| O Holismo e as Psicoterapias
Corporais no Final do Milênio Uma reflexão sobre a perspectiva da escolha consciente na busca de caminhos de autoconhecimento e de maior presença na vida |
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Susana Hertelendy |
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A finalidade desse artigo é propor uma breve, porém incisiva reflexão sobre a psicoterapia criteriosamente escolhida, como possibilidade de um caminho contemporâneo na busca de autoconhecimento e de reintegração intra-organísmica e cósmica. Em outras palavras, esta é uma discussão sobre a psicoterapia ou as psicoterapias desse final de milênio, como vias de acesso para uma existência saudável, digna, responsável e capaz de preencher as aspirações humanas. Para que este tema possa ser examinado adequadamente, torna-se necessário considerar a época conturbada em que vivemos como membros de uma sociedade consumista e alienadora, que acena com "soluções" materiais e externas, supostamente proporcionadoras de segurança e poder. Por outro lado, surgem questionamentos fundamentais, que tornam imprescindível rever o papel das psicoterapias nesse mundo em franca transição. Afinal, o que é a psicoterapia? Que mundanças ocorreram desde que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, começou a atender há quase um século atrás, em Viena? Antes de responder a essas perguntas talvez seja oportuno ouvir um relato sobre uma forma diferente de se confrontar com problemas. Em algum lugar do mundo oriental vivia um homem, dono de terras. Possuía ele um cavalo que um dia foi roubado. Aborrecido, foi procurar um velho mestre a quem contou o seu infortúnio. Este comentou: "Pode ser bom ou mau augúrio". O homem voltou à sua casa e retomou sua rotina de vida. Algum tempo depois, seu cavalo retornou acompanhado de outro cavalo. E lá se foi o nosso personagem novamente à procura do mestre para dessa vez narrar-lhe com muita alegria a história do aparecimento dos dois animais. O mestre ouviu o relato e com paciência respondeu: "Pode ser bom augúrio ou mau augúrio." Mais uma vez o homem voltou às suas terras e retomou o seu trabalho com a ajuda de um filho dedicado que se pôs a domar o cavalo novo. O animal, rebelde que era, deu alguns coices e conseguiu derrubar o rapaz que,por sua vez,quebrou a perna. Ficando sem seu ajudante, o dono da terra foi queixar-se ao mestre de quem recebeu a mesma resposta de sempre. Ao voltar dessa vez à sua casa constatou que representantes do palácio do rei estiveram nos arredores alistando jovens para o serviço militar. Não levaram, entretanto, seu filho por este ter quebrado a perna recentemente. A essa altura já sabemos o que o mestre responderia e, também, que a história poderia prosseguir indefinidamente. Este relato serve para ilustrar o ponto de vista de que cada cultura e cada época têm formas próprias de avaliar suas questões e de lidar com os seus problemas. Permito-me nesse contexto citar um exemplo da minha vida pessoal. Lembro-me que no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro em l960, necessitando de um apoio terapêutico para entender e aprender a conviver com conflitos de minha história familiar, fiquei numa situação bem difícil, pois só existiam o padre, o psiquiatra e o psicanalista. Passei pelos três, mas na época nenhum resolveu meu problema e acabei num centro espírita onde, pelo menos, não me consideravam louca, nem neurótica ou mal encaminhada. Dos membros do centro recebi apoio afetivo e obtive alguma explicação para as minhas questões. Com estas, entretanto, só pude verdadeiramente defrontar-me em l962 quando por circunstâncias de vida fui morar em Nova Iorque. Em pouco tempo entrei em contato com uma psicoterapia de base analítica e comecei uma longa trajetória de processos psicoterapêuticos que, dentre outras coisas importantes, resultaram na minha decisão de ser psicoterapeuta. E o que é, então psicoterapia? Terapia é uma palavra que vem do grego therapeuein e significa "cuidar de". Psique é alma e, portanto, fazer psicoterapia é cuidar da alma. Qual a origem da psicoterapia? Embora os gregos tivessem a sua maneira de cuidar dos problemas da alma e, embora possamos resgatar uma infinidade de conhecimentos terapêuticos valiosos de culturas muito antigas, a psicoterapia, na forma como a conhecemos, foi criada por Freud. Inicialmente trabalhando com hipnose para chegar ao inconsciente de seus pacientes,Freud logo começou a utilizar a associação livre e a interpretação de sonhos. Elaborou sua teoria, aprimorando-a cada vez mais na busca de soluções para as defesas, a resistência e as dificuldades caracterológicas de seus clientes. Um dos seus alunos mais destacados foi Wilhelm Reich,fiel seguidor do seu mestre a quem admirou até o fim de sua vida. Embora isso nem sempre seja compreendido, Reich apenas ampliou o trabalho de seu professor. Poucas diferenças existem entre a Psicanálise e a Análise de Caráter. Essas diferenças, entretanto, são bastante significativas. Em primeiro lugar, Reich trouxe o trabalho corporal ao consultório introduzindo o toque que, para os psicanalistas, era um grande tabu, e desenvolvendo e sistematizando exercícios somáticos. Teóricamente, talvez a diferença fundamental resida no fato de que, enquanto Freud postulava a existência de uma pulsão de vida e uma de morte, Reich afirmava existir apenas a de vida como pulsão instintiva, a pulsão de morte surgindo como reação às pressões do contexto social. Reich introduziu o conceito de orgone ou energia vital (Freud falava em libido). Conforme a sua teoria, a neurose, consequência do bloqueio energético no organismo humano, interfere com a potência orgástica, ou seja,a capacidade de prazer total do indivíduo. A psicoterapia reichiana, ou melhor, a orgonoterapia consiste na recuperação da pulsação vital através do desbloqueio sequencial dos sete anéis de tensão estabelecidos num eixo ao longo do corpo. Alguns estudos comparam a organização destes anéis de tensão com a organização dos principais chakras indianos. Entre as várias abordagens neo-reichianas que foram surgindo após a morte de Reich, talvez a mais conhecida seja a bioenergética. Sistematizada por Alexander Lowen e John Pierrakos, ambos discípulos de Reich, a bioenergética introduziu a novidade de se trabalhar com o paciente em pé, desbloqueando os segmentos de baixo para cima, ao contrário da orgonoterapia, que começa com o segmento ocular e trabalha no sentido inverso, com o paciente na posição horizontal. As terapias reichianas lidam com emergências regressivas pré-genitais, que se referem a traumas ocorridos entre a fase de amamentação e o momento em que a criança começa a andar. A abordagem
que enfatiza a importância da embriologia e da influência
das fases intra-uterinas no desenvolvimento futuro da personalidade é
a Biossíntese, criada por David Boadella, diretor do Centro Internacional
de Biossíntese e fundador da Associação Européia
de Psicoterapias Corporais. Essa visão, que se afasta um pouco
da psicopatologia, apresenta uma tipologia baseada nas três camadas
Voltando ao significado das psicoterapias atuais, é preciso distinguir entre as diversas terapias alternativas que hoje proliferam com suas múltiplas promessas de cura e bem estar, e a psicoterapia entendida como um longo processo de busca interna de autoconhecimento, de resgate de experiências passadas e de situações traumáticas reprimidas, e de um árduo trabalho de recuperação de propósitos de vida, de sentido e de prazer. Recentemente tive a oportunidade de ler dois trabalhos do psicanalista Wilson Chebabi e, devo dizer, ambos me impressionaram pela forma concisa, direta e realista com que situa certas questões que, a meu ver, dizem respeito não só aos psicanalistas, mas aos psicoterapeutas de outras abordagens. O primeiro trabalho é uma reflexão sobre o que o autor denomina de competência psicanalítica versus competição entre os psicanalistas. É uma discussão sobre a necessidade de se voltar às origens freudianas para compreender Freud e a psicanálise do início do século em Viena, sendo também uma proposta aos profissionais para que se reúnam, antes que seja tarde demais, a fim de compartilhar suas dificuldades, reflexões e idéias renovadoras. Chebabi explica que é preciso redefinir a função da psicoterapia e o papel do psicanalista nessa época atual, em que por restrições de mercado, corremos todos o risco de nos perdermos na luta por um espaço competindo pelo poder em vez de efetivamente nos ocuparmos daquilo que é nossa tarefa: o desempenho da função da psicoterapia. No segundo
trabalho, que se refere ao paciente do ano 2.000, o autor nos remete a
uma reflexão sobre o tempo em que vivemos, a velocidade dos acontecimentos
e a intensa crise social que faz com que as pessoas queiram escapar do
presente saltando a qualquer custo para um futuro que, por não
ter sido alcançado no seu tempo seqüencial, não pode
ser real. Termina o trabalho ressaltando que a tarefa do Em termos
da psicoterapia corporal, isso significa trabalhar na consciência
da nossa base de sustentação, ou seja, desenvolver a percepção
do nosso corpo da cintura para baixo: da pélvis, das pernas e dos
pés. Significa, também, desenvolver a consciência
da coluna e da posição ereta com a qual confrontamos o mundo.
A integração corpo/mente, o vivenciar profundo do prazer,
a capacidade de troca e a realização afetiva nas relações
humanas são alguns dos objetivos do processo psicoterapêutico
somático. Quais são
as etapas importantes de um processo psicoterapêutico? Na primeira
fase é preciso ajudar o cliente a desenvolver a confiança
e estabelecer o vínculo. Estes sentimentos possibilitarão
a entrega do paciente ao processo psicoterapêutico. Aos poucos se
trabalhará a sua história. Em algum momento surgirá
a transferência, recurso que permite ao cliente refazer nessa nova
relação os caminhos onde ocorreram os Na biossíntese,
embora o processo seja parecido, essa ponte chama-se ressonância.
A ressonância é o elo entre psicoterapeuta e cliente; pressupõe
por parte deste último vínculo e entrega, enquanto que do
psicoterapeuta exige experiência, engajamento e afeto. Se acontecer
essa ressonância tão rara de se estabelecer, ocorrerá
também a mudança. E o que é a mundança senão
a conquista da tranqüila aceitação da angústia,
da incerteza e das contingências da irreversibilidade do tempo;
é uma árdua tarefa humana em que, não é demais
reforçar, a psicoterapia pode ser de valiosa utilidade. Por holismo
entende-se a integração das diversas partes de um sistema
em um todo harmônico. No caso das psicoterapias a referência
é a junção dos vários aspectos humanos, qual
sejam, mental, emocional, corporal e psicológico. Refere-se, também,
à integração de tudo ao sistema cósmico. Curiosamente,este estado de graça original corresponde também à aceitação da morte; de todas as pequenas mortes que em número infinito nos acompanham em vida, assim como da grande morte que nos espera a qualquer momento nessa estrada. A serenidade do confronto com a vida e suas contingências é um amadurecimento que implica na aceitação da responsabilidade pelos nossos atos e escolhas. A psicoterapia pode facilitar esse encontro do indivíduo consigo mesmo, com o que o cerca e com os temas maiores da vida que o inserem no cosmos dando um sentido mais amplo à sua existência. O confronto com a morte resulta, portanto, na compreensão de que cada momento é em si a concepção, a gestação e o nascimento de algo novo. Enfim, poderíamos dizer que o ser humano vivencia contínuamente ciclos completos de renovação. Na abordagem existencial denominada psicomaiêutica, o psicoterapeuta é apropriadamente denominado de psicomaieuta. O termo é originário de maiêutica, que em grego siginifica a "arte do parto" e a expressão chegou até nossos dias porque Sócrates assim denominou seu método de filosofar, como uma homenagem à sua mãe, parteira de profissão. Ele dizia que fazia, pelo diálogo maiêutico, o parto de espíritos. Esse ciclo de renascimento, crescimento e morte se dá em ambas as margens da relação psicoterapêutica pois sem cliente não há terapia, além do que, cada etapa do processo é uma oportunidade para que o profissional se confronte com as suas próprias questões podendo assim crescer como psicoterapeuta e como ser humano. A psicoterapia é uma arte, um instrumento para o autoconhecimento e um guia no caminho da vida. Quando conduzida com seriedade e afeto, ela permite o desabrochar de uma iniciação recíproca. Junho de 1995.
Referências
Bibliográficas: Resumo
do currículo da autora: |
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