Sobre o Viver e o Morrer
E qual o lugar da Psico-Oncologia
 
Luciana Bicalho Cavanellas

"É preciso prezar a coragem das sementes.
Apodrecer para inaugurar o fruto."
(Queirós, 2001)

 

Trata-se de tema difícil, pois que falar da morte nunca é tarefa fácil. Ainda mais em tempos de guerra! Guerra contra esta que ameaça, aterroriza e faz sofrer, pois que aponta para o escuro caminho do desconhecido.

Afinal, vivemos em nossa história um período de conhecimentos e não toleramos o não-saber, a dúvida, o risco. Lutemos pois contra esta que ainda se atreve a escapar e não se deixar comandar.

"Morte à morte!" - gritamos, sem nos darmos conta do absurdo projeto ao qual nos filiamos. E como um exército disciplinado, seguimos repetindo que ela não irá nos vencer!

Somos médicos, cientistas, agentes de saúde, intelectuais, mas humanos. Lançamo-nos ou fomos lançados neste mundo mortal, mas guardamos a nostalgia dos tempos de eternidade e intimamente não nos conformamos.

Queremos o útero, o paraíso, a imortalidade de volta, mas nos esquecemos do caminho e este é o preço de nossa liberdade.

"Os carajás têm um mito fantástico.[...] Segundo seu relato, o Criador os fez imortais. Eles viviam como peixes na água, nos rios, nos lagos. Não conheciam o sol, a lua, as estrelas, nada, apenas as águas. No fundo de cada rio onde estavam havia sempre um buraco de onde saía uma luz com grande intensidade. E este era o preceito do Criador: 'Vocês não podem entrar neste buraco, senão perderão a imortalidade.' Eles circundavam o buraco, deixando-se iluminar com as cores e sua luz, mas respeitavam o preceito, apesar de ser grande a tentação. 'O que tem lá dentro?'
Até que um dia, um carajá afoito se meteu pelo buraco adentro. E caiu nas praias esplêndidas do rio Araguaia. [...] Ficou maravilhado. Viu o sol, pássaros, paisagens soberbas, flores, borboletas. Por onde dirigia o olhar ficava cada vez mais boquiaberto. E quando chegou o entardecer e o sol sumiu, pensou em voltar para os irmãos. Mas aí apareceram a lua e as estrelas. Ficou ainda mais embasbacado e passou a noite se admirando da grandiosidade do universo.
E quando pensou que já ia avançado na noite, o sol começou a despontar. Ao lembrar-se dos irmãos, ele retornou pelo buraco. Reuniu todos e contou: 'Irmãos e irmãs, vi uma coisa extraordinária, que vocês não podem imaginar.' E descreveu sua experiência. Aí todos queriam passar pelo buraco luminoso. Então os sábios disseram: 'Mas o Criador é tão bondoso conosco, nos deu a imortalidade, vamos consultá-Lo. [...] 'Pai, deixe-nos passar pelo buraco. É tão extraordinária aquela realidade que nosso irmão afoito nos descreveu.' E o Criador, com certa tristeza, respondeu: 'Realmente é uma realidade esplêndida. [...] Vocês podem ir para lá, mas há um preço a pagar. Vocês perderão a imortalidade.'
Todos se entreolharam e se voltaram para o carajá afoito que primeiro violara o preceito. E decidiram passar pelo buraco, renunciando à imortalidade. A divindade então lhes disse: 'Eu respeito a decisão que tomaram. Vocês terão experiências fantásticas de beleza, de grandiosidade, mas tudo será efêmero. Tudo vai nascer, crescer, madurar, decair e por fim morrer. Vocês participarão deste ciclo. É isso que querem?' E todos unanimemente afirmaram: 'Queremos'. E foram.
Cometeram o ato de suprema coragem para terem a liberdade de viver a experiência da transcendência. Renunciaram à vitalidade perene, renunciaram à imortalidade. E até hoje estão lá, os carajás, naquelas praias lindíssimas. Se um dia vocês forem visitá-los, vão encontrá-los rolando nas areias, mergulhando nas águas muito verdes, mas profundamente livres. Talvez seja a cultura que mais aprecia a liberdade.
Esta passagem é a transcendência que revela a grandiosidade do ser humano, mas também sua dramaticidade, pois ele deve morrer tendo sempre o desejo de viver." ( Boff, 2000)

Portanto, precisamos cuidar de nosso drama. O drama do entrelaçamento entre a vida-e-a-morte; de podermos ser mortais em vida e ser vivos na morte. De não nos abandonarmos nesta separação, que ao nos distanciar da morte, compromete-nos a vida. Vivemos então fugindo mesmo das pequenas perdas, pois que nos remetem à perda maior. E, assim, com medo e hesitação, disfarçamo-nos de coragem e segurança, armados e defendidos.

Estamos sempre alertas a qualquer sinal de dor e corremos para aplacá-lo, mas somos sempre surpreendidos e, incrivelmente, não aprendemos. Continuamos iludidos, perdidos em nossas certezas, ausentes de nossas verdades.

Construimos castelos de conhecimentos e nos aprisionamos à espreita do inimigo. Cercamos território, fortalecemos a guarda, equipamo-nos de tecnologia, mas, estranhamente, entristecemos e adoecemos. E descobrimos não saber cuidar de nossas tristezas e fastio.

Ainda assim não nos permitimos parar. Precisamos de alguém ou algo que nos remova deste estado lastimável e movemos céus e terra para descobrir o elixir da cura. A Ciência há de nos salvar!

Nesta luta não toleramos fracassos e a força acaba por nos oprimir e derrubar.
Esquecemos de nossa origem e fragilizamo-nos nesta luta, que ao desejar vida, grita pelo extermínio da morte. Impotentes, vestimo-nos de prepotência e mascaramos nossa real potência.

" Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não
[desmenti e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido." (Pessoa, F. Tabacaria)

O que somos senão crianças à procura do conforto e da proteção há muito perdidos?
Mas não nos admitimos como tais e apegamo-nos então àquilo que em nossa sociedade e cultura vem servindo de substituta aplacadora de nossas carências: a verdade científica como Grande Mãe.

Eis que chamam-nos cientistas e nos orgulhamos desta inclusão. Trabalhamos para isso e alcançamos este lugar. É legítimo o reconhecimento. Podemos realmente ajudar! (Será?)
No entanto, também a ela, imponente ciência, chega o inverno e o tempo das doenças, das fraquezas, da velhice. Quem é que pode escapar?

Frágil e confusa, reconhece descaminhos em sua história, expondo-se às críticas e questionamentos; pelo menos naquilo em que não lhe foi possível obter sucesso. Enfim, ainda que resistente, admite na sabedoria da maturidade a arrogância da juventude. Por que não nós, então, nos permitirmos também avaliar?

Quem pretendemos ser, neste percurso de dor exposta ou velada que nos oferecem a curar? Doutores, salvadores, políticos promissores? Pois é o que muito se vê no exercício da clínica em geral.

Também nós precisamos nos enxergar em nosso andar trôpego e deambulante. Também nós precisamos de ajuda para nos superar e ultrapassar frequentes dificuldades, que ao olhar o outro nos falam à alma.

A razão vem nos socorrer e dar explicações reconfortantes e aliviadoras, mas quando se "vê", já se perdeu a visão.

Estamos tratando aqui de nossas responsabilidades frente ao outro, de como e com o que nos comprometemos. "A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam." (Saramago,1995).

Qual é a nossa cegueira e qual a nossa luz? E se, como no livro de Saramago Ensaio Sobre a Cegueira, a cegueira se manifestar não como escuridão, mas como visão de uma intensa luz branca que a tudo se sobrepõe, não deixando mais nada à vista?

O que restaria àqueles que ainda enxergam, sabendo do risco de também serem facilmente contagiados? O que há para ver e resgatar?

É a consciência mesma de tênue e frágil condição que nos pode libertar de tamanho risco de contaminação. Este a que estamos expostos diariamente pelo avanço da tecnologia como controle e tentativa de infinitude, dando ao homem a ilusão do poder de dominação.
Mas a morte, assim como a cegueira, mantém-se viva! Distante de ser vencida, ri-se de nós sofredores cegos e onipotentes em nossa própria incompreensão.

É preciso voltar e refazer o caminho. Afinal onde foi que nos perdemos?

Se nos propomos a olhar pelo outro, é fundamental resgatarmo-nos naquela bifurcação em que nos separamos de nossa própria natureza. É incrível que ainda tenhamos conseguido caminhar tanto! Mas já nos cansamos de tamanha sobrecarga; carga falsa que pesa sem nos adiantar. Buscamos agora o alívio, a fonte, a verdade, mas teremos que abrir mão das certezas.

"As verdades admitem que existam em oposição a elas outras verdades. A certeza, no entanto, é ditatorial. A primeira diz respeito à busca humana, a segunda ao desejo, profundamente arraigado em nós, de controle. [...] a verdade é um absoluto que é relativo, um irrestrito que é restrito, ou uma dúvida que é mais adequada e responde mais do que uma certeza." ( Bonder, 2001)

Neste cenário moderno e contemporâneo, marcado pela dominação técnica, as ciências humanas - apesar de "humanas" - permanecem no paradigma racional-científico e parecem enxergar nele o único meio de reconhecimento e seriedade.

A Psicologia não foge à regra e segue altiva e com ares de independência, mas ainda apoiada na paradoxal relação com o conhecido e estabelecido modelo médico; ora tentando denegrí-lo e diferenciar-se dele, ora aliando-se e compactuando com seus esquemas e formas de conceber o homem.

Em meio a essa delicada relação entre médicos e psicólogos, sustentados por seus arcabouços teóricos e técnicos, eis que surge a Psico-oncologia, com a árdua tarefa de intermediar estas partes, sem perder de vista o verdadeiro motivo pelo qual se originou: o paciente oncológico.

O que se pretende é melhor focalizar o universo específico que se descortina com o câncer e que traz tanta dor e sofrimento a seus portadores e familiares. Um sofrimento tanto mais agravado pela presença avizinhadora da morte; antes uma realidade inexorável, hoje uma possibilidade adiada.

"[,,,] hoje a interface Psicologia-Oncologia traz à tona uma preocupação mais ampla: a qualidade de vida da pessoa com câncer." ( Gimenes, 1994)

Mas como exorcizar um fantasma que teima em nos assombrar? Um fantasma vestido de finitude, incansável em nos lembrar o que mais queremos esquecer: que nosso tempo pode acabar.

Após inúmeras e incontáveis batalhas, resta-nos apaziguar-nos e cuidar do que nos é agora precioso: o tempo que ainda temos. Tempo para viver e viver de verdade. Tempo para encontros e re-encontros, para simplicidades, para tristezas alegres e alegrias tristes, para o medo e para a coragem, para a nossa complexidade, para o cuidado, a ternura e a vontade. Tempo da relatividade...

"A doença não elimina obrigatoriamente as metas e a vontade do paciente, que pode aproveitar esse período para fazer uma revisão de vida e um balanço de prioridades criando novos significados. [...]

O processo psicoterápico não tem como objetivo a cura ou o prolongamento da vida, nem tampouco amansar o paciente, e sim a abertura de um espaço para o paciente poder falar daquilo que tiver necessidade; a ênfase está na qualidade e na ressignificação da vida" ( Kovács, 1994)

E aí, mais uma vez a morte nos traz de volta à vida, porque ainda que afetados por momentos tão contundentes, estamos sentados em nossas convicções e dúvidas, em nossas armadilhas e armaduras e, na pele de psicólogos e terapeutas, também somos pessoas à procura de si mesmas.

"Eu tenho uma dor de vidro quebrado dentro de mim", diz
a poeta.

Como intento então juntar os cacos de outrem?

Mas não será mesmo por isso? Porque unidos estamos pelo fio de nossa humanidade em tudo que de desumano também ela nos apresenta?

O que buscam, em última análise, as pessoas que nos procuram em nossos consultórios particulares ou públicos? Alívio de sintomas? Conselhos? Cura?

Se assim for, podemos nos responsabilizar por oferecer-lhes o que procuram?

O que fazemos quando as portas se fecham e restam duas pessoas com seus medos e esperanças, tragédias e heroísmos, vergonhas e ultrapassamentos, frente a frente a olharem-se nos olhos e deixarem-se desvelar, de forma mais ou menos velada? Como nos diferenciamos de nossos pacientes/clientes e "assumimos" a condução e administração deste tempo singular que ora voa, ora não quer passar?

Com o que estamos comprometidos ao abrirmos nossas portas e convidarmos alguém a entrar?

Finalmente o que pensamos de uma sociedade que cria "especialistas" em "ouvir"? Mas também em dizer coisas?

"Histórias verdadeiras levam tempo. Paramos de contar histórias quando começamos a não mais dispor desse tipo de tempo, do tempo para parar, refletir, maravilhar-se. A vida nos impele e poucas pessoas são fortes o bastante para se deterem sozinhas. Na maior parte das vezes alguma coisa imprevista nos faz parar, e só então temos tempo para nos sentarmos à mesa da cozinha da vida. Para conhecermos nossa história, e contá-la. Para ouvir as histórias de outras pessoas. [...] Quando não temos tempo para ouvir as histórias uns dos outros, procuramos especialistas para nos ensinar a viver." (Remen, 1998)

Também nós queremos aprender a viver ...

Tenhamos pois coragem de ser fracos e sejamos sábios de nossa ignorância. Assim, saberemos de novo quem somos e qual é a nossa genuína natureza. Lembraremos de ter esperança e estaremos abertos para desfrutar a alegria.

" O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem - uma corda sobre o abismo.

Perigosa travessia, perigoso percurso, perigoso olhar para trás, perigoso tremor e paralisação.

A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.

Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem.

Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente, e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem."
(Nietzsche, 1883)

Bibliografia

- Boff,L.(2001). Espiritualidade. Rio de Janeiro: Sextante.
- --------.(2000). Tempo de Transcendência. Rio de Janeiro: Sextante.
- Bonder, N. (2001). Fronteiras da Inteligência. Rio de Janeiro: Campus.
- Bromberg,M.H.P.F.(2000). A Psicoterapia em situações de perdas e luto. São Paulo: Livro Pleno.
- Carvalho, M.M.M.J. <coord.> (1994). Introdução à Psiconcologia. São Paulo: Editorial Psy.
- Fonseca, A.H.L.(1995). De Como Psicólogos e Psicoterapeutas Descobrem a Fenomenologia e o Existencialismo. Maceió: texto sob revisão.
- Keleman,S.(1997). Viver o Seu Morrer. São Paulo:Summus.
- Marcondes, D.(1999). Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- Pessoa,F.(1993). Poesias de Álvaro de Campos. São Paulo: Martins Fontes.
- Prado, A.(1999). Oráculos de Maio. São Paulo: Siciliano.
- Queirós, B.C. (2001). Flora. Belo Horizonte: Miguilim.



 
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