O Conceito de Middle Ground no Processo Formativo / Terapia Somática de Stanley Keleman
Uma visão pessoal de um momento de transição na vida de uma mulher terapeuta
 

Susana Hertelendy

 

"O terreno intermediário é um estado receptivo e de começo; lá se dá o nascimento da forma e da não forma; é onde se geram as coisas e onde a concepção nos toca.
... Repentinamente, no caos do terreno intermediário, algo começa a se organizar."

Somatic Reality, Stanley Keleman.

Este é um relato de um período da minha vida que começa sem a determinação de momento fixo e vai se estendendo além do meu momento atual já agora com outra configuração. Através dele, descrevo as reflexões pessoais sobre um processo de transformação que ocorre na vida de todos e se refere biologicamente a uma alteração hormonal e, no que tange ao organismo como um todo, pode constituir-se no final de um ciclo, na alteração de um ritmo de vida e na ampliação da consciência a respeito de novos ou não tão novos significados e a respeito de possibilidades de direção e de ação. Refiro-me também através deste texto à viagem que fiz em junho e julho desse ano aos Estados Unidos com meus colegas e amigos Beto e Marly para fazer o curso "Histórias de Amor: Dar e Receber," ministrado por Stanley Keleman do Center for Energetics Studies em Berkeley, na California. O conhecimento mais próximo desse homem e de suas trajetórias profissionais e de vida trouxe ao meu relato uma nova dimensão, que possibilitou-me finalizá-lo sob a perspectiva do meu momento atual. Meu relato resgata uma experiência muito pessoal e não pretende ser uma discussão de conceitos ou elaboração de teorias.

Existem momentos na vida de uma pessoa em que uma revisão se faz por si, sem esforço ou decisão consciente. Acontece, quase espontaneamente uma insistente retrospectiva. Procuro ao longo das primeiras décadas de minha existência se tal experiência ocorreu.

Da infância lembro-me que não gostava muito de mim e que tinha urgência de crescer para ter mais poder sobre a minha vida, capacidade para resolver os problemas da minha família (essa onipotência eu cultivei desde cedo) e oportunidades para conquistar algo mais para mim. Esse algo mais hoje entendo que seja uma estruturação interna e externa que pudesse me proporcionar um mínimo de respeito e reconhecimento.

Na adolescência não queria sair dos l5, l6 e l7 anos, pois considerava essas idades românticas e bonitas. Essa alienação inconsciente era onde me refugiava do vazio e da tristeza, resultados da vida difícil e dos valores superficiais da geração carioca dos anos 50. Continuava sem gostar muito de mim e sem me sentir feliz. A sensação de insatisfação se ligava aos problemas da minha vida pessoal e aos devaneios próprios de uma adolescência sem compromissos claros de transformação no Brasil pré-golpe de 64.

Lembro que gostava de minhas mãos e de minhas pernas, mas que não tinha muita consciência do meu corpo. Aos 20 comecei a me perceber mais e aos poucos fui apreciando minha aparência física e minhas formas. Não me preocupava com a idade em si e apesar da emergente consciência corporal não era vaidosa.

Entre os 20 e os quase 40, por uma série de fortuitas coincidências, caí no espaço contra-cultura de uma Nova Yorque, anos 60 e 70. Mas esta parte da minha história é muito especial e será por isso tema de um trabalho futuro.

Só aos 40, de volta já ao "berço"carioca, comecei a pensar em questões como uma hipotética menopausa. Ainda assim, vivia certos fatos como acontecendo apenas aos outros. Numa das minhas viagens de estudo ao exterior, descobri um livro sobre a menopausa e minha mente foi se voltando à possibilidade de uma prevenção. Foi na trilha dos 40 que a minha visão 20 por 20 perdeu aquela nitidez que foi sempre característica principal e motivo de grande orgulho para mim. Pela primeira vez na vida precisei de óculos para ler. A presbiopia aumentava gradativamente com o passar dos anos o que me enchia de frustração e raiva e punha meu narcisismo em cheque.

Não sei precisar exatamente quando me permiti notar que meu corpo não aguentava mais a batida que lhe foi sempre habitual. Esse foi o golpe maior no meu narcisismo inconsciente daquela época. Sempre tinha dado conta de tudo meu e de muito do que pertencia aos outros. Habituei-me desde cedo a carregar muito mais do que meu próprio peso. Trabalhava muito e ocupava-me grande parte do meu tempo livre com estudos que pudessem aprimorar minha atuação profissional. Nunca preocupei-me com limites, mas posso admitir que paradoxalmente assim se expressasse a minha vaidade.

Quando o meu cansaço começou a interferir com esse padrão cheguei a pensar que estava doente. Observava-me e submetia-me a tratamentos julgados apropriados para cuidar do que estava me acontecendo. Foi pouco a pouco que me conscientizei de que estava na verdade passando por uma profunda e característica transformação. Nossa sociedade, sem dúvida, tem nomes específicos para ela, mas essa, como qualquer transição,não tem nome porque ela é única para cada indivíduo.

A princípio isso me remetia às idéias de envelhecimento e morte e não conseguia me conformar com essas perspectivas que me perseguiam insistentemente. "Afinal se meu espírito é tão jovem,"pensava eu "e minha aparência também, pelo menos no que tem a ver com terceira idade, e se sinto ter sido a minha vida tão curta ainda, por que me ocupar com tais questões?" À medida que me dedicava a ler sobre a morte, começava a me debater com as novas sensações. Havia uma profunda insatisfação que vinha junto com o cansaço. Às vezes não queria mais nada na minha vida. E, sobretudo, era-me impossível entender as contradições com que me defrontava: se tudo o que eu agora tinha e fazia correspondiam aos meus objetivos de sempre, como explicar que minha vontade em determinados momentos era de largar tudo e não fazer nada ou fazer coisas completamente diferentes do habitual?

Foi muito pouco a pouco, com o auxílio eficiente e afetuoso de uma terapia de auto-cura que comecei a aceitar que eu estava numa transição, talvez a primeira consciente na minha vida, e que o momento era de não fazer nada com isso, apenas observar e hibernar, meditando sobre o sentido da compaixão, do desapego e da aceitação, e revendo meu presente à luz da minha história passada. Por aí chegaria ao significado da morte e do renascimento como figuram na transição ou no terreno intermediário conforme descrição de Stanley Keleman. Segundo o elaborador do Processo Formativo, àquilo que quer emergir desse lugar, deste espaço intermediário, geralmente chamamos de insano, sem lógica, inaceitável, irracional, fora de sequência, inesperado. Neste espaço somos tocados pelo sagrado.

Hoje, depois de quase dois anos dessa prática meditativa, posso dizer que, o que caracteriza essa passagem e a distingue das outras que já vivi, não é o fato de que "estou ficando velha e,portanto, mais próxima da morte." O que faz desse momento uma fase tão especial para mim é que dessa vez tenho um contato um pouco maior com o meu corpo e, por tabela, com todo o meu processo somático e com o meu próprio self.

Durante esse tempo tomei consciência do meu organismo como um todo, da minha energia e de como a utilizava, e do significado da minha história e do meu momento atual. Tomei consciência da minha organização interna de uma forma totalmente nova. Perguntas tais como: "Por que estou aqui?" e "Qual o sentido da minha vida?", entre outras, começaram a ter um destaque importante na busca que sempre caracterizou minha existência.

É claro que essa terapia não teria podido me ajudar se não houvesse todo o preparo da minha trajetória anterior.

De qualquer forma não é um caminho fácil. Senti que precisava urgentemente romper com as coisas mesmo que fosse por um curto espaço de tempo. O rompimento teria que ser total com sensações e a percepção de mim como eu era naquele momento.

Foi aí que surgiu a oportunidade de fazer um curso com Stanley Keleman do Instituto de Energia Formativa em Berkeley, California. O tema do workshop do verão de 1992 chamou-me a atenção e deu-me a coragem necessária para decidir e organizar-me no sentido de superar todos os obstáculos que se interpunham entre mim e a realização desse desejo. Chamava-se o trabalho: "Histórias de Amor - Dar e Receber."

Juntei meus pertences e com o apoio de pessoas muito queridas embarquei.

O que eu sabia sobre o Processo Formativo de Keleman era insignificante diante do que pude presenciar. E o que aprendi ainda é pouco diante do que vislumbrei ser possível com o tempo entender e alcançar.

Compreendi, porém, que se não tivesse tido toda a terapia anterior, que me preparou tanto para o curso como para o rompimento com o padrão atual da minha vida seria bem difícil aproveitar esses momentos de aprendizado e conscientizar a totalidade dessa minha experiência. Compreendi mais claramente que nesse middle ground se processava uma mudança radical de valores; que a consciência da forma corporal e da organizacão somática, conforme essa visão energética, era na verdade o que constituia a sustentação definitiva do meu ser; que a energia como conceito básico na sua densidade corporal era a essência do que eu até então denominara de espiritualidade. E isso é bem mais vasto do que o presente relato.

Compreendi que não era insatisfação que me dominava, mas a necessidade de aceitar a morte em mim de uma etapa de vida, de uma forma de ser, de pensar e de me comportar. E que só era doloroso porque algo em mim ainda não permitia essa transmutacão energética. É claro que ela se faria de alguma forma, mas eu me dava conta de que era possível romper com um padrão que já não fazia mais sentido e abrir o caminho para o nada e até o medo do desconhecido. E mais importante, entendi que poderia fazer essa passagem com todo o meu ser imbuído de consciência. E aí residiria a diferença. Por isso foi fundamental a minha participação nesse trabalho sobre amor.

Esse meu momento é o middle ground, o terreno intermediário, a passagem de um estado de consciência, de uma forma de ver a realidade, a outro estado de consciência, a outra forma de perceber a mesma realidade. Agora posso me permitir falar sobre o conceito de Keleman da forma como eu o entendo a partir dessa minha perspectiva atual. Quero com isso deixar claro novamente que, em vez de discursar teóricamente sobre o que ele pretende com a expressão, falo de dentro de uma experiência, que ao afetar minha percepção, está modificando a minha forma de existir nesse mundo.

Nos primeiros dias do curso sobre o sentido do amor e do dar e receber, sonhei que me preocupava com minha prática clínica no Brasil. Perguntei-me no sonho como lidaria com as coisas ao voltar já que nada seria igual e não conseguiria trabalhar como antes. Relatei o sonho a Stanley juntamente com a minha inquietacão e a consciência emergente do meu momento. Ele respondeu que muitas vezes passara por transições semelhantes e sabia o quão pouco confortável elas eram. Sugeria-me, a seguir, que fôsse sincera com meus clientes, afirmando que, isso seria, inclusive, terapêutico, pois ajudá-los-ia a encontrar o seu ground ou chão ou base de auto-sustentação.

O processo formativo fala de como se organizou o nosso corpo e de como a vida emergiu, desabrochou e continua se desdobrando em nós a cada momento. Ensina-nos a tomar consciência da nossa constituicão somática e assumir responsabilidade por nossos processos internos e nossas criações externas. Tornando-nos conscientes de nossas respostas e nossos movimentos organísmicos e participantes do nosso processo a cada instante, essa abordagem somática distingue o que é nosso por constituição genética daquilo que em nós acaba se transformando em distorções. E ainda dá conta do que somos capazes através de trabalho, consciência, decisão e ação.

O processo formativo nos fala da confiança na profunda sabedoria do nosso ser e na inteligência maior que rege o cosmos de forma a ajudar-nos a permitir o desabrochar pleno do nosso ser.

Essa abordagem, assim como outras abordagens terapêuticas, toma emprestado para si conceitos milenares do Budismo. Por ora minha escolha é o silêncio e aprendo em muitos cantos da vida. Essas palavras que emergem de uma compreensão mais organísmica do meu processo de transição se constituem para mim num sopro de conforto e alegria, pois me permitiram visualizar e dar um contexto verbal a uma experiência de vida. Para os que me lerem, espero que esse relato possa ter o valor simples de uma experiência compartilhada, onde descrevo como foi possível para mim transformar o que era um desconforto em um caminho de crescimento.

O ideograma que representa a palavra crise em chinês significa risco e oportunidade. Como seres humanos vivenciamos inúmeros momentos de transição para os quais a cultura ocidental oferece muito pouco respaldo. A solidão e o desconhecimento fazem com que aquilo que poderia nos enriquecer trazendo novas perspectivas de comportamento e ação, se transforme ao contrário em instrumentos capazes apenas de restringir as possibilidades de expansão do nosso ser.

Minha própria experiência de vida tem sido a fonte do meu trabalho psicoterapêutico. A confiança nasce dessa possibilidade de abertura e compartilhamento. O crescimento e a expansão espirituais, consequências de uma busca permanente, constituem-se no alimento fundamental do meu ser. Só dessa forma entendo o que para mim hoje se resume numa palavra: devoção, ou seja, a apreciação de todos os momentos e experiências da minha existência sobre a Terra.

Com um pouco de ar e muita luz ilumino o meu caminho nesse momento de encontro com as profundezas e os mistérios do mar interno. Assumindo o meu terreno intermediário, descubro uma nova direção e, suavemente, me permito contactar o meu inner ground ou minha essência.

Abril de 1993.

NOTA: Ao leitor interessado no conceito de Middle Ground, nas teorias ligadas ao Processo Formativo e nas experiências de transição de vida, sugerem-se os seguintes livros:

1 >> KELEMAN, S. Somatic Reality. Berkeley, Ca.: Center Press, 1979
2 >> BOADELLA, D. Fluxos de Vida. São Paulo, S.P.: Summus Editorial, 1992
3 >> SHEEHY, G. Passagens: Ciclos Previsíveis da Vida Adulta.
Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A.: 1976 (Primeira Parte - 1. Loucura e Método).

Resumo do currículo da autora:
Psicóloga - CRP 05/3900.  Psicoterapeuta somática - Diploma de Biossíntese, 1995.
Graduação pela Columbia University, New York, EUA em 1975; Revalidação pela UFRJ, Rio de Janeiro, 1980; Mestrado em Psicossociologia - EICOS - UFRJ - 1998;  Residência em Dependência Química - Hazelden Rehabilitation Center, Minnesota, 1982; Treinamento em EMDR I - Rio de Janeiro, Agosto de 1999; Treinamento em EMDR II - NY, EUA - Novembro 1999; Especialização em Psico-oncologia, 2003;   Fundadora e Membro do Quiron-Centro de Estudos e Práticas Trans-somáticas, RJ.

 
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