Resumo:
Este artigo é fruto de uma reflexão, feita a partir do acompanhamento
à pacientes com câncer, que transpõem a dificuldade
natural de se despedir e passam a demonstrar uma certa facilidade em trabalhar
com as perdas, inserindo-as no seu processo de vida, transformando impossibilidades
em possibilidades e fazendo ajustes criativos que contribuam para suas
melhores escolhas.
Palavras-Chave: perdas, transformação,
prioridades, pacientes com câncer, Gestalt-terapia
Abstract:
This article results from the observation of cancer-patients, who overcome
the natural difficulty of leaving, and start to demonstrate a certain
spontaneity in dealing with losses, introducing them into their lives,
transforming impossibilities into real chances and making creative adjustments
which guide them to their best choices.
Key-Words: losses, transformation, priorities, cancer-patients,
gestalt-therapy
VIVENDO
E NÃO APRENDENDO A SE DESPEDIR
O exercício
do ofício de psicoterapeuta tem me mostrado que uma das maiores
dificuldades do Ser Humano é dizer adeus. Na cultura ocidental
o vínculo á altamente valorizado e não é por
acaso que várias teorias psicológicas se preocuparam com
essa questão. Em contra partida tenta-se esvaziar os sentimentos
e sensações ligados à situações de
despedidas e quebras de vínculos. Desde cedo ouve-se frases como:
- Não chore... Vai passar... Bola pra frente... Tome outro... Levante
a cabeça... etc o que ajuda a fazer um contato rápido e
superficial com a dor de perder . No entanto, é impossível
viver e não perder:
• Pessoas – por morte ou qualquer outro tipo de separação.
• Sonhos ou expectativa de futuro – por realização,
adiamento ou desistência.
• Imagem ou função corporal – pelo envelhecimento
ou doença.
• Casa ou referência geográfica - pelas mais variadas
mudanças.
• Papéis ou ocupações profissionais - por aposentadoria,
desemprego.
• A própria vida - pela morte.
Pela instabilidade ansiogênica criada por qualquer situação
acima citada, o ser humano usa seus recursos defensivos para não
vivê-las intensamente. O luto, enquanto experiência de transformação
de vínculos, é pouco incentivado. A nossa cultura não
ritualiza as despedidas e tenta reduzi-las a um único momento que
pode ser esvaziado.
Sendo Gestalt-terapeuta,trabalho esses eventos olhando-os como situações
inacabadas; Yontef (1998.p.98) sugere definindo:”Gestalt incompleta
é um assunto pendente que exige resolução. Normalmente,
isso assume a forma de sentimentos não resolvidos expressos de
maneira incompleta.” É dessa forma que eles se explicitam
nas queixas dos clientes durante o processo psicoterápico.
Nessa maneira de ver, o Ser humano é um colecionador de despedidas
mal feitas, de olhares mal dados para as vivências de perdas. O
que foi vivido, em muitas situações, só é
realmente fechado ao retornar na vivência de uma situação
presente que facilite o aparecimento do real acontecimento, com sua intensidade
perceptível e assumida, o que na Gestalt terapia é chamado
de awareness e segundo Yontef (l998.p.30) “uma forma de experiência
que pode ser definida aproximadamente como estar em contato com a própria
existência com aquilo que é.“
A vida, tal qual se vive, é uma tentativa de viver de uma maneira
mais “normal” possível, desconsiderando a importância
do vivido no seu aspecto existencial.
“Faça
uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás?
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você se reconhece?”
(A LISTA – Oswaldo Montenegro)
ACOMPANHANDO
PACIENTES COM CÂNCER
O atendimento
a pacientes com câncer tem me feito observar o como a necessidade
de fechamentos de fatos e situações vividas faz a despedida
assumir papel relevante no dia a dia dessas pessoas, pressionados que
se sentem pela finitude da vida. A despedida deixa de ser um ato isolado,
feito num único momento e passa à condição
de processo visto por Yontef (1998.p.203) como “mudança ou
uma transformação sofrida em um objeto ou organismo, na
qual uma qualidade consistente ou uma direção podem ser
discernidas”
As pequenas perdas, que comumente passam despercebidas, emergem, se tornam
figuras, assumem movimento próprio e apresentam uma articulação
seqüencial de tempo e espaço. O olhar parece estar focado,
aguçadamente, naquilo que não se tem mais. Há uma
certa predisposição para se despedir, para fechar. Tudo
necessita ser vivido intensamente e rápido. Não há
mais tempo a ser perdido e os adiamentos deixam de fazer parte da rotina.
O papel do psicoterapeuta, no meu caso, usando o fundo teórico
da Gestalt –terapia passa a ser o de acompanhante desse processo,
respeitando o ritmo, a intensidade e o tempo de seu desenvolvimento, reconhecendo
o que de mais humano se faz presente. Remen (1993.p.47) afirma que “na
verdade, a natureza humana não é desconhecida a nenhum de
nós; através de nossa experiência interior e observação
dos outros, desenvolvemos a percepção de seu alcance e amplitude,
daquilo que nós mesmos e os outros somos e podemos ser”.
Vestido da sua humanidade, ao psicoterapeuta, vai se tornando claro que
o possível é abrir espaços para que essas situações
se apresentem. As intervenções vão, cada vez mais,
sendo focadas naquilo que está sendo perdido na vivência
de cada um. Há uma aceitação, por parte do terapeuta,
que propicia o aparecimento dos mais diversos sentimentos até que
seja possível prantear o impossível, o perdido, o que já
não se tem mais, o que deixou de existir. Para que, em seguida,
após o reconhecimento do limite estabelecido, se torne possível
vislumbrar o além, o agora, a possibilidade de prosseguir com uma
nova situação reconfigurada, colocando o que antes era falta
na condição de possibilidade presente, coerente com o momento.
Buscaglia (2000.p.123) aponta que “a única realidade que
conhecemos é a do exato momento que estamos vivendo. Realidade
não é o que já passou nem o que ainda vem. Aceitar
essa idéia tão simples torna a vida mágica. ... Isso
não quer dizer que se viva apenas para o presente, mas que se viva
no presente, o que faz uma grande diferença”. O fascínio
do viver é sempre o descobrir no agora, uma possibilidade, mesmo
quando se imagina não haver mais nenhuma.
COLHENDO
MORANGOS
Atendendo uma mulher que apresentava metástase de coluna o que
vinha comprometendo a sua capacidade locomotora, fui procurada pela família
que me pediu para trabalhar com ela o uso da cadeira de rodas. Havia um
sofrimento muito grande nessa família em assumir essa nova condição
como a única possível para locomoção da paciente.
Fui para o encontro com essa mulher preparada para enfrentar uma sessão
difícil. Tudo se deu diferente. Ela me falou do como já
havia sido ruim, anteriormente, ter assumido as muletas como pernas acessórias
e que, agora, seria, outra vez, perder mais um pouco.Para ela era extremamente
sofrido se ver sentada, olhar o mundo de uma altura diferente da que estava
acostumada, mas que conseguindo admitir esta possibilidade, ela podia
vislumbrar o novo ângulo de admirar as coisas ao seu redor e que
a cadeira de rodas seria a possibilidade que ela teria de não deixar
de admirar o céu, de passear, de sentir o frescor da floresta e
admirar a lagoa, coisas que ela considerava fundamentais para mantê-la
viva, presente na vida. Abrir mão das suas pernas era doído,
mas muito pior seria o confinamento. Ainda com lágrimas nos olhos
pude vê-la se despedir de uma condição anterior que
já não era para ela a ideal e assumir uma nova possibilidade
que fosse capaz de não fazê-la abrir mão do que lhe
era prioritário e que faziam-na se sentir participante da vida.
Nessa sessão observei que a escala de prioridades de cada um é
capaz de facilitar escolhas clarificando o que, na verdade, não
se quer abrir mão e que a presteza da necessidade de uma decisão
pode ser facilitadora para se enxergar uma saída e entrar em contato
com algum benefício. Isso me fez lembrar de um Koan budista que
conta: Um monge, certa vez, fugindo de um urso faminto, chega á
beira de um penhasco e tem de decidir entre saltar e ser devorado. Resolve
pular, mas no meio da queda, consegue se agarrar a uma raiz que escapava
das pedras. Para piorar, quando o pobre monge olha para baixo, vê
um tigre andando em círculos esperando que ele caia para atacá-lo.
Exatamente nesse momento, dois esquilos em busca de comida começam
a roer a raiz onde se agarrava. Com o urso em cima, o tigre embaixo e
os esquilos ao lado, o monge avista, ao alcance de sua mão, uma
moita de morangos silvestres com uma fruta bem grande vermelha, madura
e suculenta. Ele come o morango e saboreia dizendo: - ”Que delícia!”
As situações de perda quando vividas em sua plenitude facilitam
o contato com a possibilidade que alivia. A proximidade da dor parece
propiciar o enxergar de um ajustamento criativo. Segundo Cavanellas (1998.
p.14) “ qualquer organismo vivo, tem de crescer e atualizar-se,
ajustando-se criativamente ao meio com o qual se relaciona. Esta é
sua tendência natural, na qual ele se vê implicado com o mundo,
mas na qual muitas vezes também se vê interrompido. Restabelecer
esse fluxo vital encontra-se no cerne da Gestalt-terapia, que resolveu
chamá-lo de awareness , termo que não se faz traduzir bem
por nenhum outro em nossa língua, mas que diz respeito a uma espécie
de consciência organísmica.”
O momento presente como vivicação de possibilidade parece
aplanar a sensação de desequilíbrio, instaurando
um processo de auto-regulação capaz de aliviar tensão
e tornar possível as escolhas. Como gestalt-terapeuta presencio
esse acontecer confiando que é o outro que sabe o que de melhor
tem a fazer. Cavanellas (1998.p.15) diz que: ”O desabrochar se dá
a partir de si mesmo, na direção indicada por seu potencial
criador e único em suas raízes e desenvolvimento pessoal.
O olhar do terapeuta talvez seja a luz em cuja presença torna-se
possível vislumbrar o desvelamento e compreender-lhe o sentido”.
A necessidade de uma estabilidade após cada situação
de perda, experenciada como desequilíbrio, tem me aparecido como
a capacidade do ser humano de fazer, desfazer e refazer, de compor, descompor
e recompor, de lidar com problemas e soluções, de se fragilizar
e se fortalecer, de encontrar caminhos onde não pareciam existir,
de continuar a sentir seu pulsar de vida. Ostrower (2001.p.99) escreve
que: “para o ser humano, o equilíbrio interno não
é um dado fixo. Nem se trata de uma abstração ou
de uma conceituação de um estado ideal. O equilíbrio
é algo que a todo instante precisa ser reconquistado. Trata-se
de um processo vivido, um processo contínuo onde as coisas se propõem
a partir de uma experiência e onde, ao se organizarem os termos
da experiência, já se parte para uma outra experiência,
mais ampla. No fluir da vida, nos sucessivos eventos externos e internos
que nos mobilizam, cada momento de estabilidade é imediatamente
questionado. Cada situação que se vive, cada ação
física ou psíquica, cada emoção e cada pensamento
desequilibra algum estado anterior. ... Esses desequilíbrios em
busca de equilíbrio são inevitáveis. São da
essência do viver. São do nosso crescimento e desenvolvimento.
Integram o conteúdo de nossas experiências, de nossas motivações
e de nossas possibilidades reais. Traduzem para nós a presença
vária de forças desiguais e intercorrentes em nós,
de princípios talvez de oposição, originando ímpetos
vitais que nos impulsionam a agir, a superar os obstáculos, a compreender
e a criar”.
TRANSFORMANDO
PERDA EM SAUDADE
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
Carlos
Drummond de Andrade
Humanos que
somos fugimos das perdas porque elas nos apontam a finitude, o nunca mais.
O homem desenvolve várias maneiras de suavizar as despedidas, das
mais simples nem nos damos conta, não fomos criados para perder.
O paciente com câncer se vê obrigado a descobrir na sua humanidade
a melhor forma de lidar com as perdas que bombardeiam sua vida de uma
maneira inevitável. Elas surgem no aspecto físico, emocional,
social. Não há como fugir nem fingir. As situações
cotidianas se apresentam desorganizadas e precisam ser organizadas. O
cliente traz todo o tempo a sensação da falta, do buraco
deixado por alguma coisa que ali existia e que lhe era familiar. O desejo
de acabar rapidamente com a dor e a necessidade de prosseguir são
os pedidos mais emergentes. É aí que a psicoterapia encontra
o seu lugar como espaço facilitador do reconhecimento da dor que
se apresenta, colaborando para a elaboração das perdas enquanto
processo de vida. Acolher o paciente do jeito que ele pode estar e qualificar
seus sentimentos, certamente, contribui para o estabelecimento de uma
relação sem críticas e sem conselhos; uma relação
autêntica onde nenhum comportamento é esperado; permeada
pela confiança na capacidade que o outro, que está diante
de mim, tem de transformar e alcançar sua melhor ressignificação.
Ribeiro (1998.p.82) afirma que: ”ninguém faz psicoterapia
sem aprender mais sobre si e sobre o ser humano em geral; como ninguém
estuda com afinco qualquer conceituação básica sobre
o ser humano sem se abalar, sem se modificar de alguma forma.”
A crença
na capacidade de transformar do ser humano, criando condições
capazes de sustentar suas experiências de vida, aproximam cliente
e terapeuta e levam ao reconhecimento das etapas desse processo de transformação
criativa. O espaço psicoterápico é: lugar de redimensionamento
do possível do cliente, do aproveitamento do que ele pode ter como
sua melhor escolha, do trabalhar com o tempo imediato, do poder fazer
uma conexão efetiva com o seu tempo interno para que ele possa
se ver onde antes havia um objeto distanciado. Assim, neste Agora vivencial
ele se reconhece. No buraco vazio da falta é possível encontrar
alternativas, a perda é capaz de se ressignificar em saudade, pelo
assumir daquilo que foi vivido e que a “mim” se incorpora.
A insegurança do lidar com o novo se transforma em auto-confiança,
ao descobrir que só ” eu” sou capaz de fazer o meu
caminho e a rejeição se torna auto estima, pela possibilidade
de confirmação do que está sendo sentido.
Enquanto
gestalt-terapeuta, me sensibilizo em poder me sentir acompanhante de um
processo que se dá diante dos meus olhos e que se torna suporte
para escolhas satisfatórias às necessidades apresentadas.
Enquanto ser humano, me engrandeço com a possibilidade de caminhar
em direção à liberdade do transformar, à espontaneidade
do sentir, aceitando limites e limitações, deixando que
o finito se aproxime, que a presença se torne ausência e
que a ausência se faça saudade.
Aos pacientes,
que juntos já caminhamos, e aos que continuam nessa empreitada,
o meu mais profundo reconhecimento por terem contribuído com o
material dessa reflexão e o meu maior respeito pela possibilidade
de transformação com eles vivida.
Aos que se foram a minha saudade e gratidão.
Mas a minha
tristeza é sossego.
Porque é natural e justa.
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Fernando Pessoa
In Guardador de Rebanhos
BIBLIOGRAFIA
Bromberg,M. H. P.F.
(2000). A Psicoterapia em situações de perdas e luto.São
Paulo:Editora Livro Pleno.
Buscaglia,L.(2000).Os
caminhos do Coração. Rio de Janeiro:Sextante.
Cavanellas,L.B. (1998).A
Gestalt Terapia no envio da moderridade – Teoria e técnica
no confronto da dor. Dissertação de Mestrado, Universidade
do Estado Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
Kovács,M.J.
(2002).Morte e desenvolvimento humano. São Paulo:Casa do Psicólogo.
Ostrower,F.(1987).Criatividade
e processos de criação.Petrópolis, Rio de Janeiro:Vozes.
Remen,R.N.(1993).
O Paciente como Ser humano.São Paulo:Summus
Ribeiro,W. (1998).
Existência Essência. São Paulo:Summus.
Yontef,G.M. (1998). Processo,diálogo e awareness. São Paulo:Summus
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