Supervisão: a permanente fugacidade do sentido buscado
 
Ary Band
 

Trata-se de uma condensação dos aspectos básicos da tese de doutoramento em Psicologia Clínica na PUC/RJ, defendida em novembro de 1994, com o título de "Supervisão Psicanalítica: um estilo", as fontes bibliográficas utilizadas podem, portanto, lá serem encontradas.



Rita está em análise há dois anos, nunca tendo deixado de pedir que a analista lhe desse opiniões sobre suas decisões de vida.

Numa determinada sessão em que contara ter deixado de fazer uma prova na faculdade por medo, a analista não conseguiu se refrear e disse, zangada, não ser possível que depois de dois anos de análise ela ainda não tivesse crescido, continuando a fazer a mesma coisa que fazia na infância, sem se adultizar, e que assim jamais terminaria o curso, não sendo possível que não se responsabilizasse pelas suas coisas. Depois da descarga, deu-se conta do que tinha feito e envergonhou-se.

Levando o caso para sua supervisora, esta lhe diz, também zangada, para jamais fazer isto de novo, pois saíra de seu papel de analista, assumindo uma postura de mãe, o que não era compatível com a função que procurava exercer. Com a recomendação de tratar disso urgentemente em sua análise, e magoada com a reprimenda, ela se despediu para não mais voltar, depois de estarem trabalhando juntas por dois anos.

Estes eventos foram contados para um grupo acadêmico, tendo sido unânime a opinião de que analista e supervisora eram péssimas profissionais e que deveriam ambas agir de forma completamente diferente de como agiram; teriam, disseram, de ter tido "atitude mais psicanalítica".

Isto tudo foi assim narrado numa reunião clínica de uma instituição psicanalítica, tendo surgido comentários críticos do tipo: "... este pessoal acadêmico! ...".

Observação posterior de uma colega psicanalista: " ... estas instituições psicanalíticas! ...".

Vale assinalar que a quase totalidade das pessoas participantes destes acontecimentos é composta de psicanalistas envolvidos seriamente e por muitos anos com a prática psicanalítica.

Existe, nesta indicação esquemática, um ponto comum entre as diferentes reações: cedeu-se à tentação de estabelecer o que era certo e o que era errado de cada situação. Quis-se decidir se caberia ou não ter-se feito o que já havia sido feito. Vê-se aí a presença de uma determinada concepção do processo analítico, em termos de uma preocupação com a adequação das atitudes apontadas a um contexto psicanalítico aceitável. Trata-se de uma atitude "a priori", ou seja, em que se utilizam os eventos passados como referenciais para estipular o que se pretenderá fazer depois; o já ocorrido é criticado em termos de como deveria - e deverá - ser feito. Estamos então num campo de normas a serem seguidas para garantia de uma boa psicanálise; ao serem elas desrespeitadas, haveria de se recuperar o bom caminho, apontando os erros cometidos, para que se passe a adotar atitudes psicanaliticamente corretas. Como consequência, o analista é encarado como uma espécie de observador externo ao processo vivido pelo analisando, capaz de examina-lo e orienta-lo sem com ele se misturar.

Com esta concepção, teríamos também um supervisor que se manteria na postura de profissional experiente, mais seguro, servindo de esteio para as inseguranças do analista que a ele recorre, apontando seus enganos e indicando-lhe as atitudes adequadas, teórica e clinicamente.

Não é esta, entretanto, a única maneira de considerar as situações apresentadas; não é este o único estilo possível de fazer psicanálise.

Pode-se trabalhar - em análise e em supervisão - sem questionar se cabem ou não certas atitudes tomadas, sem nenhuma esperança de uma determinação "a priori" dos passos corretos, sem se interrogar sobre a procedência eficiente das ações do analista e do supervisor, sem tentar obedecer previamente a nenhuma regra de técnica psicanalítica, sem retirar o analista da arena em que mergulha na relação com seu analisando, e sem colocar o supervisor num pedestal de mestre a ser seguido e imitado pelo supervisando.

Estas situações introduzidas, podem ser pensadas com base naquilo que é realmente básico, ou seja, na relação analítica entre analista e analisando. A partir daí pode-se refletir a respeito dos eventos que se sucederam como estando nela apoiados estruturalmente, permitindo-nos assim acompanha-los. Isto quer dizer que, se as coisas ocorreram de uma determinada maneira, caberia buscar sentido para estes acontecimentos e não tentar corrigi-los; tudo que ocorreu, teria inexoravelmente de ocorrer, porque ... ocorreu.

Assim agindo, a maneira de lidar com os eventos adquire uma especificidade, indicando a existência de uma outra forma de trabalho psicanalítico, forma esta que cabe descrever, apontando sua possibilidade de inserção no campo da psicanálise e justificando sua viabilidade para o contexto da clínica e da teoria psicanalíticas.

ESCUTA

O espaço psicanalítico se caracteriza por ter um campo específico de ação, que possa ser reconhecido por uma postura adotada numa prática, realizada com instrumentos próprios e que atendem aos rigores de um método original: seu método é o da livre associação-atenção flutuante - ou seja, o da escuta -, sua postura a abstinência - o não atendimento das demandas do analisando -, seu campo de ação a transferência, e os instrumentos de trabalho de que se utiliza são, basicamente, a interpretação e a construção. Seu ponto de partida inevitável é a análise pessoal do analista.

A transferência, estado afetivo abrangendo ambos os personagens em causa - analista e analisando -, tem então a prerrogativa de estabelecer um campo dramático de trabalho - o campo transferencial.

O caminho de chegada ao crucial conceito de campo transferencial foi longo e tortuoso, iniciando-se com Freud, passando pela originária ação institucional encetada em 1920 no Instituto de Berlim, e se afirmando com Lacan, quando a busca de certezas é vantajosamente substituída pela radicalidade da dúvida propiciadora de movimento.

Foi necessário abandonar o conceito de contratransferência - muito importante historicamente para se poderem sofisticar as idéias sobre as funções exercidas pelo analista, além ser o responsável pela futura obrigatoriedade de análise pessoal para os que desejam ser analistas -, para que a noção de campo transferencial ganhasse a dimensão que aqui é assinalada e que impede que o analista seja considerado neutro.

Distante disso, o próprio Freud buscava para o analista uma mentalidade que o eximisse de intervir imaginariamente no processo. Lacan, mesmo combatendo o conceito de contratransferência, não escapa deste enfoque neutralista, o que nos mostra claramente quando fala de "vacilação calculada da neutralidade". (ver página 824 de Lacan, J. - "Subversion du sujet et dialectique du désir dans línconscient freudien. (1960)", em Écrits, Seuil, Paris, 1966, e os comentários críticos nas páginas 38 a 41 da tese citada no início deste artigo.)

O lugar ocupado pelo analista passa então, na concepção aqui apontada, por vicissitudes que se diferenciam das que ele vivia quando se achava capaz de buscar neutralidade em sua prática clínica. O que mais caracteriza o analista, nesta forma, é o questionamento de toda tentativa de a ele alocar a ocupação de um lugar de modo a obriga-lo a fiscalizar-se, a vigiar-se, e que, portanto, o condicione a adotar posturas corretas, facilmente transformáveis em regras de conduta.

Este analista, não tendo então regras que regulamentem o trabalho analítico, não determina previamente o que se vai fazer, age, e tenta obter, num momento "a posteriori", explicações e generalizações teorizantes. Inserido num espaço psicanalítico, ele também o é num campo específico que não instaura, mas ao qual pertence e afeta - o campo transferencial.

Numa de suas mais simples e brilhantes reflexões - ainda na pré-história da psicanálise -, Freud disse que não acreditava que alguém pudesse estar sofrendo e buscando ajuda de um outro, sem que aquilo que ele falasse então, não tivesse algo a ver com este sofrimento e, portanto, com as memórias esquecidas procuradas naquela época, já que estas é que seriam responsáveis, em última instância, pelo sofrimento. Assim sendo, pensava, não haveria nenhuma razão para que se adotasse atitudes que tentassem arrancar as lembranças buscadas à força - seja pela hipnose seja pela sugestão autoritária -; bastaria escutar - fosse lá o que fosse que os pacientes quisessem ou pudessem trazer para o médico. Isto, que deu origem ao método caracterizador da psicanálise - a livre associação-atenção flutuante -, faz com que, diferentemente do que ocorre no método típico da medicina - a anamnese -, na psicanálise, o analisando é que traz o que pode para seu encontro com o analista, sendo portanto o responsável pela instauração da estrutura básica da relação.

Então, o método adotado no trabalho analítico é o da livre associação, onde o analista aguarda que o analisando indique o início do processo, o que é diferente do método da medicina, em que é o médico que faz as perguntas e que decide como se inicia a investigação. Além disto, o analisando é quem se coloca como alvo do interesse do analista, pois vem procurar ajuda para sua impossibilidade de interpretação de sua participação no mundo. Mais ainda, o analista se propõe a escuta-lo para poder lhe propiciar o auxílio buscado.

É o analisando, portanto, quem instaura a estrutura do campo que ele e o analista vão compartilhar. Trata-se então de um campo que abrange a ambos, analisando e analista, com todas as alternâncias possíveis de trocas inconscientes, mas que se organiza a partir do que o analisando tem para trazer, embora conduzido pelo analista.

Como consequência disto, sempre que o analista se refere à transferência com que trabalha, ele está na verdade mencionando um campo transferencial que o abrange; em decorrência, ele está se referindo a um campo transferencial instaurado pelo analisando e, portanto, organizado basicamente em torno de suas idiossincrasias.

O reconhecimento deste campo e de suas tramas é que facilita a ocupação do lugar de analista, e não tentar evitar a ele estar inconscientemente atrelado. Este reconhecimento propicia um caminho para ocupar o lugar de analista, de uma forma que permita permanentes questionamentos de certezas, que certamente anunciam a compulsão à repetição.

O que aqui se propõe então, é buscar este reconhecimento, ou seja, é uma busca de sentido, não para fechar a investigação, mas para manter o movimento de busca, para não se deixar fixar em nenhuma significação, para se manter em movimento psíquico, em pulsação. Esta busca de sentido jamais tem por objetivo encontrar significações para os acontecimentos psíquicos em pauta no processo analítico. Não se trata de encontrar soluções para problemas, nem de estabelecer conhecimentos cert soluções para problemas, nem de estabelecer conhecimentos certos do analisando sobre si. Trata-se de enigmatizar, de buscar, de pulsar.

Espera-se que o analista suporte permanecer no campo da dúvida, para que seja possível a descoberta do novo; haveria assim uma constante busca da verdade, busca esta cuja forma faz parte constitutiva da própria verdade, mas ... com a certeza de jamais encontrar verdades.

A idéia de que o sentido poderia ser finalmente encontrado, é uma idéia esclerosadora e emperradora de movimento psíquico. O saber decorrente da experiência psicanalítica caracteriza-se por ser inacabado e incerto. Isto vem ao encontro da exigência que Freud fazia de que a psicanálise não se transformasse numa "Weltanschauung" - numa concepção de mundo - por não almejar uma totalização e nem querer limitar a verdade ou recusar as ilusões, embora tivesse sempre lutado pela especificidade do que construía.

A atitude de busca, aqui enfatizada, sempre apontando impositivamente para o campo transferencial, faz com que esteja inerentemente amenizada - acredita-se - a influência, na experiência analítica, da enfatizaão das idiossincrasias do sujeito que está ocupando um lugar de analista. Agindo desta maneira então, não se necessita tentar fazer a impossível - parece-me - cisão que alguns autores propugnam: a separação analista-analista de analista-sujeito, como tentativa de impedir que este último afete o trabalho do primeiro.

Os sentidos buscados, entretanto, não são sentidos quaisquer; eles se afinam com a estrutura psíquica do sujeito, ou seja, com sua história, suas vicissitudes e seu ritmo.

Esta maneira de ocupar um lugar de analista, caracteriza uma forma específica de trabalho psicanalítico clínico, sendo este o caminho adotado para marcar um determinado tipo de supervisão.


SUPERVISÃO

A história da instituição psicanalítica confunde-se com a história da institucionalização do que se considerou formação psicanalítica.

O estudo e a discussão das idéias freudianas, desde o início mostraram-se indispensáveis e quase exclusivos para que pudesse haver inserção no campo da incipiente psicanálise. A oficialização da análise pessoal do analista, entretanto, é concomitante - início da década de 1920 - com o surgimento da obrigatoriedade institucional do "controle".

Embora se possa reconhecer arremedos de trabalho supervisivo na consulta que Breuer faz a Freud no caso de Anna O, na atitude aconselhadora de Freud com vários de seus seguidores, e nas correspondências que ele desenvolve - principalmente com Fliess -, é no Instituto Psicanalítico de Berlim que o controle é instituído - por Max Eitingon, seu primeiro presidente -, como forma de fiscalizar os pretendentes a psicanalistas. Tornando-se etapa obrigatória da transmissão psicanalítica institucionalizada, o controle não deixou, entretanto, de também atender à demanda daqueles futuros analistas de buscar, tanto verificação para suas atividades clínicas quanto reconhecimento da capacidade de o serem.

O termo "controle", iniciador - com seu poderoso espírito de homologação e de autorização hierárquica - da nomenclatura indicadora do processo de acompanhamento do trabalho analítico, foi - e é - bastante questionado por boa parte da comunidade psicanalítica.

Tentando passar da ênfase institucional para a predominância do campo psicanalítico, buscou-se terminologia compatível - "analista em controle", "analista controlador" e "análise de controle" (ou "tratamento controlado") -, abrangendo então, em consequência, além dos pretendentes a analistas, também os profissionais já assim considerados.

Tentou-se evitar a ameaça controladora, por denominações que abandonaram o termo original, tais como as pouco diferenciadoras expressões "experiência inter-analítica" e "comunicação oral da experiência analítica".

O surgimento do vocábulo "supervisão", de origem inglesa, acarretou críticas semelhantes às que se fizeram ao "controle", em função da posição de superioridade nele atribuída ao trabalho do supervisor. A estas críticas acrescentou-se a que aponta a ênfase que ele coloca no ver, típico do dispositivo médico, que se contrapõe ao que predominantemente se faz na psicanálise, que é escutar.

Procurar acentuar que se trata de um campo psicanalítico, faz com que surjam mais denominações, como por exemplo, "escuta de controle" (novamente hierarquizante) e o interessante "escuta assistida".

Neste texto preferi manter - apesar da insatisfação que ele carreia - o vocábulo "supervisão", já instituído em meu percurso - maneira cômoda de caracterizar a dificuldade de encontrar nome sintético que represente o que aí se faz -, na tentativa de substituir a polêmica pela descrição.

Há autores que se opõem ao trabalho de supervisão, considerando-o, de forma variada, como indiferente, desnecessário, substituível, embuste, disfarce de busca de análise, perigoso. Outros, entretanto, o apoiam, vendo-o como útil em certas circunstâncias, interessante, necessário ou obrigatório.

Este amplo questionamento, contra ou a favor, esmaecido ou acentuado, implica na aceitação de que ele é procurado, ou seja, implica na sua existência. Havendo demanda espontânea de supervisão, demanda esta que se insere no campo psicanalítico, e portanto em conjuminação com as prerrogativas que o constituem, podemos e devemos questionar suas estruturas e os processos pelos quais ela é exercida, descrevendo-os e investigando-os.

O fato de que, ao longo de sua história - e bem ao contrário da análise - muito poucas tentativas se fizeram de teoriza-la e de explicitar o percurso de constituição para os que pretendem ocupar o lugar de supervisor, talvez aponte para uma postura psicanalítica, justamente livre para escolher como lidar com dificuldades - eventuais ou estruturais - que se atravessam permanentemente no trajeto do analista; fazer supervisão seria uma das possibilidades de escolha livre para a adoção de um percurso.

Isto nos leva a tentar substituir a questão da necessidade da supervisão por sua singularização; o analista em função de supervisando escolhe, se e como quiser, supervisor e ocasião para se supervisionar, e o analista em função de supervisor terá direito ao estilo de trabalho que preferir e puder, estilo este que, entretanto, terá de defender e justificar, como sendo pertencente ao campo psicanalítico.

A começar pelos húngaros, contemporâneos de Freud - Ferenczi à frente -, alguns psicanalistas defendem que se investigue psicanaliticamente o trabalho analítico do analista, exclusivamente em sua análise pessoal, ao contrário dos vienenses, que inventaram o "controle" externo à análise justamente para esta finalidade.

A exclusividade do espaço da análise apresenta, para mim, o risco de poder tornar quase monolítico o seu caráter, na medida em que o que lhe é externo fica praticamente expulso do campo psicanalítico. Além disso, o trabalho de investigação do funcionamento inconsciente do analista é próprio da análise - e não de nenhuma outra forma de inserção no campo da psicanálise -, abrangendo inclusive o que se chamou de "análise da contratransferência" - cuja necessidade vários autores consideram ser suscitada na supervisão. Parece-me mais razoável então, que se esquadrinhe os acontecimentos vividos pelo analista em seu trabalho analítico, externamente ao processo que vive em sua análise pessoal - onde sua trama vivencial é que está em causa -, pois com isso, estará mantida a primazia que o analisando tem neste seu trabalho clínico. Em outras palavras, na análise pessoal do analista, é o sujeito analista que está em questão - qualquer que seja o tema em pauta -, e na supervisão externa à análise é a ocupação de um lugar que se elabora.

A institucionalização da psicanálise trouxe à tona uma supervisão regulamentada, responsável pela vigilância e controle do que é considerado - pela instituição - eficiência analítica. Tutela e tutoria de autoridades observadoras de desempenho, atentas a possíveis desvios de preceitos inflexivelmente estabelecidos, este é o quadro desta supervisão instituída. Obrigatoriedade e pedagogia arrumando a busca de liberdade tão arduamente tentada por Freud e outros, muitos outros. O desejo cede à autorização e à homologação, o supervisando sendo obrigado a se posicionar como intermediário fiscalizado e infantilizado, sempre ameaçado de perda de confiança dos "pais".

Esta tradição gerou a expectativa de uma supervisão aconselhadora, esclarecedora, modeladora, prescribente e, portanto, apriorística. Procura-se e precreve-se a coisa certa, colocando-se especial ênfase em técnicas desinvidualizadoras a serem aprendidas e aplicadas. A investigação e a criação ficam tendo muito pouco espaço neste esquema.

Talvez um embrião desta tendência esteja na figura sem par assumida por Freud no começo da história da psicanálise. Criador e psicanalista-pai da "horda" que gerou, era ele solicitado, em todos os níveis, a exercer o papel de guru interventor.

Os registros dos rascunhos - as famosas minutas - das reuniões das 4as feiras que ele realizava - de início em sua própria residência - com os primeiros adeptos da psicanálise, servem admiravelmente para que se tenha conhecimento do seu trabalho de transmissão. A amplitude de temas e formas de trata-los que aí se apresenta, tem a marca de uma visão alargada de um processo de apoio ao desenvolvimento e elaboração do novo campo que se formava.

Isto também é relevante no que concerne às discussões em torno de atendimentos clínicos, fazendo reconhecer em Freud uma postura que abrange o que se poderia considerar como trabalho de supervisão psicanalítica. Tratava-se - entre outros - de tentar entender as narrativas das experiências vividas, em recorrência à teoria psicanalítica que então se formava, inclusive ali.

Este pequeno recorte freudiano serve de inspiração "a posteriori" para uma forma de supervisionar que se propõe a ter um caráter abrangente, para a transmissão da psicanálise, no que se refere ao trato com situações clínicas compartilhadas.

SUPERVISÃO, SENTIDO e BUSCA

Como dito acima, na medicina o médico inicia o processo de tratamento com suas inquirições, e a psicanálise caracteriza-se pela iniciativa do analisando, que tem liberdade para introduzir suas associações. Seguindo-as, o analista conduz um processo - o processo analítico - , que é, entretanto, pela livre introdução de suas inquietações, instaurado pelo analisando. Delineia-se assim um campo psíquico formado pelos dois, regido por uma trama transferencial de que ambos participam, e que se constitui a partir das idiossincrasias do analisando, embora direcionado pelo trabalho do analista. Este campo transferencial é que vai ser constante e irremediavelmente investigado na supervisão.

Propõe-se aqui que esta investigação seja caracterizada por busca de significações dos acontecimentos do campo transferencial, de forma a estabelecer e restabelecer - sempre provisoriamente - estruturação da teia inconsciente que lhe é própria.

Assim fazendo, não haverá necessidade, nem de exigir atitudes analíticas corretas nem de aconselha-las previamente. Todas as atitudes podem ser encaradas à luz das estruturas que a cada momento se imputam ao campo transferencial, e esta compreensão momentânea é considerada suficiente, dispensando-se qualquer tendência apriorística e preventiva.

Além disso, não há necessidade - o que alguns analistas tentam - de se estabelecer fronteiras acauteladoras entre o que se faz em análise e o trabalho de supervisão:

supervisanda: Disse-lhe então que... Mas, assim que disse, pensei que eu não tinha mesmo jeito, que estava sempre me vingando dos outros, que sua falta tinha me feito sentir rejeitada, que minha mãe...

Esta fala, dita por uma supervisanda, aparentemente daria razão aos autores preocupados com a separação entre análise e supervisão, pois a descrição da situação clínica revela enfaticamente a intromissão de eventos psíquicos do sujeito que analisa. Tratar-se-ia então da famosa contratransferência, que leva muitos supervisores a dizerem para seu supervisando: "leve isto para sua análise", ou "eu não sou seu analista" ?

Mesmo os supervisores que apenas assinalam para o supervisando o que chamam de contratransferência, preocupando-se em não a analisar ali, frequentemente também dizem, ou deixam implícito, que este é um assunto para ser esmiuçado na análise pessoal e não na supervisão. Mostram-se assim esperançosos de poder separar o que é próprio do analista e o que lhe é induzido pelo analisando, para poder evitar que análise e supervisão se confundam; acreditam poder separar gema e clara de uma omelete já pronta.

Dando, porém, continuidade ao exemplo:

supervisor: Lembro que você me disse achar que esta analisanda abandonava as pessoas de maneira disfarçada, despertando assim frustração e raiva. Sua reação e sua auto-reflexão talvez tenham a ver com isso.

supervisanda: É verdade. Tive mesmo vontade de desistir dela. E, falando disso, penso na mãe dela, que sempre a critica, fazendo com que ela se sinta culpada de qualquer manifestação agressiva...

O que se fez foi desviar a auto-referência da supervisanda para o campo transferencial. Na sequência do diálogo, inclusive, elaborou-se a razão pela qual a supervisanda teria trazido a situação com a forma e tom de voz que usara para a narrativa, encontrando-se aí mais indícios da especificidade de seu funcionamento psíquico na relação com sua analisanda. Assunto aparentemente exclusivo da análise da analista-supervisanda, converteu-se em busca de sentido, para manifestações inconscientes tanto da analisanda quanto da analista, mas no âmbito do campo transferencial; campo este composto pelas duas e instaurado pela primeira, mas de que a segunda não somente participa, mas que também arrasta consigo quando a ele vai se referir na supervisão.

Aquilo que foi suscitado na supervisanda, aparentemente a estaria roubando do lugar de analista; ao invés disso, a maneira como foi tratado na supervisão, permite que ela seja considerada mais que nunca ocupando este lugar, já que exatamente este lugar é que lhe propicia reações do tipo das que vivenciou e narrou.

Creio ser infrutífera a tentativa de separar o que é da análise e o que é da supervisão. O que se faz com o que é trazido é que dá a diferença: as mesmas palavras da supervisanda, se ditas em sua análise, certamente teriam tratamento adequado a esta situação. Na supervisão, o tratamento é específico da supervisão, isto é, o interesse é sempre deslocado para o incentivo à investigação "a posteriori" de sentido, por parte da supervisanda, e na referência permanente à trama inconsciente do campo transferencial. Já dizia Freud que não há diferença qualitativa entre amor de transferência e amor "tout court"; como se lida com o amor é que dá a diferença.

Ao contrário do que foi aqui invocado pelo exemplo acima, falar de suas próprias vivências em supervisão, pode ser considerado um tabu para o supervisando, e somente o ato analítico - ou sua evitação -, é que tornaria válido poder falar de dificuldades; e dificuldades pessoais então, nem pensar. Tenta-se assim evitar misturas, mais uma vez surgindo implícita a questão da neutralidade.

Pois justamente as dificuldades pessoais que o supervisando encontra e para as quais sente necessidade de compartilhamento, é que me parecem "matéria-prima preferencial" para o trabalho de supervisão. É principalmente através destes truncamentos, investigados em supervisão, que se pode compreender cada vez melhor o que se passa estruturalmente no campo transferencial; e não creio que eles precisem ser incentivados, pois o próprio trabalho que com eles é feito mostra sua importância e faz com que se os queira trazer à tona.

A continuação do diálogo introduzido como exemplo, levaria à constatação de que o sentido encontrado num momento da supervisão, se transforma, se dilui, modificando-se e revelando-se maleável. Não se quer, neste estilo de trabalho, sentidos encontrados e fixados, já que o que é enfatizado é buscar e não encontrar. Análise e supervisão têm em comum aquilo que é uma das características de um campo psicanalítico: desfazer sentidos fixos para que haja emergência do que não se sabe, levando a um novo modo de pensar.

Esta busca permitiu que a supervisanda continuasse seu trabalho de analista e continuasse a aceitar encarar suas reações como fazendo parte do campo transferencial em que está inserida. Não se trata de tentar separar o que é exclusivamente dela e o que é do campo transferencial, e sim poder considerar tudo como fazendo parte deste campo, simplesmente porque se trata de supervisão e não de sua análise pessoal.

Freud acreditava [acredito] que tudo que é trazido para a análise [supervisão] pelo analisando [supervisando] teria [tem] de ter a ver com o sofrimento [campo transferencial] que ele vem transferir [apresentar] para o analista [supervisor].

Assim vista, a supervisão decididamente se mostra não sendo uma análise, mas seu funcionamento, ao abranger a colocação em questão de saberes estabelecidos, não deixa de ter as características de um trabalho psicanalítico.

Esta proposta não impede haver ecletismo no trabalho de supervisão, pois questionamentos teóricos e culturais - ou outros -, se associados forem à investigação direta sobre o que se passa na sessão analítica, têm contribuição importante a prestar.

As transferências que ocorrem na relação de supervisão, criticadas por muitos autores - que nelas se apoiam como indicadoras de impropriedade do trabalho de supervisão -, deixam de preocupar, na medida em que, como tudo que ali se passa, são trabalhadas como marcas do campo transferencial que o supervisando livremente instaura ao introduzir sua narrativa.

Busca ou prolongamento de análise, disfarçados por demanda de supervisão, também não necessariamente transtornam, pelas mesmas razões. Tal como na análise, na supervisão o sujeito analisando é sempre referência única, aqui através do campo transferencial que seu analista instaura.

Se as auto-referências porventura suscitadas na supervisão, forem tratadas como manifestações inconscientes do âmbito do campo transferencial e não do sujeito supervisando, elas não se confundem. Estas auto-referências indicariam que o analista está amplamente envolvido com seu trabalho analítico, mais que nunca ocupando seu lugar.

É justa a preocupação com evitar que se faça uma "supervisão selvagem" - preocupação que a tentativa de separar análise e supervisão parece indicar -, mas a cautela fiscalizatória pode ser substituída por uma concepção de trabalho que dificulte a selvageria. A supervisão se diferencia da análise por suas positividades e não por negatividades do tipo supervisão não é análise.

E, tal como na análise - onde analisando e analista assim permanecem enquanto suportarem -, na supervisão, supervisando e supervisor mantêm-se ocupando estes lugares enquanto os suportarem.

Tentando comentar psicanaliticamente esta busca de sentido proposta, sem o quê ela poderia caracterizar uma postura hermenêutica para o trabalho de supervisão, vale a pena recordar que, tanto a interpretação quanto a construção referem-se à busca de inscrição - para o trabalho da pulsão - no campo simbólico, a primeira de algo que já aí se inscrevera e a segunda de algo que jamais o fez. Na interpretação tenta-se encontrar significações perdidas pela ação poderosa do recalque; na construção persegue-se preencher lacunas sempre existentes na história do sujeito, e cuja presença é assinalada pela compulsão à repetição. Ambas, portanto, buscam sentido. E o buscam pela imposição que a isto leva o destino da pulsão, força exigente e transbordante que obriga à inscrição no mundo da palavra. É a possibilidade de crescimento de investimento neste mundo simbólico, que pode realizar as transformações que a psicanálise tenta através de seus instrumentos de trabalho.

Os significados procurados vão permitindo que isto se passe, desde que não sejam considerados fixos; busca-se a busca e não o achado. É o movimento, a pulsação, que se tenta valorizar.

CONSEQÜÊNCIAS E FUNÇÕES

Vários autores alertam para perigos ou recomendam determinadas atitudes em relação à supervisão. A forma de trabalhar aqui anunciada traz algumas conseqüências para lidar com as diversas situações assim apontadas:

- Quaisquer decisões sobre as características da supervisão - início, escolhas, horários, registro, final, etc. - são de responsabilidade do par supervisando-supervisor, nenhuma delas sendo tomada previamente ao encontro.

- Todos os supervisandos são considerados analistas, independente de idade ou experiência.

- Não há temas privilegiados, a não ser por terem sido trazidos livremente pelo supervisando.

- A única ordem estabelecida é a do desejo de estar fazendo supervisão psicanalítica de uma determinada forma.

- A supervisão é feita para todos: analisando, supervisando, supervisor e psicanálise.

- Ao invés de tentar aliviar as ansiedades do supervisando, o que se faz é continuar no processo de busca encetado.

- Por se inserir num campo psicanalítico, este tipo de supervisão também caracteriza um processo de transmissão da psicanálise.

- O supervisor - tal como o analista - é modelo espontâneo de identificação; qualquer imposição de modelo é tratada como emergente do campo transferencial investigado.

- As tramas transferenciais porventura captadas na relação de supervisão, também são encaradas como emergentes do campo transferencial.

- Mesmo tendo especificidade temática, o trabalho de supervisão obedece ao método da psicanálise - livre associação -, não sendo portanto de caráter pedagógico, nem caracterizado por sugestões ou regras apriorísticas.

- O campo transferencial constituído por analisando e analista, é estruturador do que se passa na supervisão, pois o supervisando o arrasta para lá - na medida em que livremente fala a respeito - e o supervisor é por ele capturado - já que é para ele que volta seus esforços de busca de significações.

- Tanto a busca - e elaboração - de significados para os eventos relacionados ao campo transferencial, quanto a permanência da atitude de busca, fazem parte integrante - sem se conflitarem -, do processo de supervisão, não havendo portanto necessidade de divisão psíquica do sujeito supervisando entre deduções feitas sobre o inconsciente e sua manutenção na posição de "ignorância" propulsora de desejo de saber. Nada se tenta constatar ou corroborar, nem verificar legitimidades ou propriedades de procedimentos, a não ser em termos da provisoriedade lampejante que se atribui aos significados em elaboração; assim, uma postura de manutenção de enigmas se coloca, pela busca sempre insatisfeita de achados.

Quanto às funções atribuídas ao trabalho de supervisão, são muitas as possibilidades registradas:

- Alguns autores tentam evidenciar o tipo de funcionamento psíquico do supervisando, para lidar com dificuldades que estariam prejudicando sua atividade analítica, numa espécie de continuidade de análise pessoal; aqui se pondera que tudo que aparece do supervisando como sujeito, é encarado - porque assim se quer - em termos de referência à trama transferencial por ele trazida para a supervisão. Isto tem o sentido de incentivar atitude de busca, não cabendo portanto estimular ênfase em sua singularidade de sujeito, o que certamente vai querer fazer em sua análise pessoal. Portanto, como em quaisquer outros eventos associados à relação analítica, as feridas narcísicas sofridas pelo supervisando em seu trabalho, são tratadas, na supervisão, em termos desta associação, indicando igualmente tramas inconscientes do campo transferencial que constitui com seu analisando.

- A função de participar de um processo de transmissão de psicanálise é originária na história da supervisão - na direção da construção de um analista -, sem entretanto se superpor à atividade analítica; os riscos de fracasso neste percurso são inerentes a qualquer percurso, amenizando-se-os exclusivamente pelo esmero na efetividade psicanalítica do trabalho efetuado.

- Supervisando tomando supervisor como continente para suas aflições analíticas não implica necessariamente que este tome para si esta tarefa como função; a continuidade da postura investigativa talvez permita, por si só, o desvio das energias e ansiedades para o campo transferencial.

- Uma das funções mais apontadas para a supervisão, seria a de descobrir

- E, às vezes, até elaborar - obstáculos internos ao analista

- "Contratransferências" - quanto a seu trabalho analítico; o processo de busca de sentido referido ao campo transferencial - noção que aqui substitui a de contratransferência -, propicia sua desnecessidade.

- A tentativa de estipular, como mais uma função da supervisão, a retificação de erros porventura feitos pelo analista em seu trabalho, não cabe neste contexto, já que aqui não se considera haver erros para qualquer atitude analítica do analista; tudo é visto como fruto do funcionamento inconsciente de quem participa de um sistema que, ao ser investigado, revela justificativas estruturais para suas atitudes - quaisquer que sejam, inclusive as que por ele forem nomeadas de erros.

- A questão de ter ou não, o supervisando, aptidão para ser considerado analista, pode levar supervisores a se acharem investidos da função de julgamento. O método de trabalho aqui exposto permite que se faça engajamento crescente - ou que não se suporte, algumas vezes levando à desistência - para a ocupação deste lugar, sem que o supervisor precise avocar a si a tarefa de decidir sobre a competência do supervisando.

- A supervisão, como endereço introdutório para inserção no campo social da psicanálise, acaba por ter como funções testemunhar uma prática e reconhece-la como psicanalítica. No tipo de supervisão que aqui se descreve, tanto uma quanto a outra lhe são inerentes, pois desde sempre o trabalho do supervisando é considerado psicanalítico, já que é psicanalíticamente que se lida com tudo que acontece, sem erros nem julgamentos. A instância simbólica com poder de propiciar reconhecimento, seria o próprio método - se suportado -, que o faria em forma de reconhecimento de si mesmo.

- A preocupação com a possibilidade da supervisão servir para estabelecer uma simetria degradadadora, razão da posição de sujeito suposto saber do analista, não cabe neste tipo de trabalho. Aqui, a supervisão não se avoca a função de preservar a desubjetivação do analista - ou de "corrigir seu desejo" -, lidando com toda manifestação de subjetividade da mesma maneira que trata tudo que ocorre, ou seja, como referencial da trama do campo transferencial em investigação.

- Não se confirma, aqui, a suspeita de que se possa atribuir à supervisão uma função sugestionadora, eticamente perigosa, revelada pelo poder que tem o supervisor de eleger um discurso de sua escolha; são respeitadas as características do campo psicanalítico, principalmente a "regra fundamental", em termos de - chamemos assim - uma ética da busca.

- Aponta-se para a supervisão a função de ajudar a esvaziar medos, que o supervisando possa ter, de ocupar seu lugar de analista, medos que fazem com que atribua ao supervisor a característica de um mestre a ser seguido. No estilo em descrição, esta ajuda se realiza, sem entretanto transforma-la em tarefa. O supervisor, pelo próprio método de trabalho - e não porque se preocupe com isso -, não se posiciona como preceptor, mantendo-se, ao contrário, em sua postura investigativa, o que, espera-se, ajuda a diminuir o medo de ser analista.

- Embora o supervisor, como qualquer outro, esteja sujeito a projeções, em seu trabalho, de vivências psíquicas, suscitadas pela posição que ocupa, nem por isto é função sua vigiar-se para que isto não ocorra. O método aqui anunciado, permite que não haja necessidade disto, pois, inclusive para o discurso do supervisor, a referência é sempre o campo transferencial de analisando e analista-supervisando. Por outro lado, tal como o supervisando, ele também pode tratar dos impactos que o atingem em seu trabalho, em uma análise pessoal, por exemplo.

A supervisão, portanto, pode ter diversas funções: transmissão da psicanálise, ampliação da sensibilidade psicanalítica, construção de analista, reconhecimento público para exercer as funções de analista, reconhecimento teórico de atitudes clínicas, discussões teóricas, etc. Para este estilo de processo de supervisão, seu objetivo imediato é sempre abrir caminho para o aflorar do desejo, para o incentivo à pulsação, sem que, entretanto, o supervisor se coloque num lugar de modelo a ser mimetizado, nem de forma a que se exponha como mestre que comanda os acertos a serem obtidos por sua indicação.

Aqui não se propõe, para o trabalho de supervisão, nenhuma nova teoria, nenhuma lei que a organize, nenhum rito de passagem que a legitime. O que aqui se indica, como mais uma possibilidade de trabalho psicanalítico, é um processo ininterrupto de busca. Acredita-se que ele possa ajudar a trilhar os caminhos na direção de um tratamento, que, em termos de uma espécie de ética da pulsação, traga consequências em acordo com o campo psicanalítico.

Rio de Janeiro, 27 de março de 1995.


ARY BAND - Psicólogo, Psicanalista, Doutor em Psicologia,
Professor da Pontifícia Universidade Católica - PUC, Rio de Janeiro.

 
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