Trata-se
de tema difícil, pois que falar da morte nunca é tarefa
fácil. Ainda mais em tempos de guerra! Guerra contra esta que ameaça,
aterroriza e faz sofrer, pois que aponta para o escuro caminho do desconhecido.
Afinal, vivemos em nossa história um período de conhecimentos
e não toleramos o não-saber, a dúvida, o risco. Lutemos
pois contra esta que ainda se atreve a escapar e não se deixar
comandar.
"Morte à morte!" - gritamos, sem nos darmos conta do
absurdo projeto ao qual nos filiamos. E como um exército disciplinado,
seguimos repetindo que ela não irá nos vencer!
Somos médicos, cientistas, agentes de saúde, intelectuais,
mas humanos. Lançamo-nos ou fomos lançados neste mundo mortal,
mas guardamos a nostalgia dos tempos de eternidade e intimamente não
nos conformamos.
Queremos o útero, o paraíso, a imortalidade de volta, mas
nos esquecemos do caminho e este é o preço de nossa liberdade.
"Os
carajás têm um mito fantástico.[...] Segundo seu relato,
o Criador os fez imortais. Eles viviam como peixes na água, nos
rios, nos lagos. Não conheciam o sol, a lua, as estrelas, nada,
apenas as águas. No fundo de cada rio onde estavam havia sempre
um buraco de onde saía uma luz com grande intensidade. E este era
o preceito do Criador: 'Vocês não podem entrar neste buraco,
senão perderão a imortalidade.' Eles circundavam o buraco,
deixando-se iluminar com as cores e sua luz, mas respeitavam o preceito,
apesar de ser grande a tentação. 'O que tem lá dentro?'
Até que um dia, um carajá afoito se meteu pelo buraco adentro.
E caiu nas praias esplêndidas do rio Araguaia. [...] Ficou maravilhado.
Viu o sol, pássaros, paisagens soberbas, flores, borboletas. Por
onde dirigia o olhar ficava cada vez mais boquiaberto. E quando chegou
o entardecer e o sol sumiu, pensou em voltar para os irmãos. Mas
aí apareceram a lua e as estrelas. Ficou ainda mais embasbacado
e passou a noite se admirando da grandiosidade do universo.
E quando pensou que já ia avançado na noite, o sol começou
a despontar. Ao lembrar-se dos irmãos, ele retornou pelo buraco.
Reuniu todos e contou: 'Irmãos e irmãs, vi uma coisa extraordinária,
que vocês não podem imaginar.' E descreveu sua experiência.
Aí todos queriam passar pelo buraco luminoso. Então os sábios
disseram: 'Mas o Criador é tão bondoso conosco, nos deu
a imortalidade, vamos consultá-Lo. [...] 'Pai, deixe-nos passar
pelo buraco. É tão extraordinária aquela realidade
que nosso irmão afoito nos descreveu.' E o Criador, com certa tristeza,
respondeu: 'Realmente é uma realidade esplêndida. [...] Vocês
podem ir para lá, mas há um preço a pagar. Vocês
perderão a imortalidade.'
Todos se entreolharam e se voltaram para o carajá afoito que primeiro
violara o preceito. E decidiram passar pelo buraco, renunciando à
imortalidade. A divindade então lhes disse: 'Eu respeito a decisão
que tomaram. Vocês terão experiências fantásticas
de beleza, de grandiosidade, mas tudo será efêmero. Tudo
vai nascer, crescer, madurar, decair e por fim morrer. Vocês participarão
deste ciclo. É isso que querem?' E todos unanimemente afirmaram:
'Queremos'. E foram.
Cometeram o ato de suprema coragem para terem a liberdade de viver a experiência
da transcendência. Renunciaram à vitalidade perene, renunciaram
à imortalidade. E até hoje estão lá, os carajás,
naquelas praias lindíssimas. Se um dia vocês forem visitá-los,
vão encontrá-los rolando nas areias, mergulhando nas águas
muito verdes, mas profundamente livres. Talvez seja a cultura que mais
aprecia a liberdade.
Esta passagem é a transcendência que revela a grandiosidade
do ser humano, mas também sua dramaticidade, pois ele deve morrer
tendo sempre o desejo de viver." ( Boff, 2000)
Portanto,
precisamos cuidar de nosso drama. O drama do entrelaçamento entre
a vida-e-a-morte; de podermos ser mortais em vida e ser vivos na morte.
De não nos abandonarmos nesta separação, que ao nos
distanciar da morte, compromete-nos a vida. Vivemos então fugindo
mesmo das pequenas perdas, pois que nos remetem à perda maior.
E, assim, com medo e hesitação, disfarçamo-nos de
coragem e segurança, armados e defendidos.
Estamos sempre alertas a qualquer sinal de dor e corremos para aplacá-lo,
mas somos sempre surpreendidos e, incrivelmente, não aprendemos.
Continuamos iludidos, perdidos em nossas certezas, ausentes de nossas
verdades.
Construimos castelos de conhecimentos e nos aprisionamos à espreita
do inimigo. Cercamos território, fortalecemos a guarda, equipamo-nos
de tecnologia, mas, estranhamente, entristecemos e adoecemos. E descobrimos
não saber cuidar de nossas tristezas e fastio.
Ainda assim não nos permitimos parar. Precisamos de alguém
ou algo que nos remova deste estado lastimável e movemos céus
e terra para descobrir o elixir da cura. A Ciência há de
nos salvar!
Nesta luta não toleramos fracassos e a força acaba por nos
oprimir e derrubar.
Esquecemos de nossa origem e fragilizamo-nos nesta luta, que ao desejar
vida, grita pelo extermínio da morte. Impotentes, vestimo-nos de
prepotência e mascaramos nossa real potência.
" Fiz
de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não
[desmenti e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido." (Pessoa, F. Tabacaria)
O que somos
senão crianças à procura do conforto e da proteção
há muito perdidos?
Mas não nos admitimos como tais e apegamo-nos então àquilo
que em nossa sociedade e cultura vem servindo de substituta aplacadora
de nossas carências: a verdade científica como Grande Mãe.
Eis que chamam-nos cientistas e nos orgulhamos desta inclusão.
Trabalhamos para isso e alcançamos este lugar. É legítimo
o reconhecimento. Podemos realmente ajudar! (Será?)
No entanto, também a ela, imponente ciência, chega o inverno
e o tempo das doenças, das fraquezas, da velhice. Quem é
que pode escapar?
Frágil e confusa, reconhece descaminhos em sua história,
expondo-se às críticas e questionamentos; pelo menos naquilo
em que não lhe foi possível obter sucesso. Enfim, ainda
que resistente, admite na sabedoria da maturidade a arrogância da
juventude. Por que não nós, então, nos permitirmos
também avaliar?
Quem pretendemos ser, neste percurso de dor exposta ou velada que nos
oferecem a curar? Doutores, salvadores, políticos promissores?
Pois é o que muito se vê no exercício da clínica
em geral.
Também nós precisamos nos enxergar em nosso andar trôpego
e deambulante. Também nós precisamos de ajuda para nos superar
e ultrapassar frequentes dificuldades, que ao olhar o outro nos falam
à alma.
A razão vem nos socorrer e dar explicações reconfortantes
e aliviadoras, mas quando se "vê", já se perdeu
a visão.
Estamos tratando aqui de nossas responsabilidades frente ao outro, de
como e com o que nos comprometemos. "A responsabilidade de ter olhos
quando os outros os perderam." (Saramago,1995).
Qual é a nossa cegueira e qual a nossa luz? E se, como no livro
de Saramago Ensaio Sobre a Cegueira, a cegueira se manifestar não
como escuridão, mas como visão de uma intensa luz branca
que a tudo se sobrepõe, não deixando mais nada à
vista?
O que restaria àqueles que ainda enxergam, sabendo do risco de
também serem facilmente contagiados? O que há para ver e
resgatar?
É a consciência mesma de tênue e frágil condição
que nos pode libertar de tamanho risco de contaminação.
Este a que estamos expostos diariamente pelo avanço da tecnologia
como controle e tentativa de infinitude, dando ao homem a ilusão
do poder de dominação.
Mas a morte, assim como a cegueira, mantém-se viva! Distante de
ser vencida, ri-se de nós sofredores cegos e onipotentes em nossa
própria incompreensão.
É preciso voltar e refazer o caminho. Afinal onde foi que nos perdemos?
Se nos propomos a olhar pelo outro, é fundamental resgatarmo-nos
naquela bifurcação em que nos separamos de nossa própria
natureza. É incrível que ainda tenhamos conseguido caminhar
tanto! Mas já nos cansamos de tamanha sobrecarga; carga falsa que
pesa sem nos adiantar. Buscamos agora o alívio, a fonte, a verdade,
mas teremos que abrir mão das certezas.
"As
verdades admitem que existam em oposição a elas outras verdades.
A certeza, no entanto, é ditatorial. A primeira diz respeito à
busca humana, a segunda ao desejo, profundamente arraigado em nós,
de controle. [...] a verdade é um absoluto que é relativo,
um irrestrito que é restrito, ou uma dúvida que é
mais adequada e responde mais do que uma certeza." ( Bonder, 2001)
Neste cenário moderno e contemporâneo, marcado pela dominação
técnica, as ciências humanas - apesar de "humanas"
- permanecem no paradigma racional-científico e parecem enxergar
nele o único meio de reconhecimento e seriedade.
A Psicologia não foge à regra e segue altiva e com ares
de independência, mas ainda apoiada na paradoxal relação
com o conhecido e estabelecido modelo médico; ora tentando denegrí-lo
e diferenciar-se dele, ora aliando-se e compactuando com seus esquemas
e formas de conceber o homem.
Em meio a essa delicada relação entre médicos e psicólogos,
sustentados por seus arcabouços teóricos e técnicos,
eis que surge a Psico-oncologia, com a árdua tarefa de intermediar
estas partes, sem perder de vista o verdadeiro motivo pelo qual se originou:
o paciente oncológico.
O que se pretende é melhor focalizar o universo específico
que se descortina com o câncer e que traz tanta dor e sofrimento
a seus portadores e familiares. Um sofrimento tanto mais agravado pela
presença avizinhadora da morte; antes uma realidade inexorável,
hoje uma possibilidade adiada.
"[,,,] hoje a
interface Psicologia-Oncologia traz à tona uma preocupação
mais ampla: a qualidade de vida da pessoa com câncer." ( Gimenes,
1994)
Mas como
exorcizar um fantasma que teima em nos assombrar? Um fantasma vestido
de finitude, incansável em nos lembrar o que mais queremos esquecer:
que nosso tempo pode acabar.
Após inúmeras e incontáveis batalhas, resta-nos apaziguar-nos
e cuidar do que nos é agora precioso: o tempo que ainda temos.
Tempo para viver e viver de verdade. Tempo para encontros e re-encontros,
para simplicidades, para tristezas alegres e alegrias tristes, para o
medo e para a coragem, para a nossa complexidade, para o cuidado, a ternura
e a vontade. Tempo da relatividade...
"A doença
não elimina obrigatoriamente as metas e a vontade do paciente,
que pode aproveitar esse período para fazer uma revisão
de vida e um balanço de prioridades criando novos significados.
[...]
O processo psicoterápico não tem como objetivo a cura ou
o prolongamento da vida, nem tampouco amansar o paciente, e sim a abertura
de um espaço para o paciente poder falar daquilo que tiver necessidade;
a ênfase está na qualidade e na ressignificação
da vida" ( Kovács, 1994)
E aí, mais
uma vez a morte nos traz de volta à vida, porque ainda que afetados
por momentos tão contundentes, estamos sentados em nossas convicções
e dúvidas, em nossas armadilhas e armaduras e, na pele de psicólogos
e terapeutas, também somos pessoas à procura de si mesmas.
"Eu
tenho uma dor de vidro quebrado dentro de mim", diz
a poeta.
Como intento então juntar os cacos de outrem?
Mas não será mesmo por isso? Porque unidos estamos pelo
fio de nossa humanidade em tudo que de desumano também ela nos
apresenta?
O que buscam, em última análise, as pessoas que nos procuram
em nossos consultórios particulares ou públicos? Alívio
de sintomas? Conselhos? Cura?
Se assim for, podemos nos responsabilizar por oferecer-lhes o que procuram?
O que fazemos quando as portas se fecham e restam duas pessoas com seus
medos e esperanças, tragédias e heroísmos, vergonhas
e ultrapassamentos, frente a frente a olharem-se nos olhos e deixarem-se
desvelar, de forma mais ou menos velada? Como nos diferenciamos de nossos
pacientes/clientes e "assumimos" a condução e
administração deste tempo singular que ora voa, ora não
quer passar?
Com o que estamos comprometidos ao abrirmos nossas portas e convidarmos
alguém a entrar?
Finalmente o que pensamos de uma sociedade que cria "especialistas"
em "ouvir"? Mas também em dizer coisas?
"Histórias
verdadeiras levam tempo. Paramos de contar histórias quando começamos
a não mais dispor desse tipo de tempo, do tempo para parar, refletir,
maravilhar-se. A vida nos impele e poucas pessoas são fortes o
bastante para se deterem sozinhas. Na maior parte das vezes alguma coisa
imprevista nos faz parar, e só então temos tempo para nos
sentarmos à mesa da cozinha da vida. Para conhecermos nossa história,
e contá-la. Para ouvir as histórias de outras pessoas. [...]
Quando não temos tempo para ouvir as histórias uns dos outros,
procuramos especialistas para nos ensinar a viver." (Remen, 1998)
Também
nós queremos aprender a viver ...
Tenhamos pois coragem de ser fracos e sejamos sábios de nossa ignorância.
Assim, saberemos de novo quem somos e qual é a nossa genuína
natureza. Lembraremos de ter esperança e estaremos abertos para
desfrutar a alegria.
" O
homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem - uma
corda sobre o abismo.
Perigosa travessia, perigoso percurso, perigoso olhar para trás,
perigoso tremor e paralisação.
A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que
nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição
e declínio.
Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os
que transpõem.
Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente,
e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem."
(Nietzsche, 1883)
Bibliografia
- Boff,L.(2001). Espiritualidade.
Rio de Janeiro: Sextante.
- --------.(2000). Tempo de Transcendência. Rio de Janeiro: Sextante.
- Bonder, N. (2001). Fronteiras da Inteligência. Rio de Janeiro:
Campus.
- Bromberg,M.H.P.F.(2000). A Psicoterapia em situações de
perdas e luto. São Paulo: Livro Pleno.
- Carvalho, M.M.M.J. <coord.> (1994). Introdução à
Psiconcologia. São Paulo: Editorial Psy.
- Fonseca, A.H.L.(1995). De Como Psicólogos e Psicoterapeutas Descobrem
a Fenomenologia e o Existencialismo. Maceió: texto sob revisão.
- Keleman,S.(1997). Viver o Seu Morrer. São Paulo:Summus.
- Marcondes, D.(1999). Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar.
- Pessoa,F.(1993). Poesias de Álvaro de Campos. São Paulo:
Martins Fontes.
- Prado, A.(1999). Oráculos de Maio. São Paulo: Siciliano.
- Queirós, B.C. (2001). Flora. Belo Horizonte: Miguilim.
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