Quem Somos?
 
Humbertho Oliveira
 

Há muito tempo nos vemos às voltas com essa questão: quem somos? Procurar desvendar-nos, é uma prática muito cara a nós, humanos. E nos tempos de hoje, quando a tecnologia já vai longe, somos obrigados a reconhecer que, habitar os espaços antes insondáveis, não se faz necessariamente acompanhado da habitação de "nosso próprio coração".

Faz-se, então, sempre urgente continuar perguntando: "quem sou?" E ainda mais, estimulados pelos novos conhecimentos acerca do humano, acrescentar ao "quem sou?", outras perguntas: "quais as necessidades que eu tenho?", "como tenho cuidado de mim?" e "de que modo estou expressando-me no mundo?". São questões que falam do nosso velho/novo interesse no auto-conhecimento.

Quando olhamos o desenrolar da vida humana, concluímos que, por um lado, o caminho da vida constitui-se em sermos gestados, depois nascermos, tornarmo-nos crianças, adolescentes e adultos. Nessa ordem, está previsto amadurecermos e ajudarmos a dar continuidade à humanidade, envelhecermos e morrermos para essa mesma vida. Mas por outro lado, a vida é mistério, é "decifra-me ou devoro-te"; a vida humana é uma possibilidade sempre aberta de construção de novas humanidades; é um "estar indo sem ir" a um determinado lugar.

E é exatamente pelo fato de tentarmos juntar esses dois aspectos do viver - o da ordem e o do mistério -, que sentimos a necessidade de aprofundar a visão de nós mesmos, interrogando-nos sobre como estamos vivendo a nossa vida.

Como nasci, que espécie de crescimento tem sido o meu, quais escolhas venho me permitindo fazer, que valores humanos estão sendo por mim abraçados, são perguntas ao mesmo tempo complexas e singelas que podem nos guiar na direção de pequenos mergulhos e descobertas fundamentais para ativarmos uma expansão de nossa vida emocional.

Muitas pessoas têm percorrido esse caminho de busca da revelação ampliada de si mesmo, lançando mão de recursos diversos. Como acompanhante do trabalho psicoterapêutico de alguns desses buscadores, permito-me aqui descrever, de modo muito sucinto, alguns momentos dessas procuras.

Carla é uma professora dedicada. Apoiada em sua experiência psicoterapêutica, deu-se conta de que, quando estava simplesmente sendo olhada por alguém, direto nos olhos, sentia-se muito incomodada. Já havia desenvolvido, sem perceber, um jeito de tensionar os olhos, provocando um sutil desfocamento da visão; dessa maneira, regulava o seu próprio olhar para que "não enxergasse", no olhar do outro, algo que a "ferisse".

Carla, com a sua já automatizada falta de foco, experimentava um conforto, uma espécie de segurança emocional, que a ajudava a estar diante do outro, do público - seus alunos. Porém, não podia sentir-se acariciada por um olhar de admiração: a mesma falta de foco a impossibilitava.

Carla propõe-se reaprender a olhar e a se deixar ver. Descobre que precisa ir devagar: há importantes acontecimentos emocionais, histórias de sua vida infantil que estão relacionadas a essa forma de ser. Ela compreende que seu mundo interno não pode sofrer uma "cirurgia reparadora". Portanto, quer trilhar um caminho gentil consigo mesmo. Aspira a transformar algo em si mesma, ansiosamente. Talvez, Carla esteja entrevendo a possibilidade de vir a sentir-se mais substancialmente amada.

João, um homem inteligente e maduro, ficou gravemente doente. Ele sabia tudo o que precisava fazer em relação a sua doença, e o fazia. Escolheu os médicos mais competentes para "assessorá-lo" no seu tratamento. Instruiu-se sobre as perspectivas da medicina alternativa e acrescentou esse cuidado ao conjunto de recursos terapêuticos que já usava. Sabia exatamente o que dizer e a quem dizer o quê... Dessa maneira, estava curando-se, competentemente.

Queria acrescentar mais um cuidado, o cuidado da psicoterapia. E começamos um trabalho. Aprendemos juntos a ver como ele havia escolhido um jeito de viver baseado numa forte auto-suficiência. João costumava "brincar" de não precisar de ninguém, mesmo quando precisava.

João vivia cercado de pessoas sérias; ele próprio era uma pessoa séria. Seus amigos eram interessados em fazer questionamentos honestos acerca da vida - pessoas que combinavam bem com a sua forma auto-suficiente de ser. Porém, ele se sentia sempre emocionalmente sozinho.

No decorrer da dura experiência em lidar com a sua doença, João veio a ser questionado por uma amiga. Ela queria saber se João já havia refletido sobre as causas emocionais de sua doença, pois compreendia que somos sempre responsáveis por tudo que nos acontece, inclusive o nosso adoecer. João ficou perplexo. Embora já tivesse refletido rigorosamente sobre as causas de sua doença, sentiu-se perturbado e entristecido por ser essa a única maneira que a amiga encontrara para chegar perto dele naquele momento. Tentou alguma resposta, mas continuou sentindo-se sozinho.

Naquele momento, nascia para João, um pequeno reconhecimento emocional de sua solidão. O que mais precisava viria do apoio confortável de amigos acolhedores. Ser acompanhado, de verdade, era o que mais precisava. Sentiu-se um pouco mais enfraquecido ao se dar conta da sua real necessidade. Preocupou-se, quis voltar atrás e apagar de si aquela "réstea de luz ofuscante".

João foi além: aceitou, pela primeira vez em sua terapia, o convite para soltar sua nuca, relaxar os pensamentos numerosos e exigentes e permitir sentir-se mais vivo no seu corpo de sensações e sentimentos, buscando sentir-se ali, também pela primeira vez, mais verdadeiramente acompanhado por mim.

Pois é, no caminho do auto-conhecimento, a ordem e o mistério se entrelaçam. Carla se encontra com sua impossibilidade de sentir-se deveras amada - o que mais lhe falta. João se depara com sua inabilidade em receber e em apoiar-se, quando necessário - seu anseio maior. Muitos de nós andamos tentando construir essa ponte entre a existência e a essência de nossa humanidade. Precisamos mesmo, pois, nos propor experimentar, continuamente, novas maneiras de viver.


Humbertho Oliveira, Médico,
Psicoterapeuta Somático,
Fundador e Coordenador do
Quiron - Centro de Estudos e Práticas Trans-somáticas,
Rio de Janeiro

 
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