Bioexpansão: uma pedagogia do movimento e da expressão Ser, Criar, Interagir
 
Lucia Helena Pena Pereira
 

SINOPSE

O trabalho, que vem sendo desenvolvido em nível teórico e prático, busca aprofundar atividades de expressão sonora e corporal, abordando questões fundamentais quanto à importância de considerar cognição, afetividade e motricidade como instâncias indissociáveis no processo educacional. Sem perder de vista essa totalidade, o corpo é tomado em sua anatomia política e como veículo de expressão criativa e sensível.

1. BIOEXPANSÃO - UMA INTERVENÇÃO EDUCATIVA EMERGIDA DA PRÁTICA

A Bioexpansão surgiu após a experiência da autora desenvolvida durante a pesquisa de Mestrado. Esta era voltada para o professor de ensino fundamental, tendo como finalidade mostrar a importância da música, da expressão corporal e da literatura infantil no processo ensino-aprendizagem, por permitirem, principalmente, o desenvolvimento da expressão criativa, do senso crítico e de um melhor relacionamento professor/aluno, que facilita esse processo. Após os inúmeros cursos e oficinas em que foram desenvolvidas atividades e trabalhado o embasamento teórico com educadores de escolas públicas e particulares da cidade do Rio de Janeiro e localidades vizinhas, além de profissionais de áreas afins (psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais), através da pesquisa realizada junto àqueles que participaram desses cursos e levaram para suas salas de aula ou consultórios a experiência sugerida, pôde ser constatado que os resultados foram além do esperado, tendo atingido, especialmente, os próprios participantes do trabalho.

A partir daí, houve aprofundamento do estudo, sendo ampliada a clientela alvo e incorporados novos recursos. Em etapa posterior, o trabalho foi desenvolvido com grupos da terceira idade na cidade do Rio de Janeiro e, atualmente, se desenvolve com dois grupos que chegam a mais de cinqüenta pessoas em São João del-Rei, no Programa de Extensão FUNREI com a Terceira Idade da Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei.

Devido à repercussão da atividade, o trabalho tem sido desenvolvido em forma de oficinas e minicursos, oferecidos a diversos tipos de clientela. Em março deste ano, foi ministrado um minicurso para a Pós-graduação em Alfabetização e iniciou-se uma disciplina optativa aberta a vários cursos.

2. BIOEXPANSÃO - UMA ALTERNATIVA PEDAGÓGICA DE TRANSFORMAÇÃO DO CORPO INDIVIDUAL E SOCIAL

Vivem-se, hoje, momentos de crise, de transformação, de tensão. Tais momentos fazem parte do processo histórico-social que, inevitavelmente, repercute no indivíduo. É necessário atentar para o próprio equilíbrio psicofísico, buscar formas de viver melhor e de cuidar de si, desenvolver condições internas que favoreçam melhor apreensão da realidade externa. É necessário manter conecção com a vida e, não, agir como se fosse usado o piloto automático, ou seja, viver rotineiramente, sem realmente experimentar a vida, sem ter clareza de si e do entorno, daquilo de que efetivamente se necessita, de como agir em consonância com esse modo de ser e de estar no mundo, enfim, de estar confortável no próprio corpo. Como observa Konder (1996).

Mesmo que as pressões externas sejam, com freqüência, quase irresistíveis, o sujeito humano que se torna adulto e toma consciência da sua subjetividade é alguém que toma decisões, que faz escolhas. E é o elenco das respostas que vai dando às questões que a vida lhe apresenta que determina a sua identidade, quer dizer, o seu modo peculiar de se inserir no movimento do mundo (p. 54).

As situações vividas no cotidiano vão deixando marcas no corpo, refletindo-se em gestos, posturas e movimentos, atuando sobre a forma de ser, sobre a forma de atuar no dia-a-dia. Não só o corpo é afetado pelas alterações psicológicas, pelas emoções, como também suas condições interferem no processo intelectual, emocional e nos reflexos. É uma via de mão dupla, e, muitas vezes, o desequilíbrio de uma das instâncias prejudica a manifestação da outra (Berge, 1988; Fonseca, 1988; Lapierre e Auconturier, 1984; Vishnivetz, 1995). Se, por exemplo, vivenciando-se uma crise, a ansiedade se instala, o corpo se enrijece, há uma contração do diafragma, a respiração se torna superficial, o coração se acelera, os músculos, especialmente em algumas áreas de choque como pescoço e ombros, se contraem causando dor e desconforto, não apenas locais mas generalizados (dores de cabeça, formigamentos, dormência, náuseas,...). Lembrando mais uma vez Konder (1996), "desunidos, inseguros, solitários e perplexos, os seres humanos do nosso tempo precisam aprender a lidar com as dificuldades que se multiplicam à sua volta; cabe-lhes agir com prudência, mover-se com infinitos cuidados" (p. 56). Complementando, pode-se dizer que é necessário um processo de apropriação de si mesmo.

Os exercícios e vivências desenvolvidos na Bioexpansão promovem um maior contato consigo mesmo, uma maior percepção de si, que permitem a compreensão, o detectar que a forma de agir, as expectativas, emoções e sentimentos se imprimem em alguma parte do corpo. Aos poucos, pode-se perceber alterações corporais, sensações que vão surgindo e, detectando-se as dificuldades, pode-se também detectar recursos possíveis para liberar tensões, conhecer e trabalhar limites. Ou seja, pode-se investir no apropriar-se de si.

SER cada vez se torna mais difícil se não nos responsabilizamos pela própria construção, porque as couraças que a vida obriga a criar como autodefesa são muitas. As couraças neuromusculares ou de caráter, marcas que vão-se imprimindo no corpo, foram assim chamadas por Reich (1987), por representarem defesas criadas pelo ser humano para suportar os golpes recebidos ao longo da vida, desde a infância. As emoções fortemente sentidas e mal trabalhadas geram tensões que se registram em alguma parte do corpo, bloqueando o curso normal das emoções e afetando a expressão emocional e o processo criativo. O medo e a ansiedade são companheiros permanentes, e não se sabe ouvir o que o corpo diz, o que o coração pede. A visão fragmentada de mundo, que caracteriza a sociedade ocidental, separa corpo e mente, intuição e razão, espírito e matéria. Desenvolve-se o conhecimento lógico-matemático e lingüístico, porém, não se desenvolve a capacidade de autoconhecimento, de percepção, de buscar o rico potencial que existe em cada um.

Vive-se na prisão criada por preconceitos, certos e errados, bons e maus, enfim, por rótulos, rótulos e mais rótulos. E assim, com etiquetas, restrições, castrações proíbe-se o encontro fantástico com a capacidade afetiva, com a sensibilidade que, tão maltratada e acorrentada, se insurge em uma suscetibilidade destrutiva e alienante.

A escola, como outras instituições sociais, tem sido um espaço disciplinador onde movimentos e gestos são reprimidos para produzir submissão. Foucault (1988) analisa o controle do corpo em sua caminhada histórica, demonstrando que a sujeição de suas forças impõe uma relação de docilidade-utilidade. Quanto mais obediente se torna o corpo, mais útil, mais controlável. Com a "política das coerções", que atua sobre o corpo, manipulando gestos e comportamentos, forma-se uma "anatomia política", que também, como tantas outras formas de controle e repressão, é uma "mecânica do poder".

É necessário que se entenda a importância da atitude corporal para a reprodução da ordem social assim como para a autocompreensão e o desenvolvimento mais equilibrado do ser humano. Optar pela submissão ou pela busca de novos caminhos não é tão simples em meio a tantas pressões e desconhecimento; no entanto, cabe àqueles envolvidos com a Educação investigar e aprofundar a questão (Pereira, 1992).

CRIAR é fundamental. Criar saídas, criar meios de enfrentar os desafios a cada dia, criar condições de viver com mais equilíbrio. Se não existem condições de mudar a vida circundante, cada um pode trabalhar a vida em si mesmo. Criar recursos para superar as dificuldades, formas de usufruir os recursos pessoais e os que se encontram disponíveis na Natureza - o sol, a água, o ar, a terra. Criar formas de quebrar a rotina, de abrir portas e entrar num mundo diferente através de uma nova postura frente à vida. Criar passos novos de uma dança interna, deixar que o movimento externo e interno faça com que as amarras se rompam gradativamente. Como observa Capra (1982), investir nas pessoas, em seu poder de encontrar novas formas de vida, de encontrar novos recursos que garantam a sobrevivência do planeta é imprescindível, pois seu poder criador é imenso.

O ato criador, segundo Ostrower (1977), é sempre um ato de integração. Não são apenas pensamentos nem emoções. Todo conhecimento do indivíduo, suas dúvidas, conjecturas e impulsos inconscientes se fazem presentes nos processos criativos. Somente quando visto em sua globalidade, incluindo a intuição, o ato criador adquire seu significado pleno.

A intuição vem a ser dos mais importantes modos cognitivos do homem. Ao contrário do instinto, permite-lhe lidar com situações novas e inesperadas. Permite que, instantaneamente, visualize e internalize a ocorrência de fenômenos, julgue e compreenda algo a seu respeito. Permite-lhe agir espontaneamente (...)

A intuição está na base dos processos de criação (p. 56).

INTERAGIR é indispensável. O homem é um ser gregário, vive em grupo, precisa trabalhar essas relações, lidar com os limites, tanto com os próprios limites quanto com os dos outros, a fim de criar relacionamentos mais harmoniosos, gratificantes e, por que não dizer, confortáveis. É essencial para o ser humano estar em contato com os que o cercam, abrir-se para o abraço, para o encontro, usufruindo a troca de energia que os encontros verdadeiros propiciam. É preciso trabalhar as dificuldades do contato físico do carinho, do olho no olho, do ouvido atento, da mão que apóia, do sorriso aberto.

O homem não é só um ser social mas, também, indivíduo. O social e o individual são dois aspectos da realidade que não se opõem e não existem separadamente. Ao contrário, coexistem, interpenetram-se, interagem. Julgar um ou outro aspecto separadamente é considerar apenas um dos lados da questão.

A construção do indivíduo e do ser social mais lúcido exige a busca da apropriação de si mesmo, ou seja, a busca de ser, de criar, de interagir. Exige a consciência da responsabilidade de expandir os próprios limites, da apropriação de um melhor conhecimento de si mesmo, de um maior cuidar-se, evitando doenças causadas pelo desconhecimento de si e por tensões que podem ser aliviadas e trabalhadas através de recursos simples. Apropriação legítima que não pode ser roubada ou perdida.


3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A BIOEXPANSÃO tem por objetivos: estimular o processo de autoconhecimento, auto-estima, auto-aperfeiçoamento e expressão criativa; desenvolver técnicas que propiciem melhores condições de vivenciar situações estressantes; promover maior equilíbrio psicofísico e bem-estar através de um processo consciente de auto-educação; facilitar a expansão das próprias possibilidades.

Para atingir tais objetivos, são desenvolvidas vivências psicomotoras e ludopedagógicas, utilizadas técnicas e dinâmicas grupais de sensibilização, expressão sonora e rítmica, energização, respiração, relaxamento e meditação ativa. Enfim, um conjunto de práticas que facilitam a captação de energia vital e sua melhor circulação, liberação de tensões e o contato consigo e com o outro. Essas práticas, que atuam a nível físico, emocional e mental, possibilitam o prazer de perceber o corpo em movimento expressivo e pessoal. A música tem função primordial, facilita a entrega aos exercícios, estimula o movimento, a distensão muscular e o relaxamento.

Não existe o sentido de fazer certo ou errado, de fazer "melhor que o outro", portanto, não há modelos ou competitividade. É uma expressão própria, não mecânica, de dentro para fora.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando se estabelece a harmonia em si, entra-se em harmonia com o fluxo da vida. É um processo natural que a vida flua livremente quando existe maior percepção do deixar fluir. Soluções e ganhos surgem. As relações se tornam mais equilibradas. O poder de expressão e criação se expande. A percepção do movimento estimula a autoconfiança e a flexibilidade, o que proporciona, como comprovam estudos recentes, como de Vishnivetz (1995) e Cavalcanti (1992), maior capacidade de lidar com situações novas e solucionar problemas. A liberação dos movimentos corporais estimula o processo intelectual e a liberação da capacidade criativa.

Os resultados obtidos, inclusive no terceiro grau e na educação não formal, trazem a certeza de que os estudos devem prosseguir, pois as atividades de Bioexpansão propiciam melhor relação interpessoal, inclusive professor-aluno, maior facilidade de expressão criativa, de vivência prazerosa do processo ensino-aprendizagem, estimulando o processo de mudança de postura frente às situações de sala de aula e frente à própria vida.

Embora todo processo de mudança encerre dificuldades, ele exige que os primeiros passos sejam dados. A Bioexpansão procura mostrar possibilidades para aqueles que buscam novos caminhos para o desenvolvimento de uma prática pedagógica consciente e viável.


Referências Bibliográficas:

BERGE, Yvonne. Viver o seu corpo. Por uma pedagogia do movimento. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.

CAVALCANTI, Matilde. O corpo essencial: trabalho corporal integrado para o desenvolvimento de uma nova consciência. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992.

FONSECA, Vítor da. Psicomotricidade. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1988. KONDER, Leandro. A poesia de Brecht e a história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

LAPIERRE, A., AUCONTOURIER, B. Fantasmas corporais e práticas psicomotoras. São Paulo: Manole, 1984.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Rio de Janeiro: Imago, 1977. PEREIRA, Lucia Helena Pena. Decodificação crítica e expressão criativa: alegria e seriedade no cotidiano da sala de aula. Rio de Janeiro: UERJ, 1992 (Dissertação de Mestrado em Educação). REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

VISHNIVETZ, Berta. Eutonia. Educação do corpo para o ser. São Paulo: Summus, 1995.


LUCIA HELENA PENA PEREIRA, Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Professora de Didática e Prática de Ensino da Fundação de Ensino Superior de São João del - Rei / FUNREI

 
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