No próprio ritmo, mais sentido e não importa o tamanho
 
Humbertho Oliveira
 
O "mais rápido, mais forte, mais alto" das Olimpíadas é um lema da tecnologia do corpo em excelência, um princípio do Olimpo e dos deuses. Mas nós, os humanos, sabemos que aspiramos a outras excelências: a busca do ritmo próprio, com sentimento e sem se importar com as medidas.

É certo! Nós desejamos competir, sim, desde que haja, a seguir, algum estado de graça - não aquele estado da vitória única das medalhas no pódio -, aquela graça que sentimos quando colocamos o corpo em movimento, aquele bom cansaço que só uma vigorosa atividade física possibilita.

Nós, humanos, estamos em ação por aí. Estamos no futebol do fim-de-semana. Realizamos uma caminhada em algum parque florestal. Participamos do ritual de treinamento de uma comunidade indígena da floresta. Freqüentamos um clube ou uma academia urbana, onde algum professor, também da tropa dos humanos, gentilmente nos estimula a continuar. Claro, já que ninguém é feito de ferro, temos sempre tempo de tomar um chope após o futebol, de dar um mergulho numa cachoeira e colocar o papo pro ar no meio da caminhada, de dançar ao fim do ritual da floresta e de ensaiar uma paquera logo em seguida ao clube ou à academia.

Nós, os humanos, dispensamos platéia, nos observamos uns aos outros diretamente, sem aplausos de preferência. Jogamos capoeira batendo palmas ao som, homenageando a ginga. Nós também vamos à hidroginástica, e mesmo emendando um papinho com uma colega de água, seguimos o intento de um "vigor continuado", criativa e pacientemente continuado. E depois de tudo isso, gostamos de receber uma massagem, daquelas que trazem um profundo bem-estar.

Curioso, não? Os deuses do esporte não se apresentam naquelas modalidades que nós humanos procuramos, e cada vez mais, quando alguém que admiramos também está praticando uma delas. O Tai-Chi-Chuan - "aquela ginástica chinesa, constituída por um encadeamento de movimentos, segundo esquemas precisos". O Tae-Kwon-Do - aquele "esporte de combate desarmado de origem coreana" onde "na disputa os socos são interrompidos bruscamente no momento do contato. O Kum-Nye, aquele sistema de posturas e movimentos lentos, muito sentidos, de origem tibetana, aquele sistema do povo da paz.

Gostamos de ir à musculação, sem nenhuma `bomba`, obviamente. A natação, com as chegadas sem fôlego, se faz muitas vezes necessária; e estamos sempre dispostos a receber novas instruções para mais chegadas, as quais tentaremos cumprir com orgulho de nós mesmos - a não ser que estejamos naqueles dias de preguiça extrema, isso tudo porque `nóis sofri, mas nóis goza`.

Gostamos de correr no calçadão, de andar de bicicleta num domingo, de remar um barco pra pescar, de pescar horas a fio, de surfar, de jogar totó e sinuca e frescobol... Alguns de nós arriscam, inclusive, uma trilha de moto, um Kart - aquele "pequeno veículo automóvel de competição com embreagem automática, sem marchas, carroçaria ou suspensão"-, umas cordas alpinísticas, uma travessia através de um rio em corredeiras, um pedalinho.

É mesmo! Nós humanos, por mais que admiremos os deuses das medalhas, ou nos frustemos com os semideuses das quase medalhas olímpicas, estamos querendo inaugurar a nossa humaníadas, o nosso singelo e marcante esforço em colocar nosso corpo em movimento. Só que já temos o nosso lema, e não custa repeti-lo, queremos ir no nosso próprio ritmo, sentindo mais e não nos importando com o tamanho que temos.

Humbertho Oliveira, Médico, Psicoterapeuta Somático,
Fundador e Coordenador do Quiron - Centro de Estudos e
Práticas Trans-somáticas, Rio de Janeiro

 
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