Heidegger
e a Temporalidade
Martin Heidegger,
em sua obra mestra, Ser o Tempo aborda o tema da Temporalidade dividindo-a
em três Ek-stases o Vigor do Ter Sido, o Instante e o Porvir.
O Vigo
do Ter Sido refere-se ao passado; nascemos com uma carga genética
definida mas esta matriz será delineada de acordo com a teia de
acontecimentos que o Ser vivenciar. Digo teia pois nossa vivência
não é livear e cada evento terá um peso na significação
que já se tornará “Vigor do Ter Sido” para a
próxima experiência.
O Porvir é o que está “Por Vir” ainda não
é. É a baliza do Ser, estar voltado a, estar lançado
para... e tudo é futuro.
O Instante é o Presente não com uma latitude ampla. É
o simples momento do agora. Portanto, que quando se o imagina, já
passou porém, já passou porém é a nossa única
forma de agir no mundo. Agora.
Heidegger nos diz que há formas próprias e improprias de
viver a Temporalidade, O Vigor do Ter Sido pode ser simplesmente “atualizado”
tornando o ser uma eterna continuidade em reflexão.
Repetir – Re-petere – Pedir de novo é a forma autêntica
quando sua perspectiva é tão ansiógena que nos projeta
além do instante ou nos arresta no passado.
No Instante podemos falar que reside a única possibilidade real
do Ser – Repetir para Projetar e agir – agora.
Vigor do Ter Sido, Instante, Porvir, didaticamente divididos porém
sempre em contínuo que denota as carcterísticas inextricáveis
do Ser. Estão no mundo no tempo e em relação.
O
Ser em Situação de Crise
Crise –
Em chines a paçavra é formada por dois ideogramas –
Perigo e Oportunidade.
O ser em crise está em perigo, sua integridade, sua sobrevivência,
tal qual a conheceu até hoje, está ameaçada –
O perigo.Mas – a Crise oferece a oportunidade de novos mergulhos
abertura de horizontes que não fosse o Perigo, não ousaríamos
encarar.
A grande questão do homem é sua finitude “Esta certeza
que: Eu sou e que eu vou morrer é a certeza básica e própria
do Dasein. O Maribundus confere sentido ao USM”
Todos nós sabemos com o lado esquerdo do cérebro, que vamos
morrer... um dia. Quando porém nossa emoção, nosso
lado direito presente a real ameaça, a finitude, tudo muda de figura.
É a crise, o perigo e a oportunidade.
Um assalto, um sequestro, um furacão, uma doença grave são
momentos típicos de crise. O câncer é, certamente,
uma delas como disse Maurício Magalhães Costa eminete Mastologista
e professor da UFRJ. “O problema do câncer nã é
a doença. O diagnóstico”. O que ele quis dizer com
isto: No exato momento que alguém ouve o veredicto “É
câncer” toda a pespectiva de vida se desfoca.
O que tinhamos
como favas contadas se esvai como num saco esburacado.
Não há como remendar o pano. A consciência é
um caminho sem volta!
Tudo muda, uma ressignificação do cotidiano se instala com
as prescrições inúmeras e detalhadas dos tratamentos.
E o Ser de-repente está em suspenso não se argitra mais.
Há uma vida mais potente que a própria vida voraz e rápida
destruindo o Ser.
Dasein
Típico do Paciente Oncológico
Vários
autores entre eles Le Shan, Simonton, Spiege, Fawzy vêm tentando
delinear um tipo de personalidade propensa ao câncer.
Hoje conhecedores de alguns marcadores genéticos como os gens supressores
de tumor BRCA 1 e BRCA2 (Breast Cancer), podemos avaliar o risco de mulheres
desenvolverem um câncer de mama caso tais marcadores estejam alterados.
Outros fatores predisponentes são do conhecimento público
tais como, vida sedentária, tabagismo, consumo de álcool,
alimentação rica em gorduras, obesidade, poluíções
várias e manejo do stress.
Cumpre notar que vários autores se remetem a algumas características
básicas da personalidade da pessoa que desenvolve um câncer.
Anotar: Alienação de si.
Vitimização
Vida sem vida
Vida de outra vida
Falte de um projeto próprio de vida
Perdas sem luto ou não ressignificadas
Poderíamos
aqui nos alongar sobre a forma de manejo das demandas ao Ser pois há
toda uma tese sobre o câncer e o enfrentamento do stress.
Porém o nosso tema é a Temporalidade e esse sujeito que
acabamos de definir como propenso ao câncer por alguns traços
de personalidade vive no tempo de forma inautêntica.
O vigos do Ter sido é sua prisão, não há ressignificação,
ou alternativa.
Ou Porvir é imperioso como uma eterna ameaça. Como projetar-se
a um futuro se não há projeto próprio?
Tal ser não tem Instante vive assolado pelo que já foi e
pelo que será. Autonomia, autodeterminação lhe são
parâmetros desconhecidos.
A
vivência Inautêntica da Temporalidade do Paciente Oncológico
no Decorrer do Tratamento.
O
Instante como única Ek-stase
Se o passado,
o Vigor do Ter Sido, me abriu a possibilidade do câncer ele nãome
resgata nem ajuda.
Se o juturo, é incerto pois não sei se vou me recuperar
onde o Porvir?
Sem estas duas possibilidades só resta viver o Instante.
O paciente oncológico contrariando a máxima da fenomenologia
de Husserl que afirma que o Ser está no centro do processo do conhecimento,
outorga à equipe de saúde o domínio sobre sua existência.
Vive cada momento como se a vida estivesse em suspenso cumprindo a litania
de exames, cirurgia, resultado anátomo-patológico, quimioterapia,
radioterapia, tratamentos homonais etc.
Os tratamentos são terríveis acarretam sintomas colateriais
muitas vezes incapacitantes.
Há que se mencionar as limintações impostas por cirutgias
mutiladoras, perda de força laboral, estigma da doença,
dificuldades familiares, financeiras e sociais além da provável
alteração ou anulação da sexualidade.
O paciente oncológico, alivia sua dor legando à equipe de
saúde sua autonomia. Vive em função de uma visita
médica, de um exame da hora do remédio.
Precisa da ilusão “estou totalmente cuidado”agora no
Instante.
Desta forma vai organizando sua estratégia de enfrentamento das
demandas pesadas que a doença impõe.
Mais uma vez notamos a inautenticidade não mais no encarceramento
do Vigor do Ter Sido ou do Porvir mas no Instante delegado ao outro ao
cuidar que decide o que é preciso fazer, muitas vezes encontramos
o paciente enfrentando as demandas do tratamento com profundo estoicismo;
mas nem sempre a atitude de “luta” é a mais benéfica
para o resultado do tratamento e o futuro curso da doença;
Na maior parte das vezes atrás do estaoicimo encontra-se a atitude
de barganha “Se eu fizer tudo direitinho nada me acontecerá”.
Normalmente a crença está fora de si próprio não
há garantias, o pensamento mágico ou a espiritualidade marcantil
nada prometem.
Quando o
final do tratamento se aproxima há outra crise. É o momento
de um reposicionamento.
O Ser se recoloca reinsere no mundo e as três Ek-stases se lhe impõe.
Passado, Presente e Futuro.
Tenho uma vida vivida; familia, trabalho, amigos a re-assumir.
Tenho um futuro a viver. Retomar um projeto.
Como cuidar eu de mim mesmo? E logo agora carregando na bagagem a experiência
de um câncer!
É
um momento de fragilidade e angústia que intriga o sujeito e sua
família.
Não surpreende porém a equipe de saúde e principalmente
o Psico-oncologista que sabe que o momento da alta é talvez o mais
delicado.
O paciente, geralmente com uma atitude passiva diante da vida, está
novamente só. O tratamento terminoou, agora é viver...!
Voltando a Heidegger sempre há uma forma própria e uma imprópria
de viver. Na forma imprópria o Ser vivencia a doença etiquetada
em sua testa intitulando-se “ex-paciente de câncer.”
O Vigor do Ter Sido volta a ser sua prisão. Depressão e
vitimizaçã “Como vou viver, a idéia do câncer
me aterrorizar!”
O Instante é vivido com extrema cautela. O Ser torna-se uma estátua
de cristal finíssimo passível de ruína a qualquer
movimento mais brusco.
A espontaneidade é totalmente perdida.
O Por vir. Não vou planejar pois posso não alcançá-lo.
Sem projeto de vida mais uma vez estagnada se encontra esta existência.
Porém se o perigo da crise ofereceu oportunidades, o confronto
com a finitude deu a perceber ao Ser a oportunidade vital . Pode ser que
ele ressignifique ampla e profundamente sua vida.
Embora vivendo e que chamo de “Síndrome da Espada de Dâmocles”
constrói seu viver sob a égide da autencidade. Valoriza
a vida, o bem estar, volta-se para valores mais simples, porém
mais verdadeiros; xonsegue pedir ao passado referências para reconstruir
seu futuro agindo no agora (que é a única coisa que podemos
fazer!)
É a vivência do tempo mostrando-se da forma mais autêntica.
A grande característica favorável já comprovada em
inúmeras pesquisas é a esperança. Quem cumpre o tratamento
porque acredita que vai ficar bom tem maiores chances de não ter
um recidiva.
A esperança é própria do ser que se apodera do seu
destino e decide que vale a pena viver.
Sem dor, com conforto físico e um mínimo de dignidade já
vi pacientes termináis seremosn, em paz consigo mesmo e aproveitando
a vida que lhes resta.
Afinal qual de nós sabe quando vai morrer?
K.Block resume o que dissemos em sua frase. “ As pessoas que escolhem
a esperança e uma vida significativa nada tem a perder; só
a morte...”
Gostaria de finalizar
concluidno que a minha experiência como Psico-oncologista me autorizou
a afirmar categoricamente que a vida não se mede em comprimento
mais em largura...
Nota
1
A lenda da mitologia Grega diz eu Dâmocles um guerreiro, desafiou
seu rei dizendo que ser monarca era fácil pois ficava sentado em
seu trono deliberando ofuturo de seus súditos.
O rei propôs a Dâmocles que trocasse de lugar com ele por
um dia.
Dâmocles ocupou o lugar do rei mas percebeu que uma espada havia
sido pendurada logo acima de sua cabeça.
O rei assim o fez para lembrá-lo da responsabilidade que o poder
real encerrava. Tal qual
Dâmocles o paciente oncológico sente a recidiva da doença
como sua espada, em equilíbrio instável sobre si.
Responsabilizar-se pro seus atos e vivê-los autênticamente
é o que propiciará coragem para viver sem ser inundado pelo
medo paralisador da morte.
Referências
Bibliográficas:
1. Fawzy I, Fawzy.
– Psychosocial Interventions, Internet Chats- Roons, Problem Solving,
Region and Coping – Par Amerian Congress of Psychosocial Behavioral
Oncology N. York 1999.
2. Heidegger M. – Ser e Tempo. Tomo I e II vozes Petrópoles
1989.
3. Heidegger M. – History of the Concept of Time-Prolegomena –
Indiana University Press USA 1992.
4. Le Shan L. – O cancer como Ponto de Mutação.
Summus Editorial – SP – 1992.
5. Simonton C. – Com a vida de Novo.
Summus Editorial – SP – 1987.
6. Spiegel D. – Group Therapy for Primary Breast Câncer Patientes.
Pan Americam Congress of Psychosocia e Behavioral Oncology N. York 1999
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