| Reich na Universidade | ||
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Maria Helena Simão Cruz |
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Trabalho apresentado no Encontro de Psicoterapia Somática - Cem Anos de Wilhelm Reich, em 5 e 6 de setembro de 1997, na Universidade Santa Úrsula - Rio de Janeiro
Resumo O artigo trata do ensino de Reich na Universidade Brasileira, levantando hipótese relacionada com a Peste Emocional, tema proposto por Reich. Mostra também como o ensino de Reich é feito na Universidade Santa Úrsula do Rio de Janeiro. Por princípio a universidade é o lugar de produção e divulgação do saber. O resultado de uma pesquisa a respeito da teoria reichiana em diferentes universidades brasileiras comprovou que este ramo do conhecimento praticamente inexiste a nível universitário. Os resultados dessa pesquisa nos levaram às seguintes conclusões: Considerando que é função do curso de Psicologia oferecer aos seus alunos um vasto leque de opções teóricas, dando-lhes a oportunidade de conhecer e se identificar com aquelas que melhor lhe convierem, pressupomos que o espaço ideal para a aquisição de tais conhecimentos dentro de um rigor teórico é a Universidade. É lamentável que a maioria das universidades não possua matérias que abordem a teoria reichiana nem práticas supervisionadas de psicoterapias somáticas, já que o estágio prático supervisionado é um aspecto fundamental na qualidade da prática do futuro profissional. Na Universidade Santa Úrsula, onde uma matéria eletiva da teoria de Reich é oferecida, observamos que a teoria do orgasmo, a análise do caráter e a peste emocional despertam interesse e curiosidade. Apesar de ter sido escrita por Reich na década de quarenta, a peste emocional tem um caráter atual dentro do momento em que vivemos. Descrita como a ação destrutiva de um impulso neurótico, ela dificulta a mobilidade natural da pessoa afetada desde o berço, fazendo com que a mesma desenvolva formas de movimento artificiais. Por ser uma biopatia crônica, não biológica ela se manifesta principalmente na vida social. Uma pessoa quando saudável não costuma impor a sua maneira de viver a ninguém, embora esteja disponível a ajudar os outros quando estes lhe solicitem alguma ajuda. Um indivíduo saudável jamais decreta que todos "tem que ser saudáveis". Ele não tem qualquer desejo de impor a sua maneira de viver, porque os motivos da sua conduta estão relacionados com a sua própria vida e não com a dos outros. O indivíduo com peste emocional, pelo contrário, destina as suas próprias exigências de vida para os outros. Enquanto o indivíduo saudável faz sugestões, usando a sua própria experiência como exemplo, deixando a decisão final para o outro, o indivíduo com a peste emocional pretende impor, à força, a sua vontade, não tolerando opiniões que ameacem sua couraça ou desmascarem os seus motivos irracionais. A pessoa com peste emocional, portanto, luta contra os modos de vida contrários aos seus, mesmo que isso não lhe diga respeito. A diferença é para ela uma provocação. Segundo a teoria de Reich, o que alimenta a peste emocional é a frustração genital. O bloqueio da energia sexual é o ponto em comum entre a peste emocional e todas as outras biopatias. O restabelecimento da capacidade natural de amar, que foi cerceada, conduz à cura. A peste emocional é um distúrbio do comportamento humano que, tendo como base uma estrutura de caráter biopática, age de maneira típica nas relações interpessoais. Em algumas áreas ela pode aparecer de modo mais agudo: sede de autoridade; moralismo; política partidária; métodos sádicos de educação; ideologias de guerra; burocracia autoritária; ódio racial; bisbilhotice e difamação, e outras. O indivíduo de caráter genital ou maduro, não se utiliza dos métodos comumente usados por aqueles que estão atingidos pela peste emocional. O caráter genital, quando adquirido, revela-se claramente no pensamento, na ação, na sexualidade e no trabalho do homem.
No pensamento: O pensamento do indivíduo que alcançou o caráter genital se orienta para fatos objetivos, sendo ele capaz de separar as idéias essenciais das irrelevantes. Seus juízos resultam de um processo adequado de pensamento. O indivíduo atingido pela peste emocional apresenta um pensamento completamente perturbado. O pensamento aqui serve para confirmar preconceitos absurdos. O pensamento atacado de peste não é acessível à argumentação lógica.
Na ação: No indivíduo de caráter genital, a motivação, a clareza e a ação estão em harmonia e orientados socialmente. O indivíduo naturalmente luta por uma melhoria de suas condições de vida e das condições de vida dos outros. No indivíduo com peste as suas intenções são sempre dissimuladas. O objetivo declarado nunca corresponde ao objetivo verdadeiro, apesar dele acreditar naquilo que declara, já que está dominado por uma compulsão estrutural. É o caso do pai que por ódio à mulher que lhe foi infiel, exige a custódia do filho pequeno, sem levar em conta o sofrimento da criança pela perda da mãe. Acreditando de que visa o bem da criança, ele tem sempre argumentos para sustentar a sua convicção, embora o motivo verdadeiro de sua atitude seja a punição que ele quer infligir à mãe.
Na sexualidade: Determinada pelas leis naturais da energia biológica, o caráter genital naturalmente sente prazer com a felicidade sexual dos outros. Indiferente a perversões, tem aversão à pornografia e considera natural que as crianças sejam orientadas sexualmente. Por outro lado, o indivíduo com peste emocional apresenta-se fortemente intolerante quanto à sexualidade natural, sentindo satisfação perversa em criar intrigas e difamações sexuais. Sadicamente moralista e pornográfico ele desenvolve ódio contra todo o processo que incite o seu anseio orgástico.
No trabalho: Enquanto o indivíduo que possui o caráter genital tem interesse centrado no próprio processo de trabalho, que é obtido sem esforço especial e é o produto do prazer, o indivíduo com peste emocional odeia trabalhar porque o sente como um pesado fardo. Fugindo de qualquer responsabilidade e particularmente de pequenas tarefas que exigem paciência, ele visa sempre trabalhar menos que os outros, apesar de insistir em ser chefe. Segundo Reich, a pessoa que sofre de peste emocional é fruto de uma educação compulsiva e autoritária. Por possuir uma grande quantidade de energia biológica fica impossibilitada de descarregar de maneira natural a alta tensão de sua energia, bloqueada numa rígida couraça de caráter e muscular. O indivíduo que apresenta o caráter neurótico encontra-se a meio caminho entre o que possui o caráter genital e o que possui a peste emocional. Segundo Reich, a pessoa acometida de peste emocional pode ser curada. Mas será que os danos provocados pela peste desaparecem? Sabe-se que a peste emocional é responsável pelo desaparecimento e descrédito de realizações honestas. O próprio Reich foi uma vítima de peste emocional . Seriamente atingido pelos boatos espalhados por pessoas com peste emocional ele se viu segregado e desqualificado como no caso da mulher que estava interessada em estudar com Reich e que ouviu a advertência de que ele era "proprietário de um bordel público". Em 1939, ao chegar nos Estados Unidos, Reich tomou conhecimento de que havia um rumor que ele havia ficado esquizofrênico e tinha passado algum tempo num hospício. A própria pessoa que espalhara o boato, como foi detectado depois, havia sofrido um esgotamento nervoso. Boatos como esse não se apagam facilmente e é possível que suas seqüelas permaneçam para sempre. Há pouco tempo, em São Paulo, o mesmo aconteceu. Uma escola foi fechada e seus donos sofreram a acusação de aliciação sexual de menores. Depois de um ano de sofrimento, dúvidas e desqualificação a polícia concluiu que se tratava de boato. Será que os proprietários dessa escola conseguirão se recuperar emocional e financeiramente do prejuízo sofrido? É muito comum ouvirem-se informações distorcidas a respeito de Reich vindas de pessoas que não conhecem absolutamente nada do seu trabalho. Não será esse fato a causa da grande ausência de Reich na Universidade? Na avaliação final do curso de "teoria de Reich" pudemos constatar a surpresa dos alunos com a extensão do trabalho reichiano, pois para alguns Reich era um teórico que, até então só falava de sexo. Estas observações nos levaram a concluir que determinados boatos jamais se apagarão da mente das pessoas. Neste aspecto a peste toma a dimensão de um problema social. A Universidade difundindo de maneira correta a informação, embora não podendo acabar com as distorções históricas tem a função primordial de minorá-las, ao substituir o "preconceito pelo conhecimento". É nesse aspecto que a Universidade Santa Úrsula ao incluir a abordagem reichiana em seu currículo tem cumprido o seu papel. O curso incluindo os aspectos teóricos da vida e obra de Reich é um pré requisito para o estágio supervisionado oferecido pelo Serviço de Psicologia Aplicada - SPA, de enfoque reichiano. O SPA oferece estágio aos alunos do curso de psicologia ao mesmo tempo em que propicia um atendimento clínico à população de baixa renda. Aqui a prática clínica reichiana é apenas uma dentre as diferentes práticas psicoterápicas que são oferecidas. As diferentes equipes funcionando com enfoques teóricos particulares são compostas por um supervisor e vários estagiários. Há atendimentos individuais e em grupos e para as várias faixas etárias que vão da infância à terceira idade. O estágio na área reichiana baseia-se na vegetoterapia caractero-analítica proposta por Federico Navarro, com uma ênfase especial na análise do caráter e na relação transferencial terapeuta-paciente. A equipe reichiana atende adolescentes e adultos, individualmente. A Universidade, ao desenvolver uma prática clínica diferenciada, voltada para a população de baixa renda, cumpre dois objetivos: o objetivo didático, essencial para a definição do aluno frente às múltiplas práticas diagnosticas e psicoterapêuticas; e o social, à medida em amplia o atendimento psicoterápico diferenciado a uma faixa populacional de baixo poder aquisitivo. Essa perspectiva corresponde à preocupação de Reich de possibilitar à população carente, a diminuição do seu sofrimento através do trabalho psicoterápico. Como sabemos, Reich dedicou vários anos da sua vida lutando pela melhora das condições sociais da população proletária, ao mesmo tempo que lhe propiciava acesso a trabalhos preventivos e psicoterápico. Além do curso teórico e da prática, a USU também divulga o pensamento reichiano através de palestras, mesas redondas, publicação de artigos, estudo de casos clínicos, grupos de estudo. Ou mesmo em encontros como este que acabamos de participar.
Bibliografia: >> REICH, Wilhelm Análise do Caráter. Martins Fontes Editora. 1ª Edição/agosto de 1989. São Paulo. >> SHARAF, Myron Fury on Earth - a biography of Wilhelm Reich. St. Martin's Press/ Marek. New York, 1983. >> BOADELLA, David - Nos Caminhos de Reich Summus Editorial. São Paulo. MARIA HELENA SIMÃO CRUZ, |
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