Reich e o Feminino
 
Geny de O. Cobra
 

Trabalho apresentado no Encontro de Psicoterapia Somática - Cem Anos de Wilhelm Reich, em 5 e 6 de setembro de 1997, na Universidade Santa Úrsula - Rio de Janeiro


INTRODUÇÃO

Através destes 20 anos de trajetória como psicóloga, tanto no trabalho clinico, como também em nossas experiências em formação no exterior e no Brasil, sempre percebemos e encontramos um maior número de mulheres buscando o autoconhecimento e o contato com inovações técnicas na área Psi, seja no trabalho corporal, como também na psicanálise. Esta observação levou-nos a perguntar porque há sempre mais mulheres procurando maior contato consigo mesmas do que homens ? Será esta busca uma mera curiosidade acadêmica, ou um desejo do novo, ou uma busca pessoal ?

Numa reflexão mais profunda percebemos e verificamos o desfazer de uma história preconceituosa e desvalorizante, forjando, especialmente nas camadas sociais mais baixas, uma identidade individual e social marcada de estigmas. Referimo-nos ao estigma como uma marca social que ressoa na vida íntima, chegando muitas vezes a alterar a autopercepção do indivíduo. Erving Goffman (1988) em seu tratado sobre o estigma coloca bem claro, ser este, não somente relacionado a um defeito físico, mas também a uma organização socialmente estereotipada, podendo esta afetar a identidade pessoal.

Reich sempre afirmou que certas estruturas humanas são nativas a certas organizações sociais. Melhor dizendo, cada organização social produz estruturas de caráter necessárias para sua existência, utilizando para isso a ajuda das formas de educação, da instituição familiar e criando ideologias que serão adotadas por cada membro dessa sociedade. Assim, a condição feminina em uma sociedade patriarcal é muito diferente da sociedade matriarcal. A primeira é acentuadamente demarcada por diferenças nos gêneros, colocando o feminino, em muitos casos, como um subproduto social.

Quem de nós mulheres, ao longo do crescimento, já não ouviu frases tais como "você não pode fazer isto porque é mulher", ou ainda no trânsito "só podia ser uma mulher...!". Estas frases definem um lugar social onde a mulher é colocada como incapaz, inferior, sem inteligência, e outros atributos desvalorizantes. O paradoxal é que, o preconceito estigmatizante na condição feminina, muitas vezes nos é passado por uma outra mulher, nossa própria mãe. Ela também portadora dos preconceitos inerentes a uma cultura paternalista, que nos coloca diante de um discurso e atitude machistas, tanto no modo de agir com as filhas, quanto nos passando, o seu sentir desvalorizada. Aliás muitas agem de forma bastante ambivalente em relação ao bebê menina, que pode ser esperada como um menino.

Apesar de sabermos que o social está intimamente interligado ao individual, nosso desejo e objetivo é pensar o feminino, como uma categoria abrangente do ser mulher, sob o ponto de vista clínico e especialmente dentro da perspectiva da teoria de W. Reich, nosso homenageado.

Antes gostaríamos de definir a categoria do gênero feminino. Segundo o Novo Dicionário Aurélio é um adjetivo assim definido "referente ao sexo caracterizado pelo ovário nos animais e nas plantas". Nesta definição vemos o ser feminino reduzido a um órgão que supostamente o qualifica e caracteriza. Colocando-o como um produto de reprodução, sem considera-lo como sujeito.

O FEMININO EM PERSPECTIVA

Partimos do princípio que o ser humano para atingir sua total identidade como um ser masculino ou feminino, deve trazer em si de forma satisfatória e integrada, a identidade primária, secundária e a social. Essas três identidades são, qualitativa e quantitativamente dependentes e se processam, simultaneamente, com a organização e estruturação do Ego.

Na identidade primária a organização do Ego se processa através da coordenação e interdependência das funções de auto-percepção e conscientização; essas funções só podem se desenvolver plenamente dependendo da qualidade da relação objetal. Melhor dizendo, conforme a tese de Reich (1945:442) a criança quando nasce já possui auto-percepção e consciência, mas através de sua relação com a mãe, ou pessoas que lhe cuidam, é que será capaz de confirmar seu autoconhecimento. Portanto, a autopercepção e consciência corporal se organizam durante a relação objetal. Reich considerou a disfunção da autopercepção e consciência como diretamente relacionadas às disfunções emocionais.

Na identidade secundária, o desenvolvimento libidinal da organização egóica se processa em fases didaticamente descritas por Freud, assim resumidas: fase oral que se processa a partir do nascimento até mais ou menos os dois anos de idade, tendo como características a posição de total dependência do bebê em relação à mãe e sua intensa relação com o seio materno; esta é considerada o alicerce da estruturação do psiquismo. A fase anal que se processa entre os dois e quatro anos, e, caracteriza-se pela organização da libido na zona erógena anal; Reich coloca como não sendo uma fase natural mas resultante das formas educadoras em relação ao controle esfincteriano anal. A fase fálica se dá a partir dos três ou quatro anos, quando a criança adquire maior consciência das diferenças anatômicas entre os sexos e da identidade sexual masculina e feminina, é considerada como preparatória para o início do complexo de Édipo. E a fase genital que se inicia aos cinco anos de idade e vai até à puberdade, se caracteriza pela passagem pelo complexo de Édipo e sua resolução. Essa é responsável pela constituição da identidade sexual e da escolha objetal e suas identificações; há nessa fase intensa concentração de energia libidinal nas zonas genitais, possibilitando a organização da sexualidade adulta. Reich coloca que a formação do caráter, como forma definitiva, se inicia com a superação do complexo de Édipo.

Utilizando o princípio do pensamento funcional de Reich onde as funções bioenergéticas, mentais e emocionais estão, dialeticamente interdependentes, podemos afirmar que, a nível de estrutura, a organização da identidade secundária depende da primária. Ou seja, a capacidade, do menino e menina, de reconhecimento autoperceptivo e consciência das diferenças anatômicas, dependem também da forma que se processou a identidade primária. É através dela que se estabelece a capacidade de desenvolver a percepção e consciência corporal, podendo essa capacidade ser a base da diferenciação dos gêneros masculino e feminino.

A identidade social ocorre a partir da adolescência, e se processa ao longo da vida adulta, é por nós considerada como resultante da interação das duas primeiras identidades com o meio social e cultural onde se circunscrevem.

Desde o século XIX a mulher e seu útero estão associados à histeria. Segundo Gladys Swain (1983) "na e a propósito da histeria até Charcot, algo se simboliza: o destino feminino". Assim, a preponderância das imagens tradicionais do ser mulher na estrutura social é associada à doença da histeria e com o órgão reprodutivo feminino, colocando, como conseqüência, o substantivo feminino atravessado por essa analogia ou ideologia. No entanto, Freud aparece como o herdeiro inconsciente e o continuador involuntário do enraizamento secular da histeria na sexualidade feminina (Swain, 1983).

Será que na visão da psicopatologia a histeria é uma condição só da mulher? O interessante é que Reich, diferente de Freud, coloca que o caráter histérico é identificado tanto no homem como na mulher; da mesma forma que o caráter compulsivo também não é somente encontrado na organização somatopsíquica dos homens. Na Análise do Caráter ele afirma ser a histeria, na mulher, uma forma circunscrita das defesas psíquicas, muitas vezes por razões morais, em relação ao desapontamento amoroso com os homens. Essas razões se passam no cenário familiar estruturado pela identificação, por um lado, com uma mãe muito moralista ou repressiva, e por outro, com um pai repressor e distante, talvez por medo da sensualidade natural da menina, ou invasivo por excesso de genitalização na relação com a filha. Na maioria desses casos, essas futuras mulheres femininas, desenvolvem um caráter histérico.

A formação caracterológica na visão de Reich (1945:136) consiste numa mudança crônica do Ego; ele o descreve como um endurecimento que formará as bases crônicas das formas de reações defensivas. O objetivo dessas formas defensivas são de defender o Ego de perigos internos (pulsões) e externos (repressão moralista e sedução). As qualidades destas formas de reação são comuns a ambos os sexos. Bem como as emoções primárias, por ele definidas como prazer, ansiedade, medo, tristeza, dor e raiva. A qualidade emocional é a mesma nos seres humanos, mas a quantidade e grau é que podem variar de uma pessoa para outra, dependendo com quem e como se deram as frustrações vividas e de que forma aparecem os bloqueios. A forma de expressão, ou ausência expressiva, dessas emoções irão definir as formas de defesas que cada um organiza na sua estrutura biopsíquica e na qualidade do encouraçamento.

Segundo Reich (1945:136) a couraça caracterial se forma em torno do Ego, precisamente em volta da parte da personalidade que fica no limite da vida biofisiológica instintiva e o mundo externo; ele o denominou de caráter do ego.

Quando nascemos (seres femininos), muitas vezes já estamos marcadas por um desejo frustrado de que fôssemos homens, e nossa identidade primária muitas vezes é contaminada por esta expectativa. Suponhamos que nossa mãe se renda ao seu afeto maternal, esquecendo de seu primeiro desejo, pois a beleza de um bebê não depende de seu gênero. Entretanto, não podemos descartar a possibilidade de que a trajetória dessa menina até os quatro ou cinco anos, onde se processa sua identidade secundária, pode ser marcada pela ambivalência desse desejo materno, inferindo na identidade feminina dessa criança, de forma confusa. Nesse campo de identidade, já ambivalente, a inveja do homem ou do pênis, para usarmos a terminologia freudiana, constitui a ferida narcísica.. Esta inveja pode ser diluída dependendo da relação com a figura do sexo oposto, o pai, ou de como se processa a identificação com a mãe. Podendo ela, então desenvolver uma plena feminilidade, ou uma feminilidade frágil, repleta de inseguranças e com auto-estima baixa, ou ainda carregada de identificações masculinas. Freud (1908:337) coloca o complexo de castração como condição para a menina aceitar sua feminilidade, pois ela consegue integrá-lo na sua personalidade deixando de ser uma ameaça, enquanto que no menino a ameaça de castração permanece.

Entretanto Reich (1945:165) afirma, que um pai indulgente e amoroso, ao contrário de um pai restritivo e brutal, pode contribuir para o desenvolvimento de um caráter feminino na menina. Ela pode desenvolver atitudes femininas e uma relação objetal amorosa em relação ao pai amoroso. Mas se o pai é brutal e agressivo, em geral a menina reage identificando-se com o caráter masculino agressivo; nesses casos a inveja do pênis é ativada e modelada no complexo masculino, através de uma mudança do Ego. A natureza masculina agressiva serve como uma couraça contra as atitudes femininas em relação ao pai agressivo e frio. Segundo Reich, quando a frustração na esfera heterossexual é relativamente fraca, a inveja do pênis não tem muito significado na formação do caráter. Ao contrário de Freud, não considerou como muito importante a inveja do pênis, pois deu maior ênfase de como essa questão afeta o caráter, e quais sintomas ele produz. O ponto decisivo é se a identificação com a mãe se organiza no ego; e também como essas expressões, que chamamos de femininas, se estabelecem nos traços caracteriais (Reich, 1945:165).

Temos observado em nossa prática clínica com mulheres, que na medida que se restabelece o desbloqueamento emocional e bio-energético, e por conseqüência a autopercepção corporal se processa, a consciência das expressões femininas ocorrem e essas mulheres se tornam mais produtivas e mais potentes. Chamamos de potência feminina a mulher integrada na sua identidade somatopsíquica. Erich Fromm em seu belíssimo livro A Arte de Amar coloca bem claro que a mulher não é um homem castrado, sua sexualidade é especificamente feminina, e não de "natureza masculina" (Fromm, 1966:48).

Para Reich o ser humano, masculino e feminino, possuidor de uma economia sexual integrada é naturalmente racional, governado pelas funções sociais básicas como o amor, o trabalho e o conhecimento.

O pensamento naturalmente racional, está centrado na capacidade de experienciar as percepções, sensações e emoções de forma contínua e sem distorção. A limitação nesta capacidade denuncia uma intolerância, em diferentes graus, ao movimento espontâneo de energia. Esta intolerância pode ser consciente ou não, mas na medida que, como já dissemos, ocorre o desbloqueamento das couraças e o restabelecimento perceptivo do fluxo energético natural do organismo, o indivíduo vive intensa ansiedade interrompendo ou provocando uma distorção na função da percepção. Segundo Konia (1991) a função das distorções perceptivas e cognitivas é defensiva e alimenta o estado de falta de contato com o self e com os outros. A percepção e consciência da imagem corporal e a capacidade de sentir o corpo integrado a essa imagem, depende da organização e restabelecimento das funções de percepção e conscientização. Há uma interdependência entre as funções de auto-percepção e da consciência. De acordo com Reich (1945:442), quando a função da auto-percepção se deteriora, em geral isso também ocorre com a função de conscientização e por conseqüência todas as outras funções a elas relacionadas como a fala, associação, orientação e outras.

Uma questão nos ocorre, por que o ser feminino não tem consciência de sua potência feminina no ato de amar? Essa potência traduziríamos como qualidades de receptividade, proteção, realismo, doação, paciência, maternidade que são intrínsecas ao caráter feminino. São atributos que através da maternidade o ser feminino exercita o amor e sua capacidade de doação de forma real e concreta. Nessa relação a mulher tem a potência de produzir amor e de doar pelo fato de amar.

Um ser feminino de caráter genital, isto é maduro, vive a entrega afetiva com seu parceiro, na sua maternidade, no seu trabalho e não se aprisiona nas condições de submissão, pois seu funcionamento está centrado na sua potência e sua realidade somática.

Estamos no final de um milênio, momento bastante importante para pensarmos de que forma a mulher, cada vez mais produtiva e ativa na vida social, desempenhará seu papel feminino na sociedade futura? De que forma nós seres femininos podemos contribuir para uma ecologia humana? Reich em seu livro As Crianças do Futuro nos coloca sua a preocupação com o futuro da humanidade, e nos alerta para a prevenção das neuroses, colocando em nossas mãos um caminho de mudança das gerações futuras. Também defende a independência e autonomia da mulher como ser produtivo e capaz de fazer escolha no campo da maternidade. Ele nos legou o princípio da auto-regulação. Esse princípio coloca nos pais, e especialmente nas mães, o cuidado e respeito ao ritmo biológico do recém-nascido, proporcionando-lhe a capacidade de desenvolver plenamente suas potencialidades inatas. Isso parece visionário especialmente numa sociedade como a nossa onde há tanto desrespeito com o ser humano e o ser feminino ainda luta para ser reconhecido como sujeito.

Bibliografia:

>> Carleton, A. Jacqueline, 1991, Self-Regulation, USA, The Journal of Orgonomy, vol 25 n 1, Maio, Orgonomic Publications, Inc, pp 68-81.

>> Calvin, S. Hall, 1954, A Primer of Freudian Psychology, New York, A Mentor Book.

>> Freud, S, 1953, On Sexuality: Three Essays on the Theory of Sexuality, Londres, Penguin Books, Volume 7.

>> Freud, S, 1953, and On Psychopathology: Inhibitions, Symptoms Anxiety, Londres, Penguin Books, Volume10.

>> Fromm, E, 1966, A Arte de Amar, Belo Horizonte, Editora Itatiaia.

>> Gomes, R., O Corpo na Rua e o corpo da Rua, 1996, SãoPaulo, Unimarco Editora,

>> Konia, C, 1991, Orgone Therapy: Part XI, The Application of functional Thinking in Medical Practice, USA, The Journal of Orgonomy, vol.25 n. 1, Maio, Orgone Publicationas, Inc, pp 42-56.

>> Muszkat, M, 1994, Desejo de Mulher, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos.

>> Reich, W, 1945, Character Analysis, New York, Farrar, Straus and Giroux.

>> Reich, W, 1950, Children of the Future: On the Prevention of Sexual Pathology, New York, Farrar, Straus,and Giroux.

>> Gladys, S, 1983, A Alma, A Mulher O SexCorpo, França; As metamorfoses da histeria no fim do século XIX , , Le Débat, n.24, Março, Editora Gallimard, cópia da tradução de Marcelo Marques Damião.

GENY DE O. COBRA,

 
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