Carl Gustav Jung

 
Brenda Gottlieb
 

Carl Gustav Jung foi um psiquiatra suíço que, juntamente com Freud, desenvolveu as primeiras teorias psicológicas fundamentadas no inconsciente. É impossível falar de Jung sem nos referirmos à sua obra, um esforço que, ao final de sua vida, resultaria numa coleção de escritos reunidos em 18 volumes.

Jung era filho de um pastor protestante e de uma mãe afeita ao espiritismo. Talvez essa filiação possa explicar o fato de os eventos mais importantes de sua infância terem sido marcados por sua imaginação, seus sonhos e suas especulações místicas e religiosas. Logo após ter ingressado na faculdade de Medicina, aos 20 anos, Jung perdeu seu pai e acabou contando com o auxílio de um tio materno para poder completar seu curso. (1)

Primeiros Anos

Logo no início de seus estudos médicos , Jung passou a interessar-se pelas relações entre a Teologia e a Psicologia e, de 1895 a 1899, praticou experimentos espiritualistas com uma prima materna que costumava apresentar transes. Sua dissertação de conclusão do curso de Medicina - intitulada Sobre a Psicologia e a Patologia dos assim chamados Fenômenos Ocultos, publicada em 1902, sob a orientação do Professor Eugen Bleuler - versava sobre esses experimentos. Em 1900, o então jovem médico decide-se pela psiquiatria e inicia sua carreira no Hospital Burgölzli, como assistente do Doutor Bleuler. Procurando compreender o sentido do comportamento psicótico, Jung deu início a investigações que levaram à publicação de dois importantes trabalhos: A Psicologia da Precoce (doença que anos mais tarde seria chamada de esquizofrenia), em 1906, e O Conteúdo das Psicoses, em 1908. Estes dois textos, frutos de seu contato com os doentes do Hospital Burgölzli, lançaram luzes para a compreensão do sentido das alucinações e paranóias. Do início de sua carreira médica até o ano de 1910, dedicou-se ao estudo das chamadas psiconeuroses. Em seu laboratório de psicopatologia experimental, aprofundou-se na investigação das neuroses através do experimento deassociações de palavras. Nesse experimento, os sujeitos testados deviam responder o maisrapidamente possível a uma série de palavras-estímulos: o tempo que levavam para responder e o conteúdo de suas respostas constituíam o material básico de reflexão para o pesquisador. E foi a partir dessa reflexão que Jung formulou o conceito de complexo psicológico, central em sua teoria. Para ele, os complexos foram definidos na época como conteúdos autônomos do inconsciente que se manifestavam no experimento sob a forma de demora para responder à palavra-estímulo ou do aparecimento de emoções inesperadas nos sujeitos. Com o desenvolvimento de seus estudos, Jung ampliou o conceito de complexo e passou a usá-lo para designar conteúdos emocionais reprimidos capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes ou sintomas de neurose (2).Por suas investigações nesse campo, Jung receberia o título de Doutor Honorário da Universidade de Massachusetts. O método experimental, tão característico nesse trabalho, marcou a tal ponto a trajetória de Jung que em 1950, em carta endereçada ao filho de Bleuler, ele escreveria: "o rigoroso método de observação que aprendi no Burghölzli acompanhou-me sempre, ajudando-me a manter um olhar objetivo sobre a psique" (3).

Encontro e desencontro com Freud

O ano de 1900 representaria um marco na vida de Jung. É nesse ano que ele entra em contato com a obra de Freud, através da leitura do texto A Interpretação dos Sonhos. Contudo, somente em fevereiro de 1907 ele teria o seu primeiro encontro pessoal com o fundador da psicanálise. Os dois homens conversaram animadamente durante treze horas seguidas. Jung referiu-se a este encontro como essencial, e a Freud como o primeiro homem de real importância em sua vida. Esse primeiro contato deu início a uma caudalosa correspondência (4) e a uma intensa colaboração científica. Em 1909 viajam juntos para proferir uma série de conferências na Clark University, em Massachusetts. Nessa ocasião, Jung discorreu sobre seu método de associação de palavras e Freud sobre o método Psicanalítico. Nessa época Freud referia-se a Jung como seu sucessor, fato que despertava certo desconforto em Jung, que já antevia diferenças importantes entre seu pensamento e as formulações de Freud, sobretudo no que dizia respeito a conceitos básicos, religião, sexualidade e interpretação dos sonhos, bem como e principalmente no que se referia à teoria da libido. Com o tempo, essas divergências se aprofundaram e levaram à ruptura de sua colaboração, um ano depois de Jung publicar seu seminal Transformações e Símbolos da Libido, obra mais tarde revisadae intitulada Símbolos de Transformação. Texto fundamental dentro do conjunto da obra de Jung, em Símbolos de Transformaçãoele desenvolve uma interpretação psicológica das fantasias de Miss Miller, uma jovem americana que sofrera um episódio psicótico. O conteúdo mitológico das fantasias de Miss Miller deram suporte à teoria de Jung da existência de um psiquismo impessoal: o Inconsciente Coletivo. Segundo Jung, "Assim como o corpo humano possui uma anatomia comum, acima e além das diferenças raciais, também a psique humana possui um substrato que transcende a toda diferença cultural e consciente." (5) ; ou, ainda em suas próprias palavras, "É o repositório de todas as experiências humanas desde seu mais remoto início." (6). Este conceito, que amplificava o conceito de inconsciente tal como postulado por Freud, foi o grande responsável pelo afastamento de Jung da escola de Psicanálise. Sobre seu rompimento com Freud, Jung escreveria, em 1950: "A coisa toda explodiu como um terremoto impossível de ser detido [...] Por dois meses fiquei paralisado, sem poder continuar a escrever, sabia que esta publicação me custaria a amizade de Freud." (7). Após seu rompimento com Freud, Jung atravessou um período de incertezas e desorientações, chegando mesmo a interromper sua cátedra, já que não considerava correto ensinar jovens alunos quando ele próprio estava tão confuso. Vicissitudes à parte, importa sublinhar que é a partir do conceito de Inconsciente Coletivo que Jung formularia o conceito de arquétipo, também denominado como "imagem primordial". Forças inconscientes ou tendência instintiva para formar representações, os arquétipos, nas palavras de Jung, "existem pré-conscientemente e provavelmente formam as dominantes estruturais da a todos os seres vivos a sua índole específica". (8) Jung enfatizava também a necessidade de se diferenciar o "arquétipo em si" - isto é, o não-perceptível e apenas potencialmente existente - do "arquétipo perceptível, atualizadoe representado", ou seja, distinguir sempre "o arquétipo de sua imagem arquetípica".

Seis anos de crise: Descobertas

Pouco tempo depois de romper com Freud, Jung investe maciçamente no auto conhecimento e na pesquisa de seu próprio inconsciente, iniciando uma jornada que duraria quase seis anos. A olhos desavisados, esse período poderia mostrar até mesmo traços de perturbação psíquica. Para o observador atento, contudo, ele representou um enorme passo adiante na compreensão das fantasias e dos conteúdos do inconsciente profundo. "Os anos em que estive possuído por minhas imagens profundas, foram os mais importantes de minha vida - neles tudo de essencial foi decidido." (9) A pressão interior era intensa. Sonhos de morte e renascimento levam-no ao desespero. Para fazer frente a esse tumulto interior, Jung começou então a brincar com pedras à margem do lago de sua casa em Küsnacht, construindo com elas uma cidadezinha em miniatura, atividade que manteria pelo resto de sua vida. Além do jogo com pedrinhas Jung fazia também da pintura e da escultura formas através das quais podia aproximar-se e compreender o inconsciente através das imagens. "Sei tão pouco acerca do que o inconsciente pede que simplesmente o deixo entregue às minhas mãos, de maneira que, depois, eu possa pensar acerca daquilo a que dei forma." (10) Foi durante esse período de crise que Jung pintaria sua primeira mandala. No Lamanismo e no Yoga, a mandala é uma representação circular do cosmo em conexão com os poderes divinos, utilizada como instrumento de contemplação. Para Jung a mandala era a representação do processo psíquico de individuação, regido pelo self, um princípio ordenador central, o arquétipo que engloba, organiza e regula todos os outros.No pensamento junguiano, a individuação é a busca do ser total, do desenvolvimento de nossas possibilidades inerentes, ou seja a possibilidade de reencontrar-se com os aspectos que foram negligenciados em nossa personalidade.

Mandalas, I Ching e alquimia

O isolamento de Jung seria interrompido ao receber do sinólogo Richard Wilhelm um exemplar de um manuscrito chamado O Segredo da Flor de Ouro, acompanhado do pedido para que escrevesse um comentário psicológico sobre o texto. O encontro com Wilhelm e com essa obra não romperia o isolamento de Jung como também daria início a um período de frutíferas trocas. Richard Wilhelm - que introduziu no Ocidente o I Ching, um antiquíssimo oráculo chinês - tentava estabelecer paralelos entre o pensamento de Jung e os ensinamentos do oráculo, acreditando que a psicologia de Jung havia atingido um extrato profundo da psique humana e que os conceitos por ela mobilizados aproximavam-se de padrões similares àqueles encontrados na sabedoria chinesa. Paralelamente a seu interesse pelo I Ching e pelo significado das mandalas, Jung passou também a pesquisar a Alquimia, lendo praticamente tudo que podia encontrar publicado. Começou a cotejar as experiências dos alquimistas com suas próprias percepções sobre o processo de individuação. Na tradição alquímica há uma imagem central, a do Opus, que representa a busca sagrada de um valor supremo. Alcançá-lo exige paciência, coragem e, acima de tudo, uma atitude religiosa. Para Jung, o esforço da individuação era análogo à busca dos alquimistas: desvendar o segredo capaz de transformar a matéria em ouro, encontrar a "pedra filosofal". Enviada por Deus, essa pedra era o ponto de partida e o alvo do Opus alquímico. "Vi logo que a Psicologia Analítica concordava singularmente com a Alquimia. As experiências dos alquimistas eram minhas experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu.......A seqüência toda de operações alquímicas bem poderia representar o processo de Individuação de uma pessoa." (11)

Viagens

Em 1920 Jung fez sua primeira viagem à África. Conhecer aquele novo mundo causar-lhe-ia um grande impacto, não somente pelas novas experiências que aquela cultura lhe oferecia, mas também pelas revelações internas que lhe proporcionavam. De acordo com o próprio Jung, um europeu que jamais tivesse deixado seu continente não poderia perceber singularidades e diferenças que o contato com, e o abrir-se a, outras culturas possibilita. Para ele, sair da Europa representava uma possibilidade de relacionar-se com partes de sua personalidade que permaneciam invisíveis. Em janeiro de 1925 visita os Índios Pueblos no Novo México, em outubro do mesmo ano volta à África e em 1938 conhece a Índia. Em suas viagens Jung não se limitava à observação e à admiração da fauna, da flora e da natureza em si mesma, prestando atenção sobretudo à natureza humana.

A contribuição de Jung

"Aqui [em psicoterapia] temos de seguir a natureza como um guia, então o que fazemos como terapeutas é menos uma questão de tratamento do que de desenvolvimento das possibilidades criativas latentes no paciente." (12) O legado de Jung expandiu nosso conhecimento sobre o homem e sobre a natureza humana. Dentre suas inúmeras contribuições, quatro não podem deixar de ser destacadas. Em primeiro lugar, uma teoria sobre a estrutura e a dinâmica da psique consciente e inconsciente, bem como sobre as formas pelas quais o inconsciente se manifesta. Em segundo lugar, uma teoria sobre os tipos psicológicos. Em terceiro lugar, um estudo sobre psicologia do desenvolvimento da personalidade, articulado no conceito de "individuação". E, finalmente, uma descrição completa das imagens universais, ou arquétipos, derivadas da psique profunda do inconsciente coletivo. Jung concebeu a psique como um sistema energético dinâmico em constante movimento. À energia psíquica geral deu a designação de libido, que flui sempre entre dois pólos opostos. À resultante dessa dialética entre consciente e inconsciente denominou processo de individuação, tema central de toda sua teoria. Com esse pressuposto, levou a prática da psicoterapia para fora do foco da psicopatologia, conferindo sentido e propósito aos sintomas psíquicos. Longe de ser apenas mais uma teoria psicológica, o legado de Jung abrange o universo em todas suas manifestações: arte, história, mitologia, filosofia e espiritualidade. A vida de Jung é o testemunho concreto do que consiste uma vida vivida em termos de buscas e de descobertas. "A minha vida é o que eu fiz: a minha obra científica. São inseparáveis uma da outra. A obra é a expressão da minha evolução interior" (13). Para os que gostariam de encontrar aqui fatos e acontecimentos pessoais da vida de Carl Gustav Jung, respondemos com as próprias palavras desse pensador: "...O destino quer - como sempre quis - que na minha vida todo o exterior seja acidental e que só o interior represente algo de substancial e determinante. É assim que todas as lembranças de acontecimentos exteriores empalideceram: mas talvez nunca tenham representado algo de essencial, ou apenas o foram na medida que coincidiam com as fases do meu desenvolvimento interior. Um número incalculável dessas manifestações exteriores caiu no esquecimento justamente porque, como então me parecia,todas as minhas forças estavam empenhadas nelas. Ora, são estes episódios exteriores que tornam uma biografia compreensível - pessoas que se conheceram, viagens, aventuras, complicações, golpes do destino e assim por diante. Com poucas exceções, tudo isso se metamorfoseou, no limite das minhas lembranças, em imagens - fantasmas que minha mente não deseja reconstruir e nem dar asas a minha imaginação" [...] Não posso me referir aos meus relacionamentos mais íntimos, que me voltam à mente como lembranças longínquas, pois constituem não somente minha vida mais profunda como também a dos meus amigos.Eles não me pertencem e eu não posso expor aos olhos do mundo estas portas que para sempre deverão permanecer fechadas" . (14). Para a elaboração desta home page valemo-nos fartamente da bela obra C.G.Jung- Word and Image, editada por Aniela Jaffé e publicada pela Princeton University Press.

Carl Gustav Jung 1875-1961

1875 Nasce em 26 de julho, em Kesawill, na Suíça, filho do Pastor Protestante Johann Paul Achilles Jung e de Emilie Preiswerk. 1884 Ingressa no colégio na Basiléia. 1895/1900 Estuda ciências naturais e depois medicina na Universidade da Basiléia, concentrando-se no campo da psiquiatria. 1898 Inicia os estudos preliminares para sua dissertação "Sobre a Psicologia e Patologia dos assim chamados Fenômenos Ocultos". 1900 Completa o curso de medicina e em 10 de dezembro assume o cargo de assistente de Eugen Bleuler no Hospital Mental Burghölzli (Clínica Psiquiátrica da Universidade de Zurique). Entra em contato com a obra de Sigmund Freud. 1903 Casa-se com Emma Rauschenbach (1882 - 1955). Desse casamento nasceriam cinco filhos: Agathe, Gret, Franz, Marianne e Helene. 1905 Qualifica-se como professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Zurique e torna-se médico sênior do Burgölzli. 1907 Primeiro encontro com Freud, em Viena. 1909 É convidado pela Clark University para proferir palestras sobre seus estudos a respeito de associações de palavras. Viaja com Freud, que ali profere palestras sobre sua própria obra. 1910 Fundação da Associação Psicanalítica Internacional. Jung é nomeado seu primeiro Presidente, cargo que ocuparia entre 1910 e 1914. 1911/1914 Rompimento gradual com Freud. 1918/1919 Estudos sobre a mandala, o I Ching e a alquimia. 1920 Viagem à Argélia e à Tunísia. 1924/1925 Visita aos Índios Pueblos do Novo México. 1925/1926 Expedição ao Quênia, onde convive com os Elgonyi. 1933 Nomeado professor do Instituto Federal de Tecnologia, em Zurique, cargo que ocuparia até 1941. 1933/1951 Participante e professor nas Conferências Eranos, centro de estudos de trocas científicas e culturais, em Ascona. 1938 Viagem à Índia. Recebe doutorados honorários de diversas universidades da Índia, da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Suíça, bem como da Real Sociedade de Medicina de Londres. 1944 Nomeado professor de Psicologia Clínica da Universidade de Basiléia. Renuncia no mesmo ano por motivos de saúde. 1948 Fundação do Instituto C. G. Jung, em Zurique. 1955 Em 27 de novembro, falecimento de Emma Jung. 1961 Falece em sua casa, no dia 6 de junho, aos 86 anos.

1. Cf. C.G.Jung Word and Image, Editado por Aniela Jaffé, Princeton University Press, 1979, pág. 22. Em outro texto Introdução à Psicologia de Jung, por Frieda Fordham, Editora Verbo EDUSP,1978, pág.112, a autora relata que apesar de ter conseguido uma bolsa de estudos para que pudesse completar seus estudos, ainda assim, Jung teve que trabalhar para fazer frente às despesas acadêmicas. 2. Cf. O Homem e seus Símbolos, Carl G. Jung, Editora Nova Fronteira, 1964,pág. 28. 3. Cf. C.G.Jung, Word and Image, pág. 40 4. Cf. Ver A Correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. William Mc Guire (org.). Imago Editora, Rio de Janeiro, 2a edição, 1993. 5. Cf. CW, vol 13 p. II, citado em Word and Image, pág. 52. 6. Cf. CW, vol. 8, p. 270. 7. Cf. Memórias, Sonhos e Reflexões, pág. 167/162, citado em C. G. Jung - Word and Image, pág. 56. 8. Cf. Complexo Arquétipo Símbolo na Psicologia de C.G. Jung, Jolande Jacobi, Editora Cultrix, São Paulo, 1986, pág. 37 9. Cf. Memórias, Sonhos e Reflexões. C.G.Jung, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1963, pág. 199 10. Cf. M.S.R., pág. 176 11. Cf. M.S.R., pág. 181. 12. Cf. CW, vol. 16, p. 82. 13. Cf. M.S.R., pág. 211. 14. Cf. M.S.R., págs.13/14
Copidesque: Rui Fontana Lopez

Brenda Gottlieb, Analista Junguiana,
Trainee da Sociedade brasileira de Psicologia Analitica ;
Filiada a Sociedade Internacional de Jung.

 
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