucionais para preservar o titulo de orgonomista, conferido ao final do curso. Assim, mesmo não sendo dito de maneira ostensiva, quem se formava pelo CIO diferenciava-se do restante. Assim aprofundou-se a diferença entre os que tem isso, e os que não tem. A definição do CIO estimulou e pressionou, mesmo não sendo esse seu objetivo, a definição dos menos preocupados com isso. Começaram a surgir outras instituições: o Instituto de Orgonomia Ola Raknes (1989-1995), o Centro Brasileiro de Biossíntese e a Sociedade de Análise Bioenergética do R.J. (houve outras instituições, como o ICIOR/Hólon, mas essas eram as mais representativas do ponto de vista do ideário).
Na busca de suas identidades as instituições procuraram se diferenciar. Esse processo, num primeiro momento saudável, chegou por vezes ao embate. O caráter ideológico-panfletário era claro. "- Eu sou mais reichiano do que você", como disse um amigo, numa feliz expressão, era o narcisismo institucional aparecendo. E pouco ou nada se debatia, de forma consistente, a respeito das divergências. Hoje a própria realização do "Encontro de Psicoterapia Somática - 100 anos de W. Reich" (setembro de 1997), parece vislumbrar um reinício do diálogo entre as várias correntes da psicoterapia somática. E eu acredito, que deva ser, dentro desse movimento, que devamos refletir, nossos rumos, daqui por diante. O incremento da reflexão, produção e divulgação teórica é fundamental para enterrarmos, de vez, esse embate ideológico-panfletário. A tradição, bem como a inovação devem procurar traduzir-se como aprofundamento técnico teórico. Só assim as divergências poderão ser tratadas de forma analítica, permitindo a troca de idéias de forma respeitosa. Por outro lado a precisão dos pontos divergentes trarão, como contraponto natural, o aparecimento dos convergentes. Esse processo aliado sobretudo ao respeito, poderá substituir a competição destrutiva pela saudável, e por vezes, até desaguar numa cooperação construtiva." É preciso uma análise do narcisismo institucional". Esse embasamento, que falei inicialmente, nos permitirá, também, a permeabilidade às inovações e/ou contribuições, sejam de outras correntes psicológicas não somáticas, sejam de outras disciplinas do saber em geral. Podendo até apontar no sentido de uma cooperação e/ou uma praxis multidisciplinar consistente. Quebrar a marginalidade e o gueto são tarefas fundamentais para nosso desenvolvimento. Não devemos ter medo da renovação bem fundamentada. A rebeldia voluntariosa, do início, deve deixar lugar para o questionamento crítico de pesquisa.
Outra questão diz respeito a ampliação do mercado de trabalho (em tempos de crise é básico). Faz-se necessário o incremento e/ou criação de outras áreas de atuação: - Ampliação de uma visão reichiana para a educação, bem como suas possíveis articulações com outras já existentes (por exemplo a piagetiana), visando a praxis educacional. - Adaptação de nossa tecnologia para a área de prestação de serviço às empresas. - Desenvolvimento da teoria das técnicas clínicas, seja grupal ou individual, no que diz respeito a trabalhos específicos com bebês, crianças, adolescentes e terceira idade. Por último a retomada do trabalho político reichiano. Atualizando os instrumentos de análise do poder, já existentes hoje em dia (por exemplo a micro-física do poder de Foucault). Repensando o "braço direito" da política reichiana, a saber: a prevenção. Atualizando-a para o tempo e realidade brasileiras. Hoje, se nos depara, um amplo horizonte. Acreditar em nós, apostar em nossa capacidade (acrescentando uma pitada da mesclada criatividade brasileira). Forjar com nossas próprias mãos, esse terceiro momento de maneira íntegra, produtiva, respeitosa e cordial. "Amor, trabalho e conhecimento são fontes de nossa vida. Deveriam, portanto, também governá-la". W. Reich |
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