Onde estão as borboletas?

 
Gizelda Mª Capilé de Miranda Silva – Ensaio
 

Vivendo num mundo de paradoxos, volta-me à lembrança o prazer vivido na infância ? e lá se vão algumas décadas ? ao ver o vôo de centenas de borboletas quando passávamos correndo pelos charcos da fazenda de meu pai.

Eu adorava vê-las coloridas, graciosas, leves, soltas, voando assustadas. Eram lindas. Via-as como a obra perfeita da criação e gostava de conviver com elas, ao contrário das lagartas que me causavam repulsa, as quais acabavam amassadas debaixo do meu pequeno sapato ou debaixo de um pedaço de madeira ou pedra que porventura encontrasse pelo caminho, sem o menor pudor ecológico.

Um dia, andando pelo pomar, num galho de laranjeira encontrei uma forma estranha que mais parecia um charutinho de folhas. Peguei-o e o levei para dentro de casa, ouvindo logo minha mãe dizer que aquilo era um casulo onde “dormia” uma lagarta que se transformaria em uma borboleta. Que surpresa! Lagartas transformando-se em borboletas? Meu mundo virou do avesso. Onde, a perfeição?

Ela dizia também que eu não deveria abrir o casulo porque poderia matar a borboleta no seu nascedouro e não poderíamos vê-la voar. Conselho materno, em se tratando de minha mãe era uma ORDEM: “Não mexa com coisas que você não conhece. Deixe a natureza seguir seu curso”.

Em seu livro “Despertando na Meia-Idade”, Kathleen A. Brehony nos relata que “enquanto a borboleta se forma no mingau lagártico da crisálida, é possível distinguir as suas formas características através da carapaça da pupa. Robert Pyle capta o momento em palavras tanto científicas quanto maravilhosas: Pintas em branco e preto, lembrando um olho, sobre as asas de um marrom intenso, antenas, grandes olhos redondos. Finalmente, o sarcófago abriu-se e as longas pernas dobradas, as antenas e a probóscide saltaram para a frente como a mola de relógio que é solta de repente. Fiquei alarmado ao ver as asas – completamente molhadas, amassadas e pequenas. Mas o inseto agarrou-se à capa agora pálida e vazia na sua folha murcha e começou a balançar as asas com delicadeza e a bombear o líquido do seu abdômen inchado para as veias das asas. As asas se expandiram e, em mais ou menos uma hora, ganharam as suas verdadeiras formas e a ondulação necessária para voar. A borboleta esticou a língua, juntou as duas metades e a enrolou com segurança entre os seus palpos peludos. Uma gota de líquido avermelhado saiu da ponta do abdômen. Ela estava pronta para partir”. Tudo à seu tempo, de acordo com as leis naturais. “Esta sangria, o último ato simbólico do sacrifício presente na metamorfose, ocorre geralmente durante o primeiro vôo da borboleta. Depois de se livrar do incômodo corpo terrestre da lagarta, ela segue em direção ao futuro como um ser diferente daquele que começou seu ciclo de vida. A natureza forneceu os ingredientes à sobrevivência, aumentando sua versatilidade, adaptabilidade e habilidade para conviver com as exigências do mundo dos insetos”.

E nós, seres humanos em fase de crisálida, que necessitamos ressurgir, reviver, viver de outra forma; onde encontrar as condições necessárias para esta transformação, esta metamorfose?

Balas perdidas que matam. Árvores que tombam pela ação das motoserras. Bibliotecas que são fechadas porque não têm a presença de jovens que nem sabiam que deveriam se apresentar. Escolas que não educam. Hospitais que não cuidam. Remédios que não curam. Igrejas que não acolhem Casulos secos que não abrigam a possibilidade de vida. Crisálidas... que nem existem mais.

Li nos jornais que as árvores são tombadas para dar espaço às lavouras que aumentam as riquezas e matam a fome... de quem? Que os impostos são cobrados cada vez mais para pagar as dívidas que nunca diminuem e para realizar benfeitorias que nunca aparecem. Que a classe política se estrutura para fazer valer os direitos do povo que só tem deveres. Que a polícia está preparada para defender e não para matar. Que os gastos com inseticidas, para matar as lagartas, matam o salário do povo, que à essa altura já morre de fome... de que? Também de justiça, de respeito, de amor-próprio, de esperança, de ética, de cidadania.

Jung, eminente psiquiatra suíço, compara o processo de amadurecimento do ser às transformações da crisálida, onde o trabalho de desenvolvimento é individual e requer um tempo certo para a sua elaboração. Assim como na metamorfose da lagarta em borboleta, necessitamos nos interiorizar e buscar as respostas para nossas inquietações no íntimo de nossa alma, sem estardalhaços e sem projeções. Cada um de nós traz, ínsito no ser, o material necessário para a grande transformação, porém, vivemos num mundo de resultados imediatos, de sensações. Não nos permitimos passar pelo sacrifício natural da metamorfose. Tudo pronto, tudo rápido, tudo para mim e para os meus.

Somos uma nação de indivíduos velhos no pensar, no sentir e no agir que não nos permitimos amadurecer, que não nos permitimos caminhar para a inteireza, para a integridade como expressão máxima do bem viver. Sem saber, mexemos o tempo todo nas crisálidas.

Ainda veremos borboletas?

 
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