Uma Medicina, todas as medicinas
 

João Andrada

 

A medicina surgiu no mundo com o homem, pela necessidade do homem e com ele se desenvolveu. Seguiu o caminho das diferentes civilizações e moldada por elas consolidou um conjunto de conhecimentos e práticas que caracterizou, e caracteriza, maneiras distintas de ver e abordar a saúde e a cura. A medicina já esteve muito intimamente ligada às religiões onde líderes religiosos executavam rituais de cura - os xamãs são o melhor exemplo . De uma maneira ou de outra, ainda hoje nos deparamos com esses antigos rituais preservados e revividos, e seus assemelhados; os vários tipos de curandeiros, parteiras e curiosos, que prestam algum tipo de assistência a uma população que os reconhece capazes. Antigos povos e civilizações foram detentores de uma medicina avançadíssima, para sua época, que se perdeu no tempo - os egípcios . Outros, souberam mantê-la e aperfeiçoá-la, como os chineses e os hindus. Outros ainda - tribos africanas, grupos indígenas e aborígenes - mantiveram-na quase que como originalmente, tradicional e rudimentar, assim como também mantiveram hábitos e costumes ancestrais, numa estranha convivência com a modernidade. A medicina popular, descendente de antigas práticas empíricas, está presente em inúmeras culturas e comumente se mistura a alguma forma de medicina não-leiga, como a fitoterapia e a antroposofia por exemplo.

Não é contudo o objetivo, fazer-se aqui, uma crônica da medicina, nem tão pouco uma análise social da saúde; o objetivo, se alcançado, será fomentar uma reflexão sobre as práticas médicas e sua conturbada convivência.

A história do mundo é uma história de diversidades, de particularidades. Todavia é também, e por isso mesmo, uma história de tentativas de dominação, de hegemonia. A diversidade é a maior riqueza da terra - minerais, plantas e animais, num equilíbrio perfeito atestam isso - e da humanidade - povos, valores e culturas, em relativo desequilíbrio, também. Apesar disso e absurdamente, parece ser essa a razão de uma dificuldade crucial para o ser humano; lidar com as diferenças, tolerá-las. Por esse embate, passam todas as áreas do conhecimento e das preferências pessoais: religião, política, esportes, profissão,consumo, lazer etc., e é claro que a medicina, as práticas médicas - as formas de tratamento e os conceitos de saúde e doença - não ficam apartados dessas discussões. O tema, infelizmente, não teve ainda, a oportunidade de ser discutido com a abrangência e profundidade que merece; o conceito de saúde e por conseguinte como se deve medicamente, lidar com ela, é dominado no mundo ocidental pela prática alopática, oficial em quase todos os países, e que conta com o poderoso apoio da indústria que a suporta. Essa prática é caracterizada por uma atitude predominantemente curativa, onde a doença tem um peso e uma importância maior que a saúde: a promoção da saúde e a prevenção de doenças são ações secundárias.

O conceito de saúde é universal e deve ser expandido a uma amplitude que englobe, genericamente, o bem estar do indivíduo; econômico, social, emocional, psicológico e físico. Dessa amplitude vem a importância que a falta da discussão, faz.

Está chegando, porém lentamente, o momento que essa discussão ganha corpo. Deve-se isso ao fato das práticas chamadas alternativas, na medicina, estarem em franco crescimento, vale dizer, com uma crescente procura e aceitação por parte de populações de vários países; países esses que dispõe de uma medicina alopática avançadíssima e tida por oficial e por força disso, ao alcance de todos. Curiosamente, é nos Estados Unidos, país onde mais recursos se investe na tecnologia médica que isso se dá, com maior impulso. Seguem-no por ex. a Holanda, França, Austrália, Inglaterra – onde a procura, o uso, e gastos com essa medicina são analisados em artigos publicados em prestigiosas revistas médicas, até então restritas e voltadas apenas para a medicina alopática.

Chegamos dessa forma, ao ponto em que a diversidade se confronta com a dominação e a busca da hegemonia. O crescimento e o sucesso alcançado pelas práticas médicas "alternativas"suscitou uma incrível reação contrária, por parte dos grupos - indústria, laboratórios, associações médicas - que até então detinham, e ainda detêm, os meios e os modos determinantes do que é válido e "científico"na medicina. Uma reação de desconhecimento e de perda de controle. O que esses grupos não controlam, ou não controlam mais, é o juizo crítico que as pessoas fazem do tema e as suas escolhas, que com base nas experiências próprias, reforçam os seus pontos de vista.

Estamos então, no campo fértil para a discórdia, para a intolerância e correndo os riscos da radicalização, da mútua exclusão. Podemos detectar esses arroubos fundamentalistas em ambas as partes, mormente na dominante, há mais tempo estabelecida e resguardada por leis, e nunca antes ameaçada com tamanha restrição de espaço e prestígio. Todos tem a perder com isso,a medicina ela mesma, e sobretudo os seus usuários, os clientes. Somente a ignorância sai vitoriosa nessa luta.

A Medicina é composta de todas as medicinas, ou seja, todas as práticas a compõe, por serem rigorosamente complementares. Nenhuma "medicina" é completa, atende a todas as necessidades da saúde e da doença. Acreditar nisso é ignorar as limitações de cada prática, é diminuir as nítidas virtudes que cada uma tem, é despreparo. Quando adequadamente empregadas, levando-se em conta as reais possibilidades de cada uma delas, todas são boas, e à sua maneira, tratam com sucesso. Cabe ao indivíduo escolher como quer ser tratado, e é isso que vem acontecendo cada vez mais, cada vez com maior acertividade.

Nos dias de hoje, e para o futuro, um bom médico clínico, não pode desconhecer as práticas médicas mais correntemente usadas, como especialidades que seriam. É evidente ser impossível dominá-las todas, mas não é impossível conhecê-las, saber das suas principais capacidades e aplicações, para poder avaliar as interações, intercorrências e fazer indicações. Ampliar o horizonte de trabalho, agregar ao trabalho, mais qualidade; usar o que cada uma tem de melhor. A visão geral e a visão particular se mesclam, para compor uma ótica que vai ao encontro da necessidade de cada indivíduo; mais do que nunca, agora, a medicina é uma ciência do indivíduo, de se administrar as partes, das combinações sinérgicas, da complementariedade. A soma das partes - combinadas com perícia - produz resultados superiores.

A Medicina é uma só, desde a antiguidade. As práticas são várias, desde os tempos imemoriais. A dificuldade do homem, em aceitar as diferenças, é tão antiga quanto elas.

Parece ter chegado a hora de se compreender que a humanidade precisa muito da diversidade, para se desenvolver. Parece ter chegado a hora de se compreender que todas as medicinas são uma só.

João Andrada
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