A ressurreição nossa de cada dia - Para Henry Sobel
 
*Maristela Barenco Corrêa de Mello
 

Preciso admitir que sou filha de uma Cultura cínica. Uma Cultura que deixou para trás uma herança preciosa que remete aos primórdios da história humana, partilhada pelos nossos irmãos, em tempos tribais: uma infinita tolerância e bondade no que diz respeito às questões humanas, conjugada com uma severa ética social. Assim, os antigos eram atravessados por um senso de co-responsabilidade pessoal e comunitária no que diz respeito à vida humana: sabiam cuidar, acolher, resgatar, perdoar, respeitar. O humano, mais integrado, não cometia tantas aberrações. E certamente as pessoas deviam adoecer muito menos...

Mas, como dizia, sou filha de uma Cultura cínica. E de uma Igreja também. Com seus expoentes e representantes não aprendi, de forma vivencial, nem a infinita tolerância e bondade no que diz respeito às questões humanas e nem uma severa ética social. Nenhuma das duas. Ainda que a Igreja tenha um legado evangélico que vai além de uma herança histórica tribal... Venho aprendendo isso coletivamente pela vida afora com as experiências de plenitude e as de vazio. Com a Cultura e a Igreja aprendi uma moral intimista, conjugada com uma moral social. Tudo quase imoral. Na perspectiva intimista importante não é ser diferente ou se transformar, mas não deixar escapar publicamente aquilo que somos. O importante é a clivagem. É sermos dois: um que só nós sabemos ser e outro, para os outros, que fingimos que somos. Na perspectiva da moral social importante é não questionar o que hegemonicamente vai sendo construído. De resto, importa aceitar a superficialidade exterior das verdades impostas por alguns, seja em forma de autoridades, dogmas, princípios, teorias. Tudo aquilo que entra pela cabeça e não passa além do pescoço. Tudo aquilo que deixa o coração como terra intocada. Tudo aquilo que não toca as entranhas.

Mas esta semana vi-me profundamente emocionada com os fatos que envolveram o Rabino Henry Sobel. Senti-me profundamente triste. Lembro-me de Henry Sobel no tempo de minha juventude, à frente de diálogos inter-religiosos e de movimentos envolvendo direitos humanos. Lembro-me de uma cena do filme Fé (Pé) na Caminhada, onde, ao som da música Oração de São Francisco de Assis, meu coração sentia-se profundamente tocado por aquela infinita tolerância e bondade no que diz respeito às questões humanas, que ali se mostrava praticada por ele.

Esta semana, ao saber do que acontecia com esse Rabino, lamentei muito. Em nada fiquei decepcionada com ele, nem pelo que possa ter feito, nem pela imagem pública que é, e nem mesmo por tê-lo visto à frente das causas de Direitos Humanos. Não escrevo por nenhuma condicionalidade. Mas fico triste, porque constato que, de alguma forma, a Cultura cínica vai crescendo dentro de nós. Triste, porque tal Cultura se alimenta dos casos de algumas pessoas em especial, que, em situações de vida não menos especiais, deixam escapar publicamente o humano que todos somos, mas sempre fingimos não ser. E triste ainda, porque cinicamente diplomados, fingimos não reconhecer e não fazer parte de nós o humano nosso que se expressa em um irmão. Talvez alguém possa não estar entendendo o que eu estou querendo dizer. Mas é isso mesmo. O outro é apenas o espelho daquilo que somos nós.

Mas, hoje, especialmente hoje, senti-me profundamente emocionada ao acordar bem cedo e ler a carta ou trecho da carta que D. Mauro Morelli escreveu a Henry Sobel. Em tempos de tanta intolerância religiosa, senti profunda emoção e identificação com a Igreja de D. Mauro, de amor incondicional, que não se furta diante do desafiante legado evangélico. Em suas palavras, reconheço uma infinita tolerância e bondade no que diz respeito às questões humanas. Permita-me trazer as suas palavras:


"Querido Rabino Sobel, estou a teu lado, solidário em teu sofrimento. De ti não me envergonho! Sempre senti orgulho de ti. Ao lado de Dom Paulo, teu corajoso testemunho nos anos de trevas não deve ser esquecido e tua imagem resguardada. Seja qual for a explicação que se queira prestar ao triste episódio, tu que foste tão misericordioso em teu ministério receba misericórdia, não humilhação. Oxalá que todos descubram que o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, de Moisés e dos Profetas têm entranhas de misericórdia. Meu caro amigo, Shalom! Paz e Bem. Estou contigo nesta hora de contradição. Tu és um filho da Luz e não das trevas. Desejo te ver de novo conduzindo teu povo e testemunhando a fraternidade universal. Como admiro tua capacidade de superar preconceitos e ultrapassar barreiras. Receba o abraço de teu amigo de muitos anos. Ferido gravemente e hospitalizado no Hospital das Clínicas, tua visita acompanhada de prece e bênção me confortou e renovou minha esperança. Com o ósculo da paz, suplico que o Senhor volte Seu rosto para ti e te abençoe, seja tua consolação e te dê a paz."

Em plena Semana Santa, D. Mauro atualiza para nós o verdadeiro lava-pés, que segundo Jean Yves-Leloup, significa a possibilidade de nos curarmos coletivamente ao nível de nossos pés, de nossas raízes, de onde não conseguimos nos manter de pé quando estamos doentes. Lava-pés de uma humanidade manca, de pés-feridos. D. Mauro lavou os pés do Rabino Sobel. Mas também de cada um de nós.

Gostaria de dizer ao Rabino Sobel também algumas coisas, ainda que nunca nos tenhamos visto pessoalmente. Vendo que ele – em contraste com todos os nomes públicos do país e do mundo -, veio a público, corajosamente, pedir desculpas pelos fatos ocorridos, sinto vontade de pedir-lhe desculpas públicas também.

Peço perdão Rabino Sobel, porque apesar de vivermos na chamada sociedade do conhecimento, ainda não conseguimos tornar hegemônica uma cultura do cuidado, do evangelho, da infinita tolerância e bondade no que diz respeito às questões humanas. Uma cultura onde o humano tenha lugar e possibilidade de expressão, sem ser oposto ao divino. Uma cultura onde as pessoas não sintam insônia e nem precisem tomar tantos remédios.

Peço perdão porque aceitamos a clivagem imposta. Há muito tempo aceitamos a lógica de sermos dois. Enquanto não sermos flagrados em nossa humanidade e nos porões da mesma, andamos pela vida fingindo que não somos aquilo que também somos. E nos sentimos bem com essa crença.

Peço perdão porque todas as suas dores são as nossas dores. E tu a sentes porque nós não somos diferentes. E a sua cura também depende de nós, que ainda nem nos assumimos doentes... Acostumamo-nos a enxergar os ciscos dos outros por dentre as nossas traves... ainda que esse ensinamento de Jesus seja tão familiar e antigo... Ainda não aprendemos nem as primeiras lições!

Para terminar lembro as palavras do texto “Canção da Criança”, de Tolba Phanem, que fala um pouco daquela herança preciosa de nossos antepassados tribais. Cada pessoa, ao nascer, é portadora de uma canção, nome, identidade, singularidade. Segundo Tolba, uma verdadeira tribo nunca esquece a canção do outro, sobretudo nos momentos de maior crise, onde o outro mesmo se esquece de sua canção. E então ele diz:

“Teus amigos conhecem a tua canção e a cantam quando a esquecer. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as confusas imagens que mostras aos demais. Eles recordam a tua beleza quando te sentes feio; tua totalidade, quando estás quebrado; tua inocência, quando te sentes culpado, e teu propósito, quando estás confuso”.

Sonho com uma Espiritualidade que nos confira beleza, inteireza, inocência, propósito, amor incondicional, espaço para ser gente e perdão, tudo isto nos momentos em que mais precisamos. Sonho com uma Espiritualidade do Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas. E não com uma Espiritualidade-expressão de nossas projeções diárias e patológicas. Viver esse desafio é a Ressurreição nossa de cada dia. Precisa ser diária. Precisa ser de todos.

* Coordenadora Pedagógica do CDDH Petrópolis e Doutoranda em Meio Ambiente (UERJ)

 
[imprimir]
www.artesdecura.com.br