|
Para começar...
Este texto foi, inicialmente, escrito para ser apresentado no XVI EPENN
- Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste, em junho de 2003.
Enquanto fazia as últimas revisões, fiquei imaginando que,
com algumas modificações, seria um texto apropriado para
a Artes de Cura na medida em que uma prática educativa lúdica
pode ser curativa e, principalmente, prevenir futuras neuroses, atingindo
o que considero o verdadeiro sentido da educação: tornar
melhor a qualidade de vida do ser humano.
Como professora de Didática e Prática de Ensino, tenho vivenciado
o desafio de adequar minha prática pedagógica a uma visão
transformadora e crítica, por acreditar que este é o caminho
e para não sofrer o risco de merecer o ditado popular: "faça
o que eu digo, mas não faça o que eu faço",
ou seja, de apresentar um discurso dissociado da ação. Além
disso, tenho acompanhado muito de perto as dificuldades não só
de meus alunos e alunas, quando trocamos experiências em sala de
aula ou os acompanho em seus estágios, como também de colegas
de profissão, de quebrarem o padrão que vivenciaram ao longo
de sua formação acadêmica e a angústia de não
saberem como fazê-lo.
Considero que essas dificuldades, em grande parte, estão relacionadas
à contenção de sua capacidade de se expressarem em
sua singularidade, ao não desenvolvimento da auto-expressão.
No nosso processo de educação formal, nos habituamos, de
modo geral, à transmissão de conceitos, ao recebimento de
técnicas de ensino como receitas de bolo, usadas e aprovadas, não
se considerando que cada sala de aula é um espaço peculiar,
cada grupo de alunos, um grupo diferente; e que cada professor possui
uma experiência de vida particular, habilidades diferentes, características
próprias, crenças e valores que serão levados para
sua sala de aula. Ter essa consciência é fundamental, principalmente,
para nós que estamos envolvidos com a formação de
professores, para que estimulemos os futuros educadores, a terem maior
clareza de que o conhecimento isolado não se faz significativo.
Ele se torna coerente através da apropriação que
dele fazemos, da ação desenvolvida para trabalhá-lo,
das relações tecidas e apreensões que ocorrem a partir
de nossa visão de mundo, de nossa concepção de educação,
da nossa corporeidade, afetividade e compromisso com nosso fazer.
De que adianta oferecer apenas teorias, se estas são efêmeras
e se com elas não podemos tornar a vida mais significativa? Como
educadores, poderemos sugerir caminhos, mas caberá a cada um trilhá-los,
apoiando-se nas próprias pernas. E os caminhos nunca são
os mesmos, até porque cada olhar percebe paisagens diferentes.
Assim considerando, cabe-nos acolher e estimular nossos educandos, especialmente
os futuros professores, para que possam cada vez mais manifestar sua forma
de ser, sua singularidade, adquirindo maior espontaneidade e segurança.
Essas reflexões me estimularam a buscar novas possibilidades de
ação que, por sua vez, apontaram que era hora de aprofundar
estudos quanto às práticas que levo para a sala de aula.
Encontrei, nas teorias de Wilhelm Reich e de alguns de seus seguidores,
Alexander Lowen, Stanley Keleman e David Boadella, e nas pesquisas sobre
ludicidade, a fundamentação necessária para melhor
compreender os resultados que obtinha em minha sala de aula e compartilhá-los
com meus alunos, professores em formação.
Minha intenção, neste texto, é apresentar algumas
questões que venho desenvolvendo em minha pesquisa de Doutorado,
que apontam as atividades lúdicas como um recurso valioso para
a educação de crianças, jovens e adultos e para o
estímulo à auto-expressão, tendo por base as teorias
psicossomáticas dos autores citados e alguns estudos sobre ludicidade,
o que constitui uma nova possibilidade de pensar a Educação,
um conjunto de saberes e vivências que denominei Bioexpressão1,
meu objeto de estudo.
Mas o que é ludicidade?
Há muitas conceituações para ludicidade, algumas
contradições e até confusões. Não é
meu objetivo discuti-las aqui, e sim apresentar uma possibilidade de compreender
o lúdico. Para traçar os contornos de como o considero,
aproprio-me da conceituação de alguns estudiosos desse tema.
O primeiro aspecto a destacar é que as atividades lúdicas
não se restringem ao jogo e à brincadeira, mas incluem atividades
que possibilitam momentos de prazer, entrega e integração
dos envolvidos. Segundo Luckesi2, são aquelas que propiciam uma
experiência de plenitude, em que nos envolvemos por inteiro, estando
flexíveis e saudáveis. Para Santin3, são ações
vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas
pela fruição, povoadas pela fantasia, pela imaginação
e pelos sonhos que se articulam como teias urdidas com materiais simbólicos.
Assim elas não são encontradas nos prazeres estereotipados,
no que é dado pronto, pois, estes não possuem a marca da
singularidade do sujeito que as vivencia.
Na atividade lúdica, o que importa não é apenas o
produto da atividade, o que dela resulta, mas a própria ação,
o momento vivido. Possibilita a quem a vivencia, momentos de encontro
consigo e com o outro, momentos de fantasia e de realidade, de ressignificação
e percepção, momentos de autoconhecimento e conhecimento
do outro, de cuidar de si e olhar para o outro, momentos de vida, de expressividade.
Uma aula com características lúdicas não precisa
ter jogos ou brinquedos. O que traz ludicidade para a sala de aula é
muito mais uma "atitude" lúdica do educador e dos educandos.
Assumir essa postura implica sensibilidade, envolvimento, uma mudança
interna, e não apenas externa, implica não somente uma mudança
cognitiva, mas, principalmente, uma mudança afetiva. A ludicidade
exige uma predisposição interna, o que não se adquire
apenas com a aquisição de conceitos, de conhecimentos, embora
estes sejam muito importantes. Uma fundamentação teórica
consistente dá o suporte necessário ao professor para o
entendimento dos porquês de seu trabalho. Trata-se de ir um pouco
mais longe ou, talvez melhor dizendo, um pouco mais fundo. Trata-se de
formar novas atitudes, daí a necessidade de que os professores
estejam envolvidos com o processo de formação de seus educandos.
Isso não é tão simples, pois, implica romper com
um modelo, com um padrão já instituído, já
internalizado.
A escola tradicional, centrada na transmissão de conteúdos,
não comporta um modelo lúdico. Por isso é tão
freqüente ouvirmos falas que apóiam e enaltecem a importância
do lúdico estar presente na sala de aula, e queixas dos futuros
educadores, como também daqueles que já se encontram exercendo
o magistério, de que se fala da importância da ludicidade,
se discutem conceitos de ludicidade, mas não se vivenciam atividades
lúdicas. Fala-se, mas não se faz. De fato não é
tão simples uma transformação mais radical pelas
próprias experiências que o professor tem ao longo de sua
formação acadêmica.
Como bem observa Tânia Fortuna, em uma sala de aula ludicamente
inspirada,
convive-se com a aleatoriedade, com o imponderável; o professor
renuncia à centralização, à onisciência
e ao controle onipotente e reconhece a importância de que o aluno
tenha uma postura ativa nas situações de ensino, sendo sujeito
de sua aprendizagem; a espontaneidade e a criatividade são constantemente
estimuladas4.
Podemos observar que essas atitudes, de um modo geral, não são,
de fato, estimuladas na escola. Como afirmei em um texto recente, "as
atividades lúdicas permitem que o indivíduo vivencie sua
inteireza e sua autonomia em um tempo-espaço próprio, particular.
Esse momento de inteireza e encontro consigo mesmo gera possibilidades
de autoconhecimento e de maior consciência de si"5.
Considero como lúdicas as atividades que propiciem a vivência
plena do aqui-agora, integrando a ação, o pensamento e o
sentimento. Tais atividades podem ser uma brincadeira, um jogo ou qualquer
outra atividade que possibilite instaurar um estado de inteireza: uma
dinâmica de integração grupal ou de sensibilização,
um trabalho de recorte e colagem, uma das muitas expressões dos
jogos dramáticos, exercícios de relaxamento e respiração,
uma ciranda, movimentos expressivos, atividades rítmicas, entre
outras tantas possibilidades. Mais importante, porém, do que o
tipo de atividade é a forma como é orientada e como é
experienciada, e o porquê de estar sendo realizada. Ela deve permitir
que cada um possa se expressar livre e solidariamente, que as couraças,
bloqueios que se estabelecem, possam ser flexibilizadas e que haja um
maior fluxo de energia.
A espontaneidade do indivíduo, sua auto-expressão e criatividade
são bloqueadas quando ocorre a contenção da bioenergia,
isto é, da energia vital que circula em nosso organismo através
da corrente sanguínea e de outros fluidos energéticos como
a linfa e os fluidos intracelulares. Mas este fluxo energético
pode ser restabelecido através da mobilização da
energia estagnada. Para que este processo seja entendido, trago algumas
questões básicas da teoria reicheana, que nos permitem a
compreensão dos bloqueios e desbloqueios da energia, que constituem
a base para uma prática educativa lúdica.
Corpo e psique
como totalidade
Reich, psiquiatra austríaco, trouxe, através de seus estudos
e pesquisas clínicas, contribuições importantes não
só para a psiquiatria e a psicologia, mas também para outras
áreas de conhecimento como a educação, a sociologia
e a biologia. Um dos aspectos significativos da teoria reicheana foi a
formulação do conceito de caráter como o modo de
ser do indivíduo, que vai sendo formado ao longo de suas experiências
de vida; é sua maneira de agir e reagir, de se relacionar com o
outro e com as várias situações com que se confronta.
O caráter, para Reich, não é algo inato, mas sim
uma estrutura resultante de situações vividas, de um processo
de construção histórica.
Para Reich, o caráter pode ser genital ou neurótico. O primeiro
caracteriza um comportamento auto-regulado e produtivo, a capacidade de
resolver conflitos de uma forma mais fluida, sem couraças cronificadas.
O caráter neurótico indica uma estrutura de caráter
marcada pela cronificação, pela rigidez, por mecanismos
repetitivos de ação e proteção automáticos,
que inibem as possibilidades de mobilidade do indivíduo, portanto,
inibem uma expressão mais espontânea. As várias situações
com que nos confrontamos ao longo da vida produzem o caráter, que
vai expressar-se através do ego, que nada mais é que "o
sujeito em ação". O ego só existe enquanto o
sujeito age, selecionando e controlando sua forma de ação,
mesmo que de forma inconsciente. É este sujeito que é mais
fluido ou mais estático (congelado) em uma determinada estrutura.
O congelamento é expresso pelo caráter neurótico;
a fluidez pelo caráter genital.
O congelamento se dá pela estagnação da bioenergia
que deixa de fluir livremente pelo corpo, criando couraças. As
couraças de caráter são defesas criadas pelo ego,
parte do indivíduo com a qual administra sua relação
com o mundo. Procuremos entender como essas couraças se formam.
Os nossos impulsos naturais se expandem e expressam, em uma idade mais
tenra, como uma manifestação psicobiológica básica
e natural da vida. Quando, entretanto, são proibidos de serem expressos
(por proibições, atitudes de desamor, de desrespeito, atitudes
autoritárias, enfim, por situações vividas como ameaçadoras),
os impulsos são reprimidos pelo ego para que a integridade do indivíduo
seja preservada. Esse mecanismo é, a princípio, salutar
e natural. Mas se o ego é levado a se defender consecutivamente
de agressões externas, não permitindo que os impulsos naturais
se mostrem, as defesas acabam se tornando automáticas e inconscientes,
ou seja, se manifestam mesmo não havendo mais a situação
externa que representava ameaça. Pode-se dar o exemplo de uma menina
que nunca pôde negar-se a fazer o que lhe era exigido, mesmo não
gostando. Para evitar surras, reprimendas e castigos acabou aprendendo
a ceder. Mulher feita continua incapaz de dizer não ao que lhe
é pedido, mesmo as ameaças não existindo mais. Criou-se
um padrão automático de resposta.
Podemos dizer que as estases são cronificações de
soluções que foram bem sucedidas para resolver problemas
específicos em um determinado momento, mas que, como formas de
proteção não mais necessárias e que se tornaram
cronificadas, impedem que se criem novas soluções, que se
vislumbrem novas possibilidades, que haja maior flexibilidade.
Com a continuidade de suas pesquisas, Reich pôde verificar que às
couraças de caráter correspondem as couraças musculares,
havendo uma identidade funcional, ou seja, as atitudes de caráter
e as atitudes musculares têm a mesma função no mecanismo
psíquico: "O espasmo da musculatura é o lado somático
do processo de repressão, e a base de sua contínua preservação"6.
Pesquisas em laboratório, paralelamente ao seu trabalho clínico,
fizeram Reich observar, de forma bastante objetiva, o funcionamento da
energia no organismo. Constata que a emoção é basicamente
um movimento plasmático, levando-se em conta o sentido literal
da palavra emoção - "movimento para fora" ou "expansão".
Estímulos agradáveis provocam uma "emoção"
do protoplasma, do centro para a periferia, enquanto os desagradáveis
provocam uma "emoção" ou, mais exatamente, uma
"remoção" do protoplasma da periferia para o centro
do organismo. Essas duas direções fundamentais da corrente
plasmática - expansão e contração são
um alicerce da teoria biofísica orgônica de Reich e essenciais
para a compreensão da teoria reicheana e as de seus seguidores.
Elas correspondem aos dois afetos básicos do aparelho psíquico
- prazer e angústia7.
As funções biológicas fundamentais de contração
e de expansão foram observadas tanto no psíquico quanto
no somático. Essas duas funções básicas se
relacionam com o funcionamento do sistema nervoso vegetativo ou autônomo.
Esse sistema regula processos corporais básicos como respiração,
pulsação cardíaca, circulação, digestão,
entre outras. Sua ação foge ao controle voluntário,
daí ser "autônomo". Possui uma subdivisão:
o sistema nervoso simpático e o parassimpático, que funcionam
de forma antitética:
O sistema
nervoso parassimpático opera na direção da expansão
"para fora do eu, em direção ao mundo", do prazer
e da alegria; ao contrário, o sistema nervoso simpático
opera na direção da contração "para longe
do mundo, para dentro do eu", da tristeza, do desprazer. O processo
vital consiste em uma contínua alternância entre expansão
e contração. (...) No mais alto nível psíquico,
a expansão biológica é experimentada como prazer;
a contração é experimentada como desprazer8.
Sejam as
emoções reativadas tendo como ponto de partida o psiquismo
ou o corpo, são produzidas excitações e movimentos
plasmáticos. O que se move é a bioenergia, contida nos fluidos
do corpo, que promove um pulsar permanente.
Stanley Keleman observa que "a pulsação é um
ciclo de expansão e contração, um continuum de compressão
e descompressão, que vai em direção ao mundo e volta
para o self. (...) Expansão e contração são
as bombas essenciais da existência"9. É a pulsação
que produz sentimentos essenciais como alegria, vitalidade e bem-estar.
Como vimos, com a restrição das expressões espontâneas,
através do encouraçamento, em conseqüência da
necessidade do indivíduo se adaptar ao seu meio sociocultural,
ocorre a estase de energia resultante dessa contenção, ou
seja, a estagnação dessa energia, que se concentrará
em pontos determinados, deixando outros sem energia suficiente, provocando
alterações. Essas alterações tanto ocorrem
pela falta de energia em determinada parte do corpo quanto pelo excesso
de energia de forma bloqueada (estase), sem movimento, sem fluidez, também,
em alguma parte do corpo. A persistência de um conflito ou de conflitos
semelhantes entre as próprias necessidades e o mundo externo percebido
como ameaçador faz com que o ego crie couraças, ou seja,
torne-se rígido para se proteger. A couraça dá à
personalidade condições para se proteger, aparando e enfraquecendo
tanto os golpes do mundo externo quanto os clamores das necessidades internas.
Mas se, por um lado, essa proteção diminui a dor e o desprazer,
por outro, diminui a capacidade da pessoa de sentir prazer, de viver com
maior plenitude as emoções agradáveis, pois, restringe
sua motilidade10 agressiva e libidinal, seu fluxo de bioenergia.
Com suas pesquisas, se inicia um longo caminho de estudos e experiências
que fundamentam uma nova visão do ser humano, unindo instâncias
até então vistas como formas isoladas - a corporal, a emocional,
a mental e a social. Reich detectou que o psíquico e o somático
são dois processos paralelos que atuam reciprocamente um sobre
o outro. Pôde constatar que "a estrutura psíquica é
ao mesmo tempo uma estrutura biofísica que representa um estado
específico indicativo da interação das forças
vegetativas de uma pessoa"11. A psique, na sua função
emocional, é completamente dependente das funções
de expansão e contração do sistema nervoso autônomo.
O corpo e
a linguagem expressiva da vida
Reich distinguiu três camadas na expressão emocional das
pessoas: a primária, a secundária e a terciária.
A primeira camada, a mais profunda, se constitui por impulsos espontâneos
para expandir-se e manter contato. É a que guarda nossa forma mais
autêntica de ser. Reich a denomina de cerne biológico, e
seus continuadores, self. A segunda camada é o inconsciente reprimido,
onde estão os impulsos proibidos, geralmente, confusos e destrutivos.
A segunda camada se forma devido à frustração e repressão
desses sentimentos mais espontâneos, que geram sentimentos destrutivos
e raivosos. Nesta camada, se encontram os encouraçamentos musculares
que reprimem esses impulsos. A camada mais externa, a terciária,
se relaciona às defesas do caráter e ao verniz social conformista,
bem-adaptado aos padrões socioculturais. É a camada das
máscaras (mecanismos de defesa do ego).
Reich afirmava que os impulsos primários de cada um poderiam se
manifestar de forma espontânea se os impulsos destrutivos da camada
secundária pudessem ser libertados da repressão e dissolvidos.
Ele observou isso quando trabalhou com a linguagem expressiva fundamental
do corpo em níveis profundos de relaxamento durante sua prática
clínica. Mas ter acesso a essa liberação não
é fácil ou simples, tendo em vista o contexto sociocultural
em que vivemos. Lowen, discípulo de Reich e criador da Bioenergética,
pode nos ajudar nessa compreensão:
Nossos corpos
são moldados por forças sociais, dentro da família,
que modelam e determinam nosso destino... que é o de termos que
tentar agradar para receber aprovação e amor. (...) Por
que não desistimos do papel, não interrompemos o jogo, deixamos
cair o disfarce, arrancamos as máscaras? A resposta é que
não somos conscientes de que nossa aparência e nosso comportamento
não são inteiramente genuínos. A máscara ou
disfarce tomou conta de nosso ser. O papel passou a ser uma segunda natureza
para nós, e nos esquecemos de como era nossa natureza original.
Tornamo-nos tão identificados com o papel e com o jogo que não
podemos conceber a possibilidade de sermos de outra maneira12.
Os estudos
de Reich e de seus continuadores mostram que as práticas que mobilizam
nossa bioenergia abrem caminhos de acesso a nossa forma mais autêntica
de expressão, daí ser importante buscarmos o contato com
nosso corpo e exercitar formas de expressarmos nossas emoções,
sentimentos e necessidades.
À proporção que entramos em maior contato conosco,
através da percepção corporal e das atividades lúdicas,
vamos reorganizando nosso campo energético, percebendo emoções
e sentimentos que estavam escondidos, fragilidades e potencialidades,
desejos e necessidades mais profundos. Vamos, aos poucos, flexibilizando
as couraças e acessando a camada primária, nosso self.
Sendo o corpo nossa história de vida congelada, como diz Reich,
entrar em contato com ele, nos propicia ir, aos poucos, descongelando
essa história. Liberar tensões corporais, flexibilizar as
couraças significa trazer mais energia para nosso corpo, mais vida.
Como nos diz Lowen, "ser é o estado de vitalidade do corpo.
Quanto mais cheio de vida, maior é o ser. (...). O ser é
realçado toda vez que nos permitimos sentir profundamente e que
deixamos manifestar nossos sentimentos e sensações em ações
apropriadas"13.
A expressão autêntica do indivíduo se caracteriza
pela espontaneidade que se manifesta por uma motilidade corporal. Quando
isto acontece, a organização do pensamento ocorre de uma
forma mais natural, com maior fluidez. Se não nos sentimos à
vontade ou se expressamos idéias que desejamos que sejam aceitas
por quem nos ouve ou lê, temendo a sua não aceitação,
acabamos por perder a espontaneidade. Acabamos por expressar, não
a verdadeira individualidade, a verdadeira forma de ser, mas um pensamento
ou uma forma de agir que julgamos ser o esperado ou o desejado. Como observa
Lowen14, ser se liga a sentir, e também se relaciona aos movimentos
e gestos espontâneos e involuntários que representam a auto-expressão
autêntica. A força da vida em nós é vivenciada
através de nossas verbalizações e movimentos espontâneos.
Estar vivo não significa apenas ter o coração batendo,
respirar e se locomover. Muito mais que isso, estar vivo se marca pela
possibilidade de estar presente no mundo, de se inserir em seu movimento,
de sentir, de se expressar, não se estagnando em determinados padrões
ou idéias paralisantes. Corporalmente isso se manifesta através
de mobilidade, de respiração ritmada e profunda e do fluxo
da energia corporal. Reich nos trouxe esta compreensão.
Atividades
lúdicas, flexibilização das couraças e auto-expressão:
algumas conclusões
Quando verbalizamos ou nos movimentamos de forma espontânea, entramos
em contato com o pulsar de nossa energia, integramos corpo e psique. As
atividades lúdicas permitem a manifestação, em qualquer
idade, daquilo que as brincadeiras infantis permitem à criança
manifestar: a ação do impulso criativo, a espontaneidade
do ser humano. O lúdico para o adulto ou o adolescente não
significa brincar como a criança, e sim estar inteiro em sua atividade,
vivenciá-la com prazer. É estar pulsando.
A teoria de Reich e as de seus continuadores são significativas
para os estudos na área da educação, na medida que
apontam possibilidades de um novo olhar para o corpo na sala de aula e
maior compreensão das relações indissociáveis
entre o corpo, as emoções e o pensamento. Reich sempre se
preocupou em apontar a possibilidade de prevenir neuroses através
de uma mudança nas práticas educativas. Tendo em vista as
atividades que desenvolvo em sala de aula, o aprofundamento teórico
e a pesquisa de campo em andamento no Doutorado, fica cada vez mais evidente
para mim a viabilidade de trabalhar nessa perspectiva, o que vem me permitindo
configurar as bases teóricas e metodológicas da Bioexpressão
como uma proposta pedagógica, que tem como objetivo principal oferecer
possibilidades para o desenvolvimento da auto-expressão.
Como apontei no início deste texto, a ludicidade é vivenciada
através de muitas atividades, o que inclui atividades de respiração.
Retomo esta atividade por ser a respiração um ato fundamental
para o ser humano, do que ninguém discorda. Mas, mesmo sabendo
que sem respirar não se vive, a maioria de nós não
tem muita consciência de que respiramos muito mal. Respiramos de
forma superficial e limitada, o que provoca incapacidade de concentração,
e traz intranqüilidade, ansiedade e irritação, fatores
prejudiciais também à aprendizagem. Respirar mal reduz a
vitalidade do organismo.
Respirar de forma natural e consciente, sem forçar nada, permite
que, após alguns ciclos de inspiração e expiração,
a respiração se torne mais profunda, e a bioenergia possa
fluir pelo corpo. A respiração propicia relaxamento físico
e mental, a liberação de tensões, maior contato do
indivíduo consigo mesmo. E como frisa Lowen, a respiração
é a pulsação básica (expansão e contração)
que envolve todo o corpo15. "O prazer é a percepção
de estar cheio de vida aqui e agora - o que significa estar plenamente
vivo num sentido corporal"16. As atividades prazerosas oportunizam
a expressão criativa, a expressão própria, a autonomia.
E respirar mais plenamente significa estar mais vivo, portanto, com maiores
possibilidades de vivenciar o momento, o prazer e, também, lidar
com as dificuldades.
O professor pode contribuir para a flexibilização das couraças
que impedem ou dificultam a expressão de seus educandos através
da abertura a novas possibilidades e do acolhimento de suas manifestações
expressivas. Afirma Boadella que "no processo de transformação
de padrões de sentimentos e expressões que estão
bloqueados, o elemento mais importante é a receptividade viva de
outro ser humano"17. Não podemos desconsiderar que a nossa
receptividade e acolhimento como educadores é ponto significativo
para estimular a expressão de nossos alunos.
O conhecimento de novas idéias e teorias é importante em
muitos momentos de nossa vida. Mas será que só o conhecimento
é suficiente? Creio que não. A leitura de muitos livros
dificilmente nos traria uma apreensão que passa também pela
vivência de determinadas experiências. Será que apenas
a discussão teórica nos traria a compreensão que
adquirimos em nossas vivências? Quando nos propomos a unir conhecimentos
científicos adquiridos, como os que Reich nos legou através
de suas pesquisas cuidadosas e contínuas, à percepção
de como isso se manifesta em nós, ou seja, unir a vivência
e a organização mental desses conhecimentos, poderemos transformá-los
em sabedoria. Só assim, poderemos expandi-la a todas as áreas
de nossa vida, seja afetiva, mental, corporal ou espiritual. Poderemos
também, a partir dessa apropriação, ter maior segurança
e capacidade de criar modos próprios de transferir para a prática
pedagógica nossas aquisições, criando novas possibilidades
em sala de aula.
Notas:
1 A Bioexpressão é uma proposta pedagógica e, também,
um modo de compreender o ser humano. Inicialmente a denominei Bioexpansão,
tendo sido, desde o primeiro semestre de 1997, ministrada por mim como
disciplina optativa na Universidade Federal de São João
del-Rei - UFSJ e como atividade regular no Programa FUNREI com a Terceira
Idade nessa Instituição, até meu afastamento para
cursar o Doutorado na Faculdade de Educação da UFBA, em
Salvador, em 2001. Com o aprofundamento dos estudos no Doutorado, passei
a denominá-la Bioexpressão. A mudança se deve a duas
razões. A primeira, por ser a expansão um dos pólos
de um processo pulsátil de expansão e contração
que a proposta busca trabalhar como um todo inseparável. A segunda
razão, por ser o objetivo maior dessa proposta possibilitar condições
para o desenvolvimento da expressão própria, para a manifestação
pessoal de se inserir no mundo.
2 LUCKESI, Cipriano Carlos. Educação, ludicidade e prevenção
das neuroses futuras: uma proposta pedagógica a partir da Biossíntese.
In: LUCKESI, Cipriano Carlos (org.) Ludopedagogia - Ensaios 1: Educação
e Ludicidade. Salvador: Gepel, 2000.
3 SANTIN,
Silvino. Educação física: da opressão do rendimento
à alegria do lúdico. Porto Alegre: Edições
EST/ESEF - UFRGS, 1994.
4 FORTUNA,
Tânia Ramos. Formando professores na Universidade para brincar.
In: SANTOS, Santa Marli P.dos (org.). A ludicidade como ciência.
Petrópolis: Vozes, 2001, p.116.
5 PEREIRA,
Lucia Helena P. Ludicidade: algumas reflexões. In: PORTO, Bernadete
de Souza (org.). Ludicidade: o que é mesmo isso? Salvador: Universidade
Federal da Bahia, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação
em Educação, Gepel, 2002, p.17.
6 REICH,
Wilhelm. A função do orgasmo. Problemas econômico-sexuais
da energia biológica. Tradução de Maria da Glória
Novak. 19 ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p.256.
7 REICH,
Wilhelm. Análise do caráter. Tradução de Ricardo
Amaral do Rego. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
8 REICH,
1995, p. 245-246.
9 KELEMAN,
Stanley. Anatomia emocional: a estrutura da experiência. Tradução
de Myrthes Suplicy Vieira. 3 ed. São Paulo: Summus, 1992, p.77.
10 Motilidade
corporal é o fluxo interno, diferente do movimento, que se manifesta
externamente; "é a vitalidade do padrão pulsátil,
a força e a intensidade das pulsações dos órgãos
que dão energia e identidade pessoal" (KELEMAN,1992, p.42).
11 REICH,
1995, p.255.
12 LOWEN,
Alexander. Medo da vida. Tradução de Maria Sílvia
Mourão Netto. São Paulo: Summus, 1989, p.81-82.
13 LOWEN,
1989, p.114.
14 LOWEN,
1989.
15 LOWEN,
Alexander. Prazer. Uma abordagem criativa da vida. Tradução
de Ibanez de Carvalho Filho. 6 ed. São Paulo: Summus, 1984.
16 LOWEN,
1984, p.29.
17 BOADELLA,
David. Correntes da vida. Uma introdução à Biossíntese.
Tradução de Cláudia Soares Cruz. 2 ed. São
Paulo: Summus, 1992, p.11.
|