A Psicoterapia Corporal em Ambulatório de Saúde Mental
 

Maria Luiza Carvalho

 
Pensando na importância da criação de um espaço de discussão sobre a psicoterapia corporal em nosso país, lembrei-me que devo um tributo aos pacientes que atendi ao longo de nove anos no Hospital Jurandir Manfredini, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Pago este tributo convidando os colegas a refletirem comigo sobre o uso da abordagem psico-corporal com pessoas de baixa renda.

Digo que devo um tributo pois apesar de que já vinha trabalhando como psicoterapeuta muito anteriormente à minha locação naquele hospital, sinto que formei o meu ser terapeuta no intenso contato com a clientela de Jacarepaguá.

Tive oportunidade de atender e aprender muito com adultos de dezoito a setenta anos e com diversas sintomatologias. Esta aprendizagem é possível a qualquer profissional com consciência do seu papel social dentro do Serviço Público.

Trabalhei com psicoterapia corporal individual e de grupo com base na compreensão e abordagem da Biossíntese. Pude experimentar diferentes contratos de trabalho: terapias individuais de curto e longo termo, grupo de tempo limitado, grupo de movimento e expressão corporal, caminhadas e trabalhos intensivos ao ar livre, grupo da terceira idade, grupo de triagem e grupo de mulheres que durou cerca de sete anos (este em co-terapia com a Assistente Social e Psicóloga Suzely Lopes).

Ao longo desses anos pude experimentar como a compreensão energética do adoecer psíquico é adequada e ressoa bem no encontro terapêutico com pessoas das camadas populares.

A queixa da maioria das pessoas que procura um Serviço de Saúde Mental com quadro neurótico, é quase sempre corporal. Em geral, esta clientela já passou por diferentes serviços onde foram encaminhados para a Saúde Mental. Muitos vêm do cardiologista, do gastroenterologista, do ginecologista ou do neurologista `a procura de alívio para o seu mal-estar. Queixas difusas, muito relacionadas à sensações corporais, seja em estados histéricos ou depressivos, enchem as salas de triagem. Não estou me referindo aqui à clientela psicótica que chega com outras características, mas à grande população de neuróticos que em geral é medicada com ansiolíticos, como o famoso Diazepan.

A linguagem do povo ao falar de si mesmo é corporal. Queixa-se da sua depressão e angústia usando expressões como "minha cabeça dói", "minhas carnes tremem", "estou sem forças", "dói meu peito", "sinto falta de ar e meu coração dói" e "tenho várias dores no corpo". Por serem de uma classe social de pouca escolaridade, o cliente expressa seu sofrimento sem usar a fala psicanalítica já tão comum no discurso da classe social mais intelectualizada.

É possível que a intensidade do sofrimento orgânico da clientela de um Serviço de Saúde Mental Público seja também muito agudizada devido ao fato de que quando o pobre procura ajuda, é porque já vem sofrendo psiquicamente há muito tempo. É uma classe social onde as questões emocionais não são prioridade diante de questões de sobrevivência mais prementes. Culturalmente elas não são valorizadas. É preciso já se sentir muito doente, com queixas somáticas graves, para se dar ao direito de pedir ajuda.

Ao longo da minha prática clínica, fui percebendo que quando eu ajudava o cliente a relacionar os seus sintomas físicos com a sua maneira de lidar com o seu corpo à luz de sua história pessoal, esse cliente se surpreendia e se iluminava. Via a possibilidade de explicar-se a si mesmo a partir das sensações do próprio corpo e da compreensão de seus dilemas emocionais.

O fato de trabalharmos com a respiração e a busca de consciência corporal levou a dois movimentos importantes na clientela. O trabalho com a respiração ofereceu um recurso poderoso de o cliente aprender a lidar com a sua própria ansiedade, diminuindo assim o uso de medicação ansiolítica. Ao longo desse período, observei vários pacientes que passaram a fazer caminhadas, exercícios de alongamento e respiração nas suas próprias casas como fruto do que foi conscientizado e aprendido na terapia. Todos esses recursos têm um valor especial para a classe trabalhadora pois podem ser utilizados de maneira plenamente gratuita.

Devo acrescentar que a compreensão energética se encaixa perfeitamente dentro da forte tendência espiritual da clientela. O povo brasileiro é essencialmente religioso. Seja a pessoa de origem católica, espírita, umbandista, candomblecista ou crente, mesmo sem freqüentar nenhum templo, ele tem uma tendência a ter uma visão de si mesmo como um ser espiritual em trocas energéticas com o mundo. Trabalhos de massagem ou de descarga energética dentro dos grupos terapêuticos ou sessões individuais sempre foram bem-vindos graças à prática que a população já tem de dar e receber passes, descarregar-se ou fazer orações uns pelos outros.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a disponibilidade para tocar e ser tocado durante o processo terapêutico seja em grupo ou individualmente. Acredito que o terapeuta distante tenha mais dificuldade em se relacionar com essa clientela. A linguagem verbal do povo é mais direta e a comunicação mais corporal.

Trabalhei também com pacientes psicóticos. Com estes, vejo que a qualidade do vínculo foi o aspecto mais importante. Alguns trabalhos corporais foram realizados em escala bem menor comparando-se com a clientela neurótica.

Pode parecer a quem lê este texto que estou fazendo uma declaração ufanista da psicoterapia corporal. É claro que qualquer abordagem terapêutica exercida com fé, seriedade e dedicação leva ao processo de cura, ou melhor, de transformação da consciência. No entanto acredito que a compreensão que considere o homem nas suas dimensões somático-emocional, psicossocial e espiritual contribui de maneira eficaz para o alívio e renovação da pessoa que procura os Serviços de Saúde.

Infelizmente são poucos os profissionais que trabalham nesta abordagem atendendo à população. A psicoterapia em geral ainda é um serviço dedicado basicamente às classes sociais mais altas. Os Serviços de Saúde Pública carecem de recursos e de profissionais com formação em psicoterapia.

Como supervisora de um Serviço de Clínica Social, o Projeto Ponte do Grupo QUIRON (Centro de Estudos e Práticas Transomáticas), tenho testemunhado a dificuldade de nós, profissionais psicoterapeutas, de consultórios particulares nos aproximarmos das camadas populares.

Sabemos que Wilhelm Reich, iniciador da abordagem energético-emocional, dedicou grande parte da sua atenção e clínica às classes trabalhadoras. Vamos recuperar nossas raízes?

Aguardo a oportunidade de trocar idéias sobre este assunto com colegas, sejam psicoterapeutas corporais ou de outras abordagens, e com quem tiver interesse nessas questões.

Outubro de 1996.


Maria Luiza Carvalho, Psicóloga. Psicoterapeuta corporal em Biossíntese.
Especialista em Psiquiatria Social e Terapia de Adolescente.
Trabalhou durante vinte anos em diferentes Serviços de Psiquiatria na cidade do Rio de Janeiro.
Atualmente trabalha na Maternidade-Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.
Coordenadora do QUIRON - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.

 
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