Massagem Terapêutica - I
Relaxar e Perceber-se
 
Cláudia Leal
 

Procurei a massagem nos primórdios dos anos 80. Tratava-se de uma técnica de massagem desenvolvida por um bailarino e instrutor do Rio Abierto - Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem e com ele fiquei trabalhando durante 1 ano e meio. Vivi, nesse período uma série de eventos que me transformaram e me causaram um profundo impacto.

Em primeiro lugar, a dificuldade. A massagem consistia em toques vigorosos e eu sentia como se estivesse tentando "arrancar" algo de mim. Arrancar no sentido de evocar emoções. Eu era uma aliada resistente. Aliada porque queria ser "tocada" por dentro, na alma. Mas resistente porque inconscientemente impedia que as emoções viessem realmente à tona.

Mas, aos poucos, fui descobrindo que meu corpo "falava". Cada vez mais eu o sentia. Sensações de derretimento, formigamentos. Sentia como se descamasse de mim uma "pele grossa", seguido de sensações de ondas de energia que emergiam inusitadamente. Todos os meus músculos tendiam a se alongar num relaxamento.

Reações diversas apareceram, algumas incômodas, mas que reconheci logo como o necessário andamento de um processo, um convite aberto à expressividade das minhas emoções. Em função dessa experiência, e como estudante da área, comecei a ficar sensibilizada com o profundo impacto que a massagem pode causar.

Depois dessa experiência, conheci o trabalho de massagem biodinâmica, criado por Gerda Boysen, uma massagem que valoriza muito os limites do cliente. Durante dois anos e meio praticando, recebendo e aplicando, aprendi que a massagem terapêutica implica a criação de uma experiência de reconhecimento e aceitação. Comecei a ter novas experiências: contorno, fronteiras, sabor de ondas restauradoras, fluidos que subiam e desciam numa dança que trazia harmonização. Um profundo prazer emergiu. Depois de todo esse tempo sendo mexida, tocada, uma sensação vivida como um sabor de doçura invadia todo o meu corpo.

Com tudo isso, concluí que a massagem terapêutica pode propiciar por um lado uma experiência de forte relaxamento e também de importante experiência de auto-conhecimento. Pode propiciar a quem a recebe, um engajamento com seu próprio corpo de forma a aprender o relaxamento, a se apropriar da sua própria forma, tal como ela é. Como finalidade, a massagem é relaxamento, conforto, bem-estar, prazer. E será tão mais profunda quanto maior for a abertura para a interação com o processo terapêutico implicado nesse trabalho.

Hoje, tendo me tornado uma profissional já estabelecida na área de psicoterapia e da massagem terapêutica, penso que é importante valorizar algumas idéias. Uma boa interação com o cliente deve ser construída durante o processo de massagem. A mão do terapeuta deve entender os limites da outra pessoa. Limites emocionais e corporais são estabelecidos no sentido de o cliente poder sentir suas fronteiras (pele), sua estrutura (músculos e ossos). Nessa interação, onde os limites são respeitados, o cliente pode crescer sem medo na direção das sensações puramente somáticas, dialogando com sua própria percepção de si e suas emoções, vividas no seu próprio tempo.

É preciso estruturar, no trabalho terapêutico, uma atitude de empatia, um "ir junto", cliente e terapeuta. Um respirar junto, um dar pausas, para que o cliente possa se sentir. O reconhecimento do próprio corpo e as emoções que emergem durante um processo de massagem terapêutica, devem ser aceitas sem julgamento. O reconhecimento tem um sabor, e quanto mais nos apropriamos do reconhecimento de nós mesmos, mais a aceitação se aprofunda em nós.

Quando esse aprofundamento acontece, as respostas do corpo são intensas. Respostas emocionais se dão, espontaneamente. Todo o continuar do processo de massagem será gerar novos conhecimentos de si através do corpo sentido e da interação com o terapeuta. Novos estados de si vão sendo experimentados e incorporados. É um processo educativo e auto –regulador, onde se "aprendem" novas formas de ser, o corpo começa a trabalhar a favor, começa a criar diálogos internos e pode-se chegar a dizer profundamente: " eu compreendo o meu corpo".


Cláudia Leal - Psicóloga, psicoterapeuta, terapeuta corporal, membro da equipe do Numina - Rio de Janeiro)

 
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